Numa especial em que o objetivo deixou de ser atacar o cronómetro para simplesmente sobreviver, Takamoto Katsuta (Toyota GR Yaris Rally1) consolidou a liderança com um ritmo controlado, Adrien Fourmaux (Hyundai i20 N Rally1) aproximou-se muito ligeiramente, Esapekka Lappi (Hyundai i20 N Rally1) assumiu que já só pensava em chegar ao fim e Thierry Neuville (Hyundai i20 N Rally1) viu o seu dia desmoronar-se com um furo fatal na frente direita.
No meio, as histórias de Jon Armstrong (Ford Puma Rally1) e Joshua Mcerlean (Ford Puma Rally1) expuseram, mais uma vez, a dureza mecânica do Safari: motores em agonia, pressões de água a disparar alarmes e decisões tomadas ao limite, entre arriscar tudo ou salvar o que resta do carro.
Como se sabe desde a ligação após o troço anterior, Sébastien Ogier (Toyota GR Yaris Rally1), Oliver Solberg (Toyota GR Yaris Rally1) e Elfyn Evans (Toyota GR Yaris Rally1), Sami Pajari (Toyota GR Yaris Rally1) foi quinto, mas deve receber alguns segundos de ‘reposição’ devido a ter rodado no pó de Armstrong.
Filme da especial
As primeiras notícias não chegam dos da frente, mas do meio do pelotão: Jon Armstrong encosta ao quilómetro 18,9, o Ford a queixar-se de uma alerta de pressão de água. É um prenúncio claro do que espera todos os que seguem atrás – calor, esforço e mecânica no fio da navalha.
Pouco depois, surgem relatos de chuva a aproximar-se, uma ameaça que pode transformar qualquer reta em armadilha. Takamoto Katsuta é o primeiro dos homens da frente a sair do nevoeiro de poeira e lama.
Lidera o rali e sabe que a margem é preciosa demais para ser desperdiçada num excesso.
Cruza a meta com tempo sólido, sem loucuras. “Estava muito mais seco e esperava encontrar chuva, mas felizmente não veio. Continua tudo louco, tenho de gerir”, admite, como quem sabe que o Safari se vence tanto na cabeça como no acelerador.
Adrien Fourmaux, terceiro da geral, responde com ligeiro ganho: 0,7 segundos mais rápido do que o japonês. É pouco, mas é sinal de que o francês não baixou os braços. Atrás deles, porém, a história é outra.
Thierry Neuville, já em modo perseguição há várias especiais, sofre um furo na frente direita aos 13,8 km e é obrigado a parar. A equipa não tem mais pneus disponíveis e, quando o Hyundai volta a imobilizar-se com um problema no mesmo ‘canto’ do carro, a realidade impõe-se: o dia pode ter acabado ali.
A luta pelo pódio encolhe, o rali muda de geometria.
Esapekka Lappi surge como retrato da prudência. Chega 15,5 segundos atrás da referência de Fourmaux, mas o finlandês nem finge ambição: “Chegar ao fim é o nosso único objetivo. Não faz sentido ser rápido, partiria o carro.” No Safari, por vezes, levantar o pé é o verdadeiro ataque.
Josh McErlean reforça a sensação de que a especial está a cobrar caro a todos. Corta a linha com fumo a sair do carro, sentindo o motor em sofrimento. “É um problema de motor, temos de continuar”, diz, quase como um mantra, sabendo que cada quilómetro pode ser o último.
A fechar este capítulo, Armstrong reaparece, finalmente, na linha de chegada. O tempo conta uma história dura: mais de 36 minutos, duas paragens, um furo, alarmes no painel e uma sensação de dúvida sobre cada decisão. “Não tínhamos potência nenhuma desde o início, depois tivemos um furo e parámos para trocar, e a seguir apareceu um aviso e parámos para ver se era grave. Talvez não tenha sido a melhor decisão”, confessa, exausto.
Naquele troço, porém, a única decisão verdadeiramente errada parece ser acreditar que o Safari se deixa domar.












