Numa especial em que ninguém pareceu verdadeiramente atacar e quase todos se defenderam, Takamoto Katsuta (Toyota GR Yaris Rally1) manteve e ampliou significativamente a liderança com uma passagem tensa mas limpa. Adrien Fourmaux (Hyundai i20 N Rally1) levantou claramente o pé para proteger o seu ‘depauperado’ Hyundai e Sami Pajari (Toyota GR Yaris Rally1) assinou mais um tempo canhão para subir a terceiro, por troca com um Esapekka Lappi (Hyundai i20 N Rally1) em modo pura sobrevivência.
No WRC2, Robert Virves voltou a mostrar sangue‑frio de líder, admitindo que este é “dos piores sítios para se estar” quando se tem vantagem, enquanto Jon Armstrong (Ford Puma Rally1) e Joshua Mcerlean (Ford Puma Rally1) continuaram o seu próprio rali contra alertas de temperatura, furos e um motor em agonia.
A história da PEC15 começa com um aviso inquietante no painel do Ford Puma de Armstrong: alerta de temperatura da água, seguido de aviso de pressão no pneu dianteiro direito. A especial está em modo armadilha antes sequer de começar a contar. Quando o cronómetro arranca, o japonês Katsuta é o primeiro homem da frente a cruzar a meta. O Toyota chega inteiro, mas o stress vê‑se na expressão. “Honestamente, é muito mais fácil quando estás a lutar a fundo em todo o lado. Assim é muito stressante, estou só a tentar evitar todas as pedras, até as mais pequenas”, admite, como se cada quilómetro fosse uma sessão de tortura mental.
Fourmaux surge a seguir com um tempo bem mais lento, 18 segundos perdidos para o líder. Mas esse era precisamente o plano. “Tentei mesmo não estragar nada do trabalho que foi feito no carro e garantir que não apanhamos muita lama no radiador para a próxima especial. Estive a cuidar do carro”, explica, sublinhando o “grande esforço de equipa na assistência” e reconhecendo que teria de arriscar demasiado para ir atrás de Katsuta com três dias de luta já marcados na mecânica.
Armstrong, entretanto, arrasta o Puma ferido até ao fim, volta a ser traído por um furo e sabe que, depois de trocar este pneu, já não terá sobressalentes. “Não é o ideal. Só tentamos chegar ao fim. Vínhamos um pouco em modo estrada, tocamos em qualquer coisa na trajetória e tivemos um furo. Bastante desiludido neste ponto”, desabafa, consciente de que o rali ainda é longo e o risco de ficar parado à beira da pista aumenta a cada especial.
Lappi reforça a sensação de que a PEC15 é mais um capítulo de resistência do que de espetáculo. Chega com um furo na frente esquerda e um discurso cristalino: “Nem olho para os resultados, só tento acabar. Não me interessa o resultado. Não faz sentido tentar competir esta semana.” Conta que bateu numa pedra escondida numa esquerda depois de um ressalto e que o pneu foi‑se “logo ali”, resignado a deixar o cronómetro em segundo plano.
Do lado da M‑Sport, McErlean volta a trazer o Puma para casa a coxear, carregando um problema de motor. Ainda assim, não abdica de terminar: “Estamos a sobreviver. Se conseguir só chegar ao fim, já é alguma coisa para os rapazes [mecânicos]. Um grande obrigado para eles.” Nas suas palavras, há mais vontade de recompensar a equipa do que de procurar posição em tabela.
Sami Pajari, pelo contrário, encontra luz no meio do caos. O finlandês assina o novo melhor tempo da especial, a caminho da quinta vitória em troços neste rali, e ganha o suficiente para ultrapassar Lappi e subir a terceiro da geral. “Tivemos uma conversa muito boa com um amigo à hora de almoço. Mesmo depois da manhã dececionante, temos de seguir em frente”, conta. Olha para o céu, incrédulo: “É tudo estranho, a próxima especial é a um quilómetro daqui, lá está a chover e aqui não cai nada.” A frase resume o Safari: uma prova onde, num raio de poucos metros, o mundo pode mudar por completo.
No WRC2, Robert Virves fecha a sequência com mais um tempo forte, até melhor do que o de Lappi. É líder da categoria e sente o peso disso em cada curva. “Acho que este é dos piores sítios para se estar [com uma vantagem]. Começas a procurar muitas mais coisas”, admite, revelando a paranoia de quem sabe que um pequeno erro, uma pedra invisível ou uma poça mais funda podem deitar tudo a perder. “Tentamos manter tudo limpo.” Entre quem gere, quem arrisca e quem apenas tenta chegar.












