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F1, Tiago Monteiro: a história do 1º ano na Jordan, revisitada: “superamos as expectativas”

José Luis Abreu by José Luis Abreu
15 Dezembro, 2025
in AutoSport Histórico, F1, FÓRMULA 1, pv2
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Há vinte anos, em 2005, Portugal via o seu último piloto, Tiago Monteiro, a competir na Fórmula 1. Antes dele, nomes como Casimiro Oliveira, Nicha Cabral, Pedro Matos Chaves e Pedro Lamy tinham sido os representantes lusos. Depois de Monteiro, Álvaro Parente e António Félix da Costa bateram à porta da categoria rainha, com este último a ter a oportunidade quase concretizada, mas a porta aberta, fechou-se num ápice.
Hoje, recordamos o balanço daquele primeiro ano de Fórmula 1, pelas próprias palavras de Tiago Monteiro, conforme foram contadas na altura, em 2005, no AutoSport.

Tiago Monteiro (POR), Team Jordan Toyota. Monte-Carlo.

A temporada de estreia: um balanço positivo
Terminado o Campeonato do Mundo de F1 de 2005 e enquanto preparava a renovação do seu contrato com a Midland, tinha chegado a hora de Tiago Monteiro fazer um balanço sobre a sua temporada de estreia na categoria maior do automobilismo. Foi uma temporada onde o pódio de Indianapolis foi, claramente, o ponto alto, mas onde a consistência do piloto português o fez ser notado no meio do pelotão, apesar das evidentes limitações do seu Jordan-Toyota.

Como o melhor dos estreantes em Grandes Prémios, Tiago Monteiro deixou uma imagem de grande profissionalismo e capacidade técnica no paddock da Fórmula 1. Por isso, equipas como a Williams estavam a sondá-lo para ocupar o lugar de terceiro piloto no ano seguinte, em 2006. Contudo, a sua prioridade continuava a ser a de correr, e o mais certo era que Tiago Monteiro fizesse um segundo ano com a equipa de Alex Shnaider, tendo, desta vez, o holandês Christijan Albers como companheiro de equipa. O que sucedeu!

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Olhando para os oito meses anteriores, o piloto do Porto não tinha dúvidas em considerar muito positiva aquela sua primeira temporada na Fórmula 1. “Achava que tínhamos superado as expectativas gerais, as nossas, as da equipa e as dos adeptos portugueses”, referia Tiago. “Sabíamos que a nossa tarefa iria ser muito complicada, pois estávamos numa das equipas mais pequenas do plantel, não tínhamos um carro verdadeiramente novo e pouco ou nada testavamos. Por isso, a ideia era a de aprender o mais possível e aproveitar todas as oportunidades que tivéssemos para fazer resultados. Foi isso que aconteceu, com o terceiro lugar em Indianapolis e o ponto conquistado em Spa, o que somado ao facto de ter podido lutar com pilotos de equipas mais fortes e ter terminado quase todas as corridas fez de 2005 um ano muito positivo, em que superamos todas as expectativas.”

Tiago Monteiro (POR), Team Jordan Toyota. Autodromo Jose Carlos Pace.

O pódio histórico em Indianápolis
A corrida de Indianápolis, disputada apenas pelas equipas que dispunham de pneus Bridgestone, foi a oportunidade de ouro para Tiago Monteiro mostrar o seu valor. Com os olhos do Mundo centrados em apenas seis carros, o português não podia lutar contra os Ferrari, mas também “não passou cartão” a Karthikeyan e aos pilotos da Minardi, caminhando tranquilo para um terceiro lugar histórico.

Mais do que os pontos conquistados, foi o impacto mediático deste resultado que ficou gravado na memória do nosso compatriota. “Até os mecânicos e engenheiros do Narain ficaram satisfeitos com o meu resultado e até ao final do ano toda a gente me falava daquele terceiro lugar, daquele pódio”, contava Tiago. “Ao fim e ao cabo, o Narain acabou em quarto lugar, ganhou apenas menos um ponto do que eu, mas ninguém fala nisso, só se fala no meu pódio, mesmo dentro da equipa, o que diz tudo do impacto que esse resultado teve. Aproveitei o melhor que pude aquela oportunidade e fiz o mesmo em Spa, quando a chuva me deu uma possibilidade de equilibrar as coisas com os pilotos das equipas mais fortes. Lutei com os Sauber, Red Bull e os Williams e marquei um ponto muito importante.”

Monteiro sublinhava que não fora só nessas duas corridas que dera o máximo. “Dei o máximo em todas as corridas e no Nurburgring e em Istambul, por exemplo, senti que não se podia tirar mais do carro, só que aí não tínhamos andamento para lutar pelos pontos. Acho que fiz o melhor que era possível, dominei claramente o meu companheiro de equipa, fiz quase todo o desenvolvimento do carro e, por isso, a equipa ficou muito satisfeita com o meu trabalho e quis manter-me para 2006.”

O início complicado e o ponto de viragem
Era evidente nas primeiras quatro corridas daquela temporada que Tiago Monteiro não estava a tirar o máximo partido do seu Jordan EJ15, pois o português andava atrás de Karthikeyan, que dava nas vistas pelo seu estilo espetacular. Uma situação que levou ao aparecimento de rumores quanto à sua saída da equipa, mas que nunca o tinha afetado. “Sei que algumas pessoas, também em Portugal, sem conhecerem bem a situação, a Fórmula 1 e a mim, levantaram esses rumores, mas dentro da equipa nunca se aventou, sequer, essa possibilidade”, explicava Tiago. “Conheço-me bem e sei como é que funciono. Não sou piloto de andar acima dos meus limites sem conhecer o carro; prefiro ir um pouco abaixo dos limites, enquanto aprendo tudo, enquanto acerto o carro para o meu estilo de pilotagem. Foi o que aconteceu nas primeiras corridas do ano e não escondo que o Narain se adaptou mais rapidamente à Fórmula 1 e foi mais rápido de entrada.”

Felizmente para Tiago, na equipa estavam algumas pessoas que o conheciam bem, como Trevor Carlin e Adrian Burguess, e eles sabiam como é que ele trabalhava, pelo que nunca tinha havido a menor preocupação com o que se estava a passar. “E a partir do GP de Espanha todos viram o meu verdadeiro potencial”, afirmava.

No final do mês de maio daquele ano, a Jordan viveu um período conturbado. Os carros amarelos tinham andado mal no Mónaco, Colin Kolles estava à beira dum ataque de nervos e Trevor Carlin despedira-se. Tudo isto acabou por ser um ponto de viragem para a equipa de Silverstone e daí para a frente tudo melhorou, segundo Monteiro. “No Mónaco fizemos tudo mal. Escolhemos os pneus errados, não tínhamos um bom acerto e fomos lentos. O Colin estava sob pressão e reagiu muito mal no final da corrida, mas tivemos uma conversa mais serena, explicamo-nos de olhos nos olhos e daí para a frente as coisas melhoraram muito. Foi pena o Trevor ter saído e admito que isso possa ter prejudicado o funcionamento da equipa em algumas áreas, mas em nada que me dissesse respeito diretamente. Perdi um amigo na equipa, o que é sempre pena, mas a nível de trabalho não senti a sua falta, até porque o Adrian também tem muita experiência. Mas o Trevor é um excelente profissional, só que o relacionamento com o Colin Kolles não era bom e, por isso, ele escolheu sair da equipa.”

Depois do pódio em Indianapolis, o regresso à Europa mostrou as limitações do EJ15 e quando o chassis mais evoluído, o EJ15B, mostrou falta de fiabilidade em testes, Monteiro viveu um período de grande frustração. “Sentia que tinha chegado ao limite da minha evolução com o carro velho e depositava grandes esperanças no EJ15B, só que um problema no sistema de arrefecimento fez com que a sua estreia tivesse de ser adiada. Foi muito frustrante, mas não foi por isso que deixei de dar o máximo. Mesmo o carro velho era divertido de pilotar e, caramba, estava ao volante dum Fórmula 1 e isso era mais do que suficiente para estar motivado e andar sempre no máximo das minhas capacidades”, recordava.

Regularidade e objetivos
Tendo terminado 18 das 19 corridas disputadas naquela temporada, Tiago Monteiro ficou a apenas 15 voltas de completar todos os Grandes Prémios do ano. Mas o piloto do Porto afirmava claramente que essa regularidade não era um objetivo, mas sim a consequência duma boa conjugação de fatores. “Teria sido giro terminar todas as corridas, sem dúvida, mas nunca fiz disso um objetivo”, explicou.

“Em nenhum momento deixei de arriscar, tirei o pé ou reduzi o andamento para tentar terminar. Andei sempre a fundo, corri riscos, tive incidentes com o Villeneuve, o Montoya e o Trulli, porque estava a andar a fundo. Se não quisesse correr riscos esses incidentes não teriam acontecido, mas o que eu queria era obter os melhores resultados possíveis. Terminei 18 corridas porque não cometi erros de maior, porque fui muito regular e porque o carro era muito fiável. Daí que só possa agradecer à equipa, pois sem um carro muito fiável era impossível fazer tantos quilómetros sem problemas.”

Tiago Monteiro destacou-se em 2005 não apenas pelo pódio surpreendente em Indianapolis, mas também pela sua resiliência e capacidade de extrair o máximo de um carro com recursos limitados. A sua adaptação gradual e a confiança da equipa, apesar de um início desafiador, foram cruciais para o sucesso da sua temporada de estreia.
O seu percurso na Fórmula 1, embora breve, deixou uma marca significativa na história do automobilismo português, abrindo caminho para futuras gerações de pilotos que sonhavam em competir ao mais alto nível.

Tags: F1Tiago Monteiro
José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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