Pequenos milagres

Por a 14 Outubro 2007 14:52

Se quisermos espreitar por cima do ombro e tentar descrever como se fazia o AutoSport nos seus primórdios, somos dominados por dois sentimentos distintos: a nostalgia dos bons velhos tempos do desporto automóvel e a incredulidade face ao desafio que representava editar o Semanário dos
Campeões.

Na altura em que o AutoSport era dado à estampa à terça-feira, as 24 horas que mediavam entre os acontecimentos do fim-de-semana e a impressão do jornal impunham um ritmo alucinante.

Ao longo da semana eram paginados os conteúdos que não tinham a chancela de última hora, trabalho que se prolongava até ao final da tarde de domingo. Nessa altura começavam a chegar as primeiras reportagens sobre os mais diversos eventos e acelerava-se o processo de produção do jornal, por norma ao longo da noite. Na segunda-feira recebiam-se os derradeiros textos e imagens, sendo a pressão em crescendo até perto das 17 horas, altura em que tudo que tinha de estar pronto, a nível de redacção. Depois,
bom, depois era esperar, à boca da máquina, por mais uma edição.

Mas até o jornal chegar às nossas mãos, ainda com o tão peculiar cheiro a tinta, um longo processo tinha sido percorrido.

Domingo 22 horas: o responsável gráfico do jornal, acompanhado pelo chefe de redacção, ou pelo editor, desenha as maquetas das páginas numa folha de papel do tamanho do jornal, com idêntico número de linhas e onde se marcavam os títulos, o espaço ocupado pelas fotografias e a mancha de
texto. Quanto a este último as origens eram diversas: ou era escrito pelo jornalista, na redacção (ou no local de reportagem), batucando as teclas de uma velha máquina de escrever, ou chegava através do telex. Estes telex eram cortados e colados nas mesmas folhas de papel onde o jornalista escrevia e que se denominavam laudas, tendo um número expresso de linhas e de batidas de texto por linha. Tudo isto servia para que o maquetista conseguisse contar o número de caracteres de um texto e, com o auxílio de uma régua especialmente graduada (a regreta), soubesse exactamente que mancha de texto ia ocupar a página do jornal, quantas fotografias iam ser necessárias e desenhasse a respectiva página ou páginas.

Corta e cola Depois de finalizadas, as maquetas, acompanhadas pelas fotos previamente escolhidas e pelos textos, seguiam para a foto-composição, onde técnicos especializados batiam os textos de acordo com as maquetas (entradas e número das colunas), saindo impressas em tiras de texto. Essas tiras passavam pela revisão e chegavam às mãos dos montadores que, em amplas bancadas e tendo como modelo as citadas maquetas, as colavam com cera nas respectivas páginas.

Entretanto, a secção de fotografia utilizava a repromaster para reproduzir os originais, efectuando os necessários enquadramentos, um processo bem mais complicado, quando era utilizada a cor, ou o grafista do AutoSport pretendia abrir títulos nas fotos.

Antes da impressão, efectuava-se a passagem das páginas devidamente montadas às chapas, que eram posteriormente colocadas na rotativa Comunity, onde o AutoSport era impresso. Na altura o chefe de máquina da CEIG, José Arede, dedicava um carinho muito especial ao AutoSport e realizava verdadeiros prodígios na afinação, tal como nos conta: «O AutoSport tinha muita qualidade em relação a outros jornais e elevados critérios de exigência na impressão. Por isso e das duas rotativas que tínhamos, procurávamos sempre imprimir o jornal na Comunity, que tinha estufa e,
portanto, melhorava a qualidade final. Os directores do AutoSport sempre foram muito exigentes nesta área e eu, tal como a minha equipa, procurávamos responder com o melhor jornal possível.»

Faltava apenas esperar o tempo necessário e suficiente para que os jornais de afinação deixassem de ir para a tulha e o AutoSport, finalmente, começasse a ser encaminhado para a distribuição.

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