Quando relemos as nossas páginas de há duas décadas, percebemos como a Audi quebrou dogmas ao impor o motor Diesel na mítica clássica de endurance. Nas entrelinhas da nossa crónica da altura, redescobrimos os azares mecânicos que ditaram o triunfo de Biela, Pirro e Werner e, por exemplo, roubaram a glória a Pedro Lamy nos GT1.
Passaram precisamente 20 anos desde que as 24 Horas de Le Mans testemunharam uma das transformações mais radicais da sua centenária história. Corria o ano de 2006 e, nas páginas do AutoSport, testemunhamos o início da era moderna da eficiência: a introdução e o consequente domínio do motor a gasóleo na mítica prova de resistência. Olhando hoje para trás, para aquilo que escrevemos na altura, a perspetiva histórica confere um sabor ainda mais especial a uma edição que quebrou todos os dogmas e que, no nosso título de então, resumíamos com uma ironia certeira: “Afinal havia outro… Audi”.

O plano perfeito da Audi e a surpresa no seio da armada alemã
Ao revisitarmos a nossa crónica, recordamos como a marca de Ingolstadt chegou a França com o único propósito de carimbar o primeiro triunfo de um bloco Diesel na maratona gaulesa.
O visionário Dr. Wolfgang Ullrich desenhou o plano e o veterano team manager Reinhold Joest executou-o na perfeição. O Audi R10 TDI surgia como um conceito radicalmente novo, mas construído sobre o vasto conhecimento acumulado pelo lendário R8 a gasolina. Era um protótipo incrivelmente silencioso — onde os pilotos relatavam que só ouviam o silvo do vento — e com uma eficiência de consumo sem precedentes.
No entanto, como assinalámos no nosso texto original, o guião da corrida não seguiu o favoritismo esperado. Todos os holofotes apontavam para o carro número 7, tripulado por Rinaldo Capello, Allan McNish e o recordista Tom Kristensen, que procurava a sua oitava vitória em Le Mans.
Mas a mítica pista francesa dita as suas próprias leis.
Logo na primeira hora, Frank Biela operou uma ultrapassagem memorável a McNish na exigente curva Tertre Rouge, abrindo caminho para o triunfo do carro número 8, que partilhava com Emanuele Pirro e Marco Werner.
O golpe de teatro definitivo para os favoritos da bancada surgiria às três horas e meia de prova. Relemos nas nossas páginas o relato do momento em que Capello foi forçado a encostar às boxes com problemas no sistema de injeção. Foram 20 minutos de reparações que custaram seis voltas e deitaram por terra as aspirações de Kristensen. Embora os dois R10 TDI tivessem parado na madrugada para efetuar uma troca preventiva de transmissão — uma operação em que os mecânicos da Audi eram historicamente soberbos, demorando escassos dez minutos —, o carro número 8 assumiu o comando com unhas e dentes, gerindo uma vantagem confortável de três voltas sobre o Pescarolo C60H de Eric Hélary, Franck Montagny e do astro dos ralis Sébastien Loeb, que se intrometeu entre as máquinas alemãs.

A sina lusa e o drama de Pedro Lamy na classe GT1
A nossa análise de 2006 dedicava, como não podia deixar de ser, uma atenção profunda à prestação dos pilotos portugueses, evocando aquela quase inevitável tendência lusa para justificar o azar com “bruxarias”. Na verdade, eram apenas as duras leis das corridas de 24 horas. Na categoria LMP2, o Lola-AER da ASM (com Miguel Paes do Amaral) e o Radical-Judd da Rollcentre (com João Barbosa) rodaram com consistência no top 15 da geral, mas cederiam perante quebras na caixa de velocidades e na embraiagem.
O maior soco no estômago, contudo, foi sofrido por Pedro Lamy. Relembrar a leitura desse artigo é reviver a frustração de ver o piloto oficial da Aston Martin, que dividia o volante com Stéphane Ortelli e Stéphane Sarrazin, ver a glória fugir-lhe por entre os dedos. A tripla tinha a classe GT1 perfeitamente controlada, detendo uma volta de vantagem sobre a armada da Corvette. A escassas três horas da bandeirada de xadrez, a embraiagem do Aston Martin cedeu, relegando Lamy para o quinto posto da categoria e entregando a vitória ao Corvette de Oliver Gavin, Olivier Beretta e Jan Magnussen.
Passadas duas décadas sobre esta edição histórica, reler este artigo, mostra-nos o olhar do repórter da altura, focado no drama humano das boxes e na minúcia técnica das reparações da Audi, que capta a essência pura do desporto motorizado antes de este ser digerido pelas estatísticas frias. Celebrar os 20 anos desta corrida é valorizar a memória escrita de um momento de viragem tecnológica, comprovando que Le Mans continua a ser o derradeiro laboratório do mundo automóvel.
FOTOS WRI Racing Images








