A Cadillac chega a Le Mans 2026 como um projeto em maturação: já mostrou ritmo para andar com os da frente, mas o triunfo tem escapado ao V‑Series.R na era Hypercar. Com um carro evoluído e uma operação que junta a Hertz Team JOTA do WEC e a Wayne Taylor Racing do IMSA, a marca americana volta a ambicionar seriamente a vitória à geral.
Raízes americanas em La Sarthe
A história da Cadillac em Le Mans começa em 1950, com o irreverente Briggs Cunningham a inscrever dois Cadillac Série 61 para enfrentar os protótipos europeus: o coupé praticamente de série, apelidado de “Petit Pataud”, e o radical “Le Monstre”, com carroçaria aerodinâmica extrema desenhada para maximizar a velocidade em Mulsanne. Terminando em 10º e 11º , demonstraram que um pesado V8 americano podia sobreviver às 24 horas.
Depois de um longo hiato, a Cadillac regressou no início dos anos 2000 com o programa Northstar LMP, um protótipo LMP900 com V8 biturbo que mostrou potencial, mas nunca quebrou o domínio da Audi. O melhor resultado em Le Mans chegou em 2002, com os Northstar LMP‑02 a terminarem em 9.º e 12.º da geral, os melhores resultados da marca na era moderna antes do regresso com o V‑Series.R.
A Era V‑Series.R: regresso ao topo
O regresso em força deu‑se em 2023, com o Cadillac V‑Series.R, um LMDh construído sobre chassis Dallara, equipado com o motor V8 atmosférico de 5,5 litros. Logo na primeira participação moderna em Le Mans, o #2 (Bamber/Lynn/Westbrook) foi 3.º absoluto, o #3 terminou em 4.º e o #311 (Action Express Racing) fechou em 17.º na geral e 10.º na classe Hypercar.
Em 2024, a Cadillac voltou com três carros e enfrentou uma edição bem mais dura: o #2 terminou em 7.º, o #311 (Whelen Cadillac Racing) caiu para 29.º após um acidente e o #3 abandonou com problemas mecânicos, deixando a sensação de oportunidade perdida. Em 2025, numa operação com quatro carros, a marca bloqueou a primeira linha da grelha, Hyperpole de Alex Lynn no #12, mas todos os Cadillac terminaram fora do pódio (o melhor classificado foi o #12, que terminou na quarta posição).
Our 2026 line-up is complete 💪#CHTJ #JOTASport #WEC pic.twitter.com/B7vzMjQ3c6
— Jota Sport (@JotaSport) November 12, 2025
V‑Series.R 2026: carro revisto, foco na consistência
Em 2026, a Cadillac Hertz Team JOTA apresenta um V‑Series.R significativamente evoluído, com um pacote aerodinâmico redesenhado para melhorar o comportamento do carro no trânsito e reduzir a perda de apoio quando segue outros carros. O objetivo passa por oferecer aos pilotos uma plataforma mais estável e previsível em stints longos, condição essencial para manter o ritmo em corridas de seis e 24 horas.
O sistema de travagem também foi alvo de um trabalho exaustivo, com a adoção de um pacote completo Brembo. Trata‑se de uma área crítica em circuitos como Imola, Spa e Le Mans, onde a repetição de travagens fortes ao longo de stints longos exige consistência e estabilidade, precisamente um dos pontos em que a Cadillac procura reduzir a desvantagem face a referências como Toyota, Ferrari e BMW.
A época arrancou com Will Stevens e Norman Nato a assumirem o grosso do trabalho nas primeiras rondas, com Louis Delétraz a completar o trio também em Le Mans, na ausência continuada de Alex Lynn, ainda em recuperação de uma lesão cervical.
Imola: ritmo para mais do que o resultado mostra
Na abertura do WEC em Imola, a Cadillac mostrou desde cedo a evolução do V‑Series.R. Norman Nato colocou o #12 em 5.º lugar na Hyperpole, enquanto o #38 de Bourdais/Bamber/Aitken partiu de 13.º na grelha. Em corrida, o #12 andou solidamente na luta pelo top 5 e pelo pódio nas primeiras fases, rodando no grupo da frente antes de ver a sua prova comprometida. Uma penalização por incumprimento de bandeiras amarelas (um drive‑through convertido em tempo na paragem de boxes) destruiu a hipótese de discutir os lugares do pódio, atirando o #12 para fora dos pontos. No final, o #38 salvou um 8.º lugar, na mesma volta do vencedor, enquanto o #12 terminou em 13.º, a uma volta, resultado que ficou aquém do ritmo mostrado ao longo da corrida.
Spa: corrida dura, mas sinais de velocidade
Em Spa‑Francorchamps, a Cadillac voltou a mostrar argumentos. Will Stevens colocou o #12 na primeira linha, em 2.º da grelha, enquanto o #38 partiu de 5.º, com Earl Bamber a assumir o primeiro turno. Na partida, Stevens lançou o Cadillac para a liderança e controlou o ritmo nas voltas iniciais, assinando tempos de referência com pista livre.
A prova complicou‑se com uma penalização de cinco segundos por track limits, que atirou o #12 para o meio do pelotão num contexto de dirty air e tráfego constante, limitando qualquer recuperação séria. Ao cabo de seis horas, o carro cruzou a meta em 9.º, somando pontos, mas aquém do potencial mostrado. O #38 teve uma jornada ainda mais complicada: depois de um arranque sólido, um contacto com um GT provocou um furo e obrigou a uma paragem não planeada; mais tarde, um problema de transmissão causou perda de tração e o inevitável abandono.
No conjunto das duas primeiras rondas, o retrato é claro: o V‑Series.R tem ritmo para rodar no grupo da frente, mas penalizações, incidentes e pequenos erros têm impedido a Cadillac de transformar velocidade em pódios.
Le Mans 2026: três carros a tentar o topo
Para as 24 Horas de Le Mans 2026, a Cadillac aposta na força dos números: três V‑Series.R em pista, dois inscritos pela Hertz Team JOTA no WEC e um terceiro vindo do IMSA com a Wayne Taylor Racing, com o nosso Filipe Albuquerque a regressar pela 13ª vez a Le Mans.
- Cadillac Hertz Team JOTA #12 — Will Stevens / Norman Nato / Louis Delétraz
- Cadillac Hertz Team JOTA #38 — Sébastien Bourdais / Earl Bamber / Jack Aitken
- Cadillac Wayne Taylor Racing #101 — Ricky Taylor / Jordan Taylor / Filipe Albuquerque
Com três carros na grelha, um V‑Series.R evoluído e uma estrutura técnica que já provou ser capaz de rodar ao ritmo dos favoritos, a Cadillac chega a Le Mans 2026 como potencial candidato. A marca ainda procura o primeiro grande triunfo e sabe que, se conseguir finalmente juntar fiabilidade, execução e ritmo na mesma semana, este pode ser o ano em que o V‑Series.R deixa de ser apenas promissor para se tornar histórico.








