Lourenço Beirão da Veiga: O regresso à Europa, a competição no Brasil e… o ataque cardíaco do Sr. Bastos
Lourenço Beirão da Veiga, um dos nomes mais experientes do automobilismo português, tem agora o foco no Brasil, onde se tem destacado e criado uma excelente base. Presente no Estoril como coach, LBV falou ao AutoSport e fez o balanço do que tem sido esta aventura transatlântica.
Beirão da Veiga começou por reconhecer que, atualmente, provavelmente conhece mais pessoas no paddock da Porsche Cup Brasil do que nos paddocks nacionais, lamentando esse facto. No entanto, não demorou a apontar o que realmente o impressionou desde o início da sua caminhada pelos campeonatos brasileiros:
“O ambiente que se vive lá é, de facto, diferente. Vive-se um ambiente quase à americana. As corridas são muito competitivas, mas a parte humana é muito boa”, conta Lourenço. O que mais o impressionou foi a distinção que os pilotos fazem entre o que acontece na pista e a vida fora dela. “No início nem tirava o capacete quando as corridas terminavam porque, dentro de pista, fervia muito e pensava que poderia haver alguma animosidade, dadas as lutas acirradas. Mas no final vinham ter comigo e diziam: ‘Grande corrida, grande luta, vamos agora ao churrasco’. E, por acaso, vai tudo para as caravanas. Fiquei surpreendido com a forma como conseguem distinguir o que é corrida e o que é fora da corrida, e isso é muito bom.”
Além do companheirismo, o piloto é um confesso adepto do estilo de competição. “São carros, como eles dizem, mais ‘raiz’, não é? Sem ajuda eletrónica… mais antigos… e isso também gosto. As pistas também são à antiga, onde qualquer erro se paga caro, e isso traz uma emoção extra.” A competitividade é outro fator-chave, com a possibilidade de lutar com grandes nomes e grandes talentos.
O Futuro e o Desejo de Voltar a Casa
Apesar de feliz no Brasil, o piloto não esconde o desejo de voltar. “Gostava e quero… adoro ir ao Brasil, mas todos os meses ainda é um bocadinho longe e é cansativo. Quem corre por gosto não cansa, mas tenho a intenção de voltar à Europa. Abriu-se essa porta agora e, quando se começa um percurso assim, acabamos por ser um pouco esquecidos aqui.”
Lourenço Beirão da Veiga quer reabrir portas na Europa e competir também em Portugal. “Não deixo de ser português e gosto de correr cá também… e gostava de reabrir essa porta, seja nos nacionais ou num campeonato competitivo na Europa. Gosto mais de GTs e, nessa base, porque não voltar ao GT Open ou a outra competição do género?”
Para ele, a competitividade é inegociável. “Eu não vou à toa. Tenho de ter as condições para ser competitivo. Já não tenho idade para ir para as pistas sem a noção de que posso, de facto, lutar por bons resultados. Vou com o objetivo de lutar por algo e, se não for assim, também vejo bem na TV.”
A paixão pelas corridas é grande, mas a sua mentalidade mudou. “Eu quero estar sempre na pista, mas o problema é que já percebi que, se não for competitivo e não chegar ao meu potencial, não me divirto. E acho que, se for para fazer bem as coisas, tenho de as fazer de coração e estar a divertir-me. Claro que há alturas em que não nos conseguimos adaptar e aí sei reconhecer que é uma questão minha e não da equipa. Mas, se não me divertir, é porque não estou no sítio certo.”
Uma Carreira de Histórias e Lições
Lourenço Beirão da Veiga conta com mais de 30 anos de carreira e muitas histórias para contar. LBV salientou que foi feliz em grande parte da sua carreira, no entanto realçou a passagem menos conseguida pela Fórmula Renault, quando competia sem simuladores e com poucas horas de pista, como um dos momentos menos felizes.
“Vinha da Fórmula BMW, onde as coisas correram bem. Cheguei à Fórmula Renault em que participei em provas com 60 carros. Havia pilotos que faziam três campeonatos ao mesmo tempo. Eu chegava às pistas, quase não sabia para que lado era… Lembro-me de Spa, com 30 minutos de treinos livres e depois qualificação. Primeiro que entrasse na pista já tinham passado 10 minutos de treino. Dava cinco voltas e ia para a qualificação.”
No entanto, vê essa fase como uma lição importante. “Foi realmente onde aprendi mais e tive de pedalar, porque quando as coisas correm bem… é só acelerar. Ali, quando as coisas não correm bem, tens de dar um passo gigante para tentar estar minimamente competitivo.”
Entre as muitas vitórias, destaca algumas com carinho, como a que teve no GT Open, em que fez dupla com António Félix da Costa, quando completou um stint sem o splitter dianteiro, sem frente no carro, com um comboio atrás. “Foram 30 minutos de sofrimento a fechar e a defender a posição.”
O Ataque Cardíaco Provocado a Artur Bastos
Há pessoas que se tornam importantes pela aposta convicta que fazem nas capacidades dos pilotos. Artur Bastos foi uma dessas pessoas, que olhou para Lourenço Beirão da Veiga e viu nele talento e capacidade para chegar mais além. Essa aposta revelou-se decisiva, pois LBV vinha de uma época menos conseguida.
“Tenho um carinho enorme pelo Sr. Bastos. Vinha de um ano em que as coisas não correram bem e ele pegou em mim e devolveu-me a vontade de ganhar e de fazer bem as coisas. Foi na altura do Troféu Seat, em que tínhamos talvez a pior estrutura, mas depois a verdade é que chegávamos lá e acelerávamos, e isso dava um prazer extra. É a pessoa com mais paixão pelos automóveis que conheci.”
A paixão de Artur Bastos era tanta que, antes de uma corrida que Beirão da Veiga acabou por ganhar, o carro não pegava. “Numa corrida que tive em Pau, a minha primeira prova citadina, o carro não pegava e tínhamos de ir para a grelha. Ele dá um murro nos fusíveis… voltou a ligar e disse: ‘Não desligues mais o carro, agora vai’. Fui para a corrida e ganhei.”
A história, com final feliz na corrida, teve um desfecho dramático: “Ele saiu dali direto para o hospital com um problema no coração, para ser operado, do stress que vivia e pela forma como se entregava para que tudo corresse bem comigo. Fui visitá-lo ao hospital e, como a próxima corrida estava marcada para daí a três semanas, perguntei-lhe se conhecia alguém de confiança, enquanto ele recuperava. Só me respondeu: ‘Que conversa é essa? Eu tenho de ir. Se for posso morrer, se não for posso morrer na mesma.’ A verdade é que, três semanas depois do ataque cardíaco, estava em pista comigo em Zolder e fiz segundo na corrida.”
A Realidade do Automobilismo Nacional e Brasileiro
Lourenço acompanha, com alguma distância, os campeonatos nacionais de velocidade e acredita que o nível está a subir. “Acho que realmente está a crescer bastante. Isso dá prazer ver, porque nós queremos é que isto seja competitivo… Acho que está a chegar a um ponto em que começa a ser muito interessante.”
Questionado sobre o que traria do Brasil para Portugal, a resposta é imediata: “Trazia exatamente o que disse: o companheirismo… e a leveza com que eles veem as coisas. Acho que isso é importante para não haver tanta ‘guerrilha’ que há aqui, aquela vontade de ser o maior do bairro. E trazia também o público. Há provas onde vou e estão 55 mil pessoas. Há pessoas que passam o fim de semana todo com as caravanas, a fazer churrascos e a viver a experiência por dentro.”
O futuro a curto prazo deverá passar por manter a competição no Brasil. “É quase garantido. Lá sou feliz.” No entanto, o desejo de regressar à Europa mantém-se e é forte. “Gostava de voltar, sem dúvida.”
A paixão por aquilo que faz e a humildade do piloto transparecem em cada palavra, mostrando que, para Lourenço Beirão da Veiga, o mais importante é sentir a emoção das corridas.
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