Reza a história das 24 Horas de Le Mans que a menor diferença entre o 1º e o 2º lugar na história foi de 20 metros, em 1966, entre dois Ford GT40. Em 2011m 13,854 segundos separaram o Audi R18 TDI de Marcel Fässler/Andre Lotterer/Benoit Tréluyer de Pedro Lamy/Sebastien Bourdais e Simon Pagenaud, no Peugeot 908, numa edição de má memória para o português, muito injsutiçado pela direção da equipa. O terceiro lugar ficou para outro Peugeot 908, o de Franck Montagny/Stéphane Sarrazin e Nicolas Minassian, que terminaram a 2 voltas da frente.

Revisitando o que o Autosport escreveu na altura, há 15 anos, uma Audi em desvantagem numérica bateu a Peugeot na margem mais curta da história. Nas páginas da nossa crónica de então, reencontramos os violentos acidentes da marca alemã, o pódio amargo de Pedro Lamy e o feito solitário de João Barbosa.
As corridas de resistência são, por natureza, maratonas de gestão e paciência, mas há edições que rompem com a lógica e se transformam em autênticos sprints de 24 horas. Ao folhearmos o arquivo do AutoSport, a memória viaja de imediato até ao ano de 2011. Foi uma das edições mais dramáticas, stressantes e emotivas de que há memória no Circuito de la Sarthe. Na altura, titulámos a nossa grande reportagem com uma expressão que assentava que nem uma luva ao que se tinha vivido em pista: “No fio da navalha”.

Ao relermos o que escrevemos, somos teletransportados para um cenário cinematográfico. Nem a mítica película de Steve McQueen conseguiu reunir tanto drama e tantas reviravoltas. Desde que a clássica francesa passou a ser cronometrada eletronicamente ao segundo, os escassos 13,854 segundos que separaram o Audi R18 TDI vencedor do Peugeot 908 fixaram a distância mais curta de sempre na história das 24 Horas de Le Mans.
O herói solitário da Audi contra a armada do “Leão”
O resultado final foi uma autêntica incógnita do primeiro ao último minuto. A liderança mudou de mãos em quase 40 ocasiões e a batalha foi impiedosa. A armada da Peugeot contava com três carros oficiais na frente, enquanto a Audi viu as suas aspirações dramaticamente reduzidas a um único sobrevivente: o carro número 2, entregue à tripla André Lotterer, Marcel Fässler e Benoît Tréluyer.

Os outros dois protótipos da marca dos anéis tinham ficado desfeitos em dois acidentes brutais, que miraculosamente não causaram ferimentos graves. Na nossa crónica, descrevemos com precisão a primeira hora de prova, quando Allan McNish chocou contra um Ferrari ao tentar dobrá-lo, saindo disparado contra o muro na zona das dunas diante dos fotógrafos. Mais tarde, por volta da meia-noite, revivemos o susto de Mike Rockenfeller, projetado contra as barreiras a caminho de Arnage após um desentendimento semelhante com outro GT.
Com o carro número 2 completamente isolado contra três Peugeot 908, a madrugada e o amanhecer converteram-se numa perseguição frenética. A Peugeot tentou jogar com a estratégia, usando os carros números 7 e 8 como forças de bloqueio, mas o Audi R18 valeu-se do seu superior apoio aerodinâmico para resistir.

O amargo de boca de Pedro Lamy e a “guerra” de bastidores
Um dos ângulos mais fascinantes que recontamos hoje, guiados pelas declarações recolhidas na altura pelo nosso jornalista, foi o descontentamento de Pedro Lamy. O piloto português subiu ao segundo degrau do pódio ao lado de Sébastien Bourdais e Simon Pagenaud no Peugeot número 9, mas a gestão do Diretor da Peugeot Sport, Olivier Quesnel, deixou marcas. Lamy fez apenas três turnos de condução (cerca de hora e meia), sendo preterido pelos colegas na fase crucial da corrida: “Obviamente que não posso dizer que estou contente com a decisão da equipa de me manter fora do carro”, confessou-nos Lamy nas boxes de Le Mans, sentindo que a equipa tinha sido injusta.
O piloto sublinhou o seu papel basilar no desenvolvimento do protótipo: “O carro tem muito de mim, e também dos meus colegas”. Desportivamente, o português explicou que, ao contrário do pódio de 2007, em 2011 a vitória esteve mesmo ao alcance, tendo sido perdida devido a problemas crónicos de pneus face ao ritmo infernal da Audi.

A prestação do contingente português e os “outros” da resistência
A nossa cobertura de 2011 não esquecia os restantes representantes das cores nacionais, divididos entre a glória e o abandono. Na categoria LMP2, João Barbosa assinou uma exibição brilhante aos comandos do Lola-Honda da Level 5 Motorsports. “Foi uma corrida dura e longa”, admitiu-nos Barbosa, que partilhou quase toda a pilotagem com Christophe Bouchut para garantir um surpreendente terceiro lugar da classe com uma máquina que sofria por falta de velocidade de ponta.
Pelo caminho, no pelotão dos “privados” — os heróis românticos da resistência a quem o AutoSport sempre dedicou a devida vénia —, ficaram Miguel Pais do Amaral e Tiago Monteiro. O Zytek da Quifel ASM Team de Pais do Amaral cedeu com o motor partido quando rodava no top 10, levando o piloto a admitir que “o conjunto atual carro/motor não funciona”. Monteiro, com o Pescarolo da Oak Racing, completou apenas 12 voltas devido a uma avaria na direção assistida. Nos GT, Rui Águas também abandonaria com um Ferrari da AF Corse.
Uma reflexão sobre o olhar do repórter
Olhar hoje para esta reportagem, percebemos o registo cru e detalhado do nosso repórter nas boxes, o Paulo Costa, ao captar o desabafo imediato de Pedro Lamy e a tensão palpável de uma marca que corria com um único carro contra três, imortalizou o lado humano daquela que é considerada por muitos a maior corrida do século XXI.
É um daqueles momentos dourados que guardamos no arquivo e que importa recordar, sublinhando que a alma de Le Mans reside sempre na fina linha que separa o triunfo do desastre.
FOTOS WRI Images e Oficiais










