Ele há os bons vinhos e os maus. Destes, ninguém fala – nem para dizer mal. Mas dos bons vinhos, fica a memória: de como bom um vinho pode acompanhar uma boa refeição e esta ser o início de uma boa conquista. Na F1, também houve anos de colheitas excepcionais. O de 2007 foi o da colheita de excepção. Mas houve outros anos de grande colheita na F1. São os vintage. Todos eles, seleccionados mesmo antes de serem saboreados – logo após o momento final da colheita. Ou seja, usando a língua falada na F1, na derradeira prova.
Hélio Rodrigues
Batalhas ponto por ponto
Dos primeiros anos, ninguém se lembra. Não existia a mediatização a que hoje se assiste e, principalmente, foi há já demasiado tempo. Mesmo assim, houve campeonatos épicos, desde o arranque do Mundial, em 1950. Os últimos 40 anos são mais fáceis de lembrar.
1950 – GP Itália, 3 de Setembro.Fangio fez a “pole”, mas precisava de ficar na frente de Farina para ser campeão. Desistiu com problemas na caixa de velocidades, fez apenas um ponto, pela melhor volta em corrida e Farina venceu, depois de liderar quase toda a prova. Final: 1º Nino Farina, 30 pontos; 2º Juan Manuel Fangio, 27; 3º Luigi Fagioli, 24
1951 – GP Espanha, 28 de Outubro. Antes da corrida, Fangio tinha dois pontos de vantagem sobre Ascari. O italiano atrasou-se, por ser obrigado a mudar de pneus várias vezes. Terminou em 4º, enquanto Fangio venceu a prova e o título. Final: 1º Juan Manuel Fangio, 31 pontos; 2º Alberto Ascari, 25; 3º José Froilán González, 24
1956 – GP Itália, 2 de Setembro. Fangio chegou a Monza com nove pontos de vantagem sobre Moss, que foi o seu adversário principal ao longo do ano. Bastou-lhe o segundo lugar, partilhado com o seu colega de equipa Peter Collins, para vencer o seu quarto título. Final: 1º Juan Manuel Fangio, 30 pontos; 2º Stirling Moss, 27; 3º Peter Collins, 25
1958 – GP Marrocos, 19 de Outubro. Um dos anos mais trágicos da F1 terminou com Hawthorn a controlar o seu rival Moss. Bastou-lhe terminar logo atrás do inglês para sair campeão. Moss venceu a corrida, Hawthorn foi segundo. Final: 1º Mike Hawthorn, 42 pontos; 2º Stirling Moss, 41
1959 – GP Estados Unidos, 12 de Dezembro. Três pilotos podiam ser campeões. Moss foi o primeiro líder da prova, mas desistiu ao fim de cinco voltas. Brooks tocou-se com o seu colega de equipa Von Trips, na primeira volta, perdeu dois minutos nas boxes e recuperou até um insuficiente terceiro lugar. Brabham liderou depois do abandono de Moss mas, na última volta, ficou sem gasolina, parou na subida para a meta, onde chegou a empurrar o carro. Terminou em 4º lugar e foi campeão. Tinha 1,5 pontos de vantagem sobre Moss antes da corrida. Final: 1º Jack Brabham, 31 pontos; 2º Tony Brooks, 27; 3º Stirling Moss, 25,5
1961 – GP Estados Unidos, 8 de Outubro. O ano da luta entre os dois pilotos da Ferrari, Phil Hill e Wolfgang von Trips. Terminou em tragédia quando este chocou com Clark em Monza e morreu. A Ferrari não foi à última corrida. Final: 1º Phil Hill, 34 pontos; 2º Wolfgang von Trips, 33
1964 – GP México, 25 de Outubro. Três homens para um título. A decisão foi no México: Hill atrasou-se com um choque em Bandini; Clark parou com problemas de pressão de óleo na última volta e a Ferrari deu ordens a Bandini para deixar passar Surtees para o segundo, para este ser campeão com um ponto de vantagem sobre Hill… que lhe enviou como prenda de natal um LP com aulas de condução para recém-encartados. Final: 1º John Surtees, 40 pontos; 2º Graham Hill, 39; 3º Jim Clark, 32
1967 – GP México, 22 de Outubro. Hulme chegou ao México com sete pontos de vantagem sobre o seu “patrão” e bastou-lhe mais um quarto lugar para ser garantir o título. Brabham foi segundo classificado. Nesse ano, o melhor piloto foi Clark, com quatro triunfos, mas Hulme foi mais consistente. Final: 1º Denny Hulme, 51 pontos; 2º Jack Brabham, 46
1974 – GP Estados Unidos, 6 de Outubro. Regazzoni e Fittipaldi chegaram a Watkins Glen com o mesmo número de pontos, mas o suíço perdeu vários lugares com problemas no seu Ferrari e bastou a “Emo” o quarto lugar para ser Campeão. Final: 1º Emerson Fittipaldi, 55 pontos; 2º Clay Regazzoni, 52; 3º Jody Scheckter, 45
1976 – GP Japão, 24 de Outubro. Um ano controverso. Lauda teria sido campeão, não fosse o seu acidente no Nurburgring e, no Fuji, a sua recusa em continuar a correr, na chuva. Antes da prova, tinha três pontos de vantagem sobre Hunt, mas este foi terceiro e venceu por um ponto. Final: 1º James Hunt, 69 pontos; 2º Niki Lauda, 68
1981 – GP Estados Unidos/Las Vegas, 17 de Outubro. Prova dramática. Reutemann era o líder do campeonato, com um ponto de vantagem sobre Piquet. Mas não conseguiu defender-se e foi oitavo, a uma volta de Jones, que venceu. Piquet chegou ao fim exausto, mas em quinto lugar e conquistou o título por um ponto. Final: 1º Nelson Piquet, 50 pontos; 2º Carlos Reutemann, 49; 3º Alan Jones, 46; 4º Jacques Laffite, 44; 5º Alain Prost, 43
1982 – GP Las Vegas, 25 de Setembro. Ano muito competitivo. Onze pilotos diferentes venceram corridas. Rosberg apenas chegou ao comando em Itália, na penúltima prova. Em Las Vegas, Watson ainda podia ser campeão, desde que vencesse e Rosberg não pontuasse; mas apenas foi segundo e Keke foi quinto. Final: 1º Keke Rosberg, 44 pontos; 2º Didier Pironi, 39; 3º John Watson, 39
1983 – GP África do Sul, 15 de Outubro. Três pilotos em posição de serem campeões, com Prost na frente, com 57 pontos, seguindo-se Piquet com 55 e Arnoux com 49. Dos três, apenas Piquet pontuou, ao terminar em terceiro – e foi campeão. Final: 1º Nelson Piquet, 59 pontos; 2º Alain Prost, 57; 3º René Arnoux, 49
1984 – GP de Portugal, 21 de Outubro. Lauda precisava de um 2º lugar para garantir o título, mesmo que o vencedor da prova fosse Prost. Só respirou fundo quando viu Mansell desistir, depois de um pião, a 16 voltas do final. Prost venceu a prova, mas perdeu o título por meio ponto. Final: 1º Niki Lauda, 72 pontos; 2º Alain Prost, 71,5

1986 – GP Austrália, 26 de Outubro. Luta a três: Mansell chegou a Adelaide na frente, seguido por Piquet e Prost. Mansell fez a “pole” mas partiu mal; contudo, recuperou até segundo, atrás de Piquet, o que lhe dava o título. Mas acabou por desistir de forma espectacular, quando explodiu um pneu do seu Williams. O título passou a decidir-se entre Prost e Piquet, com este a ter que ficar na frente do francês; mas a Williams mandou-o parar por precaução, depois do sucedido a Mansell e Prost venceu a corrida e o título. Final: 1º Alain Prost, 72 pontos; 2º Nigel Mansell, 70; 3º Nelson Piquet, 69
1994 – GP Austrália, 13 de Novembro. Temporada trágica, com as mortes de Senna e Ratzenberger. Schumacher chegou a Adelaide com um ponto de avanço sobre Hill, mas encarregou-se de resolver a seu favor a contenda através de uma controversa colisão entre ambos, logo no início da corrida. Final: 1º Michael Schumacher, 92 pontos; 2º Damon Hill, 91
1999 – GP Japão, 31 de Outubro. O ano em que Schumacher esteve ausente nalgumas provas, depois do acidente de Silverstone. Regressou para ajudar Irvine a vencer o título. Em Suzuka, este chegou com quatro pontos de avanço sobre Hakkinen, mas o finlandês venceu a corrida e Irvine não conseguiu melhor que ser terceiro, atrás do seu colega de equipa. Final: 1º Mika Hakkinen, 76 pontos; 2º Eddie Irvine, 74
2003 – GP Japão, 12 de Outubro. Temporada muito competitiva, com oito pilotos a vencerem provas. Até ao fim, os dois pilotos da McLaren, Raikkonen e Montoya estiveram na luta pelo título, mas em Suzuka bastou um oitavo lugar para Schumacher celebrar o quinto título, pois Montoya abandonou cedo e Raikkonen foi apenas segundo. Final: 1º Michael Schumacher, 93 pontos; 2º Kimi Raikkonen, 91
2007 – GP Brasil, 21 de Outubro. Três pretendentes ao título. Na frente, Lewis Hamilton, seguindo-se Alonso e Raikkonen. Os dois pilotos da McLaren eram favoritos, mas o finlandês acabou por ser campeão, depois de vencer a prova, enquanto Hamilton se atrasou para 18º, recuperando depois até sétimo, e Alonso não foi melhor que terceiro. Final: 1º Kimi Raikkonen, 110 pontos; 2º Lewis Hamilton, 109; 3º Fernando Alonso, 109

A opinião dos enólogos
Ser enólogo é, para lá da especialização necessária, um estado de alma. É preciso saborear, ter prazer; cheirar; estar lá. Na F1, existem dois enólogos preciosos. Que, pelo seu palmarés, por lá terem estado há longas décadas, dispensam as apresentações. Mas são tão necessários aqui, como os enólogos numa cave afamada. Eis as suas sapientes opiniões.
Luís Vasconcelos
Casta extraordinária: 2007

Melhor vintage: 1986
«Os anos de 1988, 1989 e 1990 foram excepcionais, porque tiveram como actores principais os dois melhores pilotos do momento, o Senna e o Prost. Mas, em termos de decisão, escolho o de 1986. Foi também um ano extraordinário. Existia uma rivalidade interna na Williams, entre o Mansell e o Piquet e, tal como este ano, acabou por ser a terceira parte a aproveitar, quando os dois Williams falharam. O final do campeonato foi dramático, com o rebentamento de um pneu no carro do Nigel a mais de 300 km/h e a decisão da equipa em chamar às boxes o Piquet, quando estava no comando tranquilamente.»

José Miguel Barros
Casta extraordinária: 2007
«Este ano foi sem dúvida um ano de excelente colheita. Se não, o ano da melhor colheita. Foi disputado até ao fim por três pilotos e, só por isso, tem que ser um ano relevante. Porém, pela primeira vez foi disputado até ao fim por um piloto estreante, o Lewis Hamilton. Isso é algo muito raro, e que indicia estarmos na presença de um piloto de grande talento, da mesma casta de um Ayrton Senna ou de um Michael Schumacher.»
Melhor vintage: 1981
«O ano de 1986 foi um bom ano. Mas, para mim, realço o de 1981. Foi um campeonato muito aberto, muito disputado e em que a rivalidade se estendeu entre os Williams e os Ligier. Era o tempo dos carros-asa e a luta entre o Nelson Piquet e o Carlos Reutemann foi muito interessante de seguir. O argentino podia ter ganho o título, mas não se aguentou na última corrida, apesar de ter todas as condições para isso.»












