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24h Le Mans: Muito mais do que duas voltas ao relógio

Fábio Mendes by Fábio Mendes
10 Junho, 2026
in Newsletter, VELOCIDADE
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24h de Le Mans: Ferrari lidera a 6h do fim

#5 Porsche Penske Motorsport (DEU) Porsche 963 (Hypercar) driven by Julien Andlauer (FRA) / Michael Christensen (DNK) / Mathieu Jaminet (FRA), during the Le Mans 24 Hours race, the fourth round of the 2025 FIA WEC Championship, on the Le Mans 24 Hours circuit on 14 and 15 June 2025 in France.


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Já longe vão os tempos em que os egípcios encontraram a forma de dividir o dia. Em que o tempo era medido avaliando a posição de uma estaca no chão e que a noite era medida pelos 12 grupos de constelações que serviram de referência. Esses 12 grupos noturnos, por uma questão de simetria, dividiram também o dia em 12. 24 horas que passaram a ser a referência de uma espécie que insiste em sonhar com um mundo diferente e que torna esses sonhos realidade. Cada 24 horas conta uma história, tem um tema principal, serve de referência para as próximas 24 horas ou as anteriores. Em 24 horas tudo é possível… até inscrever o seu nome na história, para sempre.

É esse desafio que 186 pilotos inscritos, divididos por 62 máquinas, voltam a assumir entre os dias 13 e 14 de junho: o desafio de percorrer o maior número de quilómetros no mítico traçado de La Sarthe, em Le Mans, cidade que empresta o seu nome a uma das provas mais exigentes, prestigiantes e desejadas do mundo do motorsport.

Era das Origens (1923–1939): A Ideia que Mudou o Automobilismo

A corrida nasceu de uma convicção. Georges Durand, secretário-geral do Automobile Club de l’Ouest, o jornalista Charles Faroux e Émile Coquille (representante francês da marca britânica Rudge-Whitworth) acreditavam que os automóveis da época não cumpriam o que prometiam: frágeis, pouco fiáveis, distantes das promessas dos fabricantes. A solução foi radical: criar uma prova de resistência de 24 horas em estradas públicas, junto à cidade de Le Mans. A organização coube ao Automobile Club de l’Ouest, fundado em janeiro de 1906.

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A primeira edição realizou-se nos dias 26 e 27 de maio de 1923, com 33 automóveis à partida. André Lagache e René Léonard venceram ao volante de um Chenard & Walcker, cobrindo 2.209,536 km a uma média de 92,064 km/h. A largada à maneira de Le Mans, com os pilotos a correr para os carros dispostos do lado oposto da pista, estreou-se em 1925. Os britânicos da Bentley marcaram os anos seguintes, vencendo em 1924 e, mais tarde, assinando um histórico tetracampeonato consecutivo entre 1927 e 1930. A Alfa Romeo impôs-se no início dos anos 30 com os 8C que também venceram quatro de seguida. A prova não se realizou em 1936 devido a uma greve geral em França, e seria interrompida pela Segunda Guerra Mundial entre 1940 e 1948.

It's a legendary race, the one and only @24hoursoflemans… We're fired up and ready for the challenge 👊#TOYOTARACING #WEC #TR010HYBRID #LeMans24 @FIAWEC pic.twitter.com/Yf2uOiMdFS

— TOYOTA RACING WEC (@ToyotaRacingWEC) June 5, 2026

A Era dos Construtores Europeus (1949–1959): Jaguar, Ferrari e o Ano Mais Negro

O regresso após a guerra trouxe novas marcas e novos heróis. A Ferrari venceu logo em 1949, com Luigi Chinetti e o aristocrata britânico Peter Mitchell-Thomson. A Jaguar emergiu como força dominante nos anos 50: o C-Type venceu em 1951 e 1953, e o D-Type triunfou em 1955, 1956 e 1957.

Mas 1955 ficou marcado pela maior tragédia da história do automobilismo. No dia 11 de junho, o Mercedes-Benz 300 SLR de Pierre Levegh foi projetado sobre o público após uma colisão com o Austin-Healey de Lance Macklin. O carro de Levegh desintegrou-se e explodiu ao embater nas bancadas, matando o piloto francês e mais de 80 espetadores. Já na madrugada do dia 12, por respeito às vítimas, a Mercedes retirou os seus restantes carros da corrida, uma ausência da maratona francesa que duraria décadas, até a marca regressar oficialmente ao desporto de resistência nos anos 80 em parceria com a Sauber. A corrida de 1955 não foi interrompida e acabou por ser vencida por Mike Hawthorn e Ivor Bueb. Foi o pior dia que o desporto alguma vez viveu, e Le Mans carregou esse peso durante gerações.

A Aston Martin conquistou a sua única vitória global em 1959, com Carroll Shelby e Roy Salvadori ao volante do DBR1.

A Era Ferrari e a Guerra Ford-Ferrari (1960–1969): Quando a Raiva Venceu

A entrada nos anos 60 pertenceu inteiramente à Scuderia. A Ferrari venceu de 1960 a 1965, com seis vitórias consecutivas. Mas em 1963, Henry Ford II tentou comprar a Ferrari e quando o negócio parecia concluído, Enzo Ferrari recuou à última hora. Ford, humilhado, jurou vingança e investiu uma fortuna no desenvolvimento do GT40 com um único objetivo: derrotar os italianos em Le Mans. Em 1966, após duas tentativas falhadas, a Ford varreu a concorrência: o GT40 Mk II de Bruce McLaren e Chris Amon venceu, com a marca a fechar o pódio completo em primeiro, segundo e terceiro lugar. A Ford venceu ainda em 1967, 1968 e 1969, cumprindo cabalmente a missão que nascera de uma acesa discussão de negócios.

A Era Porsche, o Grupo C e a Transição de GTs (1970–1999)

Com a entrada nos anos 70, a Porsche começou a construir a sua lenda em La Sarthe. A primeira vitória à geral chegou em 1970, com Richard Attwood e Hans Herrmann ao volante do icónico 917. A Matra-Simca dominou entre 1972 e 1974, mas foi com os Porsche 956 e 962C que a corrida conheceu uma era de domínio absoluto entre 1982 e 1987.

O Grupo C gerou máquinas extraordinárias e duelos inesquecíveis. O Jaguar XJR-9 venceu em 1988 e 1990; a Sauber-Mercedes regressou ao topo com uma vitória categórica em 1989. Em 1991, a Mazda escreveu um capítulo único: o 787B, com o seu estridente motor rotativo de quatro rotores, tornou-se o primeiro carro japonês a vencer em La Sarthe.

Os anos 90 trouxeram ainda outros momentos históricos: a Peugeot venceu com o 905 em 1992 e 1993 e, em 1995, o McLaren F1 GTR, um superdesportivo de estrada adaptado para as pistas, surpreendeu tudo e todos ao vencer à geral à chuva. Em 1998, o Porsche 911 GT1-98 e, em 1999, o BMW V12 LMR fecharam o capítulo pré-moderno da prova.

Legend meets legacy. 🏁

The first episode of our brand new series 𝗗𝗥𝗜𝗩𝗘𝗥𝗦 𝗢𝗙 𝗗𝗘𝗦𝗧𝗜𝗡𝗬 featuring the 9-time Le Mans winner Tom Kristensen is now live!

Dive into the mindset of a racing icon. Watch the full episode now on our YouTube channel:… pic.twitter.com/JvayPQAbwc

— 24 Hours of Le Mans (@24hoursoflemans) June 4, 2026

A Era Audi e a Revolução LMP1 (2000–2014): O Diesel Chegou a La Sarthe

A transição para o século XXI foi dominada por Ingolstadt. A Audi venceu de forma quase ininterrupta entre 2000 e 2014, somando 13 vitórias. Em 2006, a marca alemã lançou o R10 TDI — o primeiro carro a vencer Le Mans com motorização diesel. Com o seu V12 biturbo de 5,5 litros, o R10 demonstrou que eficiência e velocidade podiam coexistir. Em 2010, o Audi R15 TDI plus estabeleceu o recorde absoluto de distância percorrida na prova, completando 397 voltas e cobrindo uns impressionantes 5.410,71 km — uma marca de quilometragem que permanece imbatida.

Tom Kristensen, o dinamarquês que se tornaria o piloto mais laureado da história da corrida com nove vitórias, foi o grande rosto desta época de hegemonia germânica.

A Era dos Híbridos e a Tragédia da Toyota (2015–2020): Mais Perto do Impossível

Em 2014, a Porsche regressou à classe de topo com o 919 Hybrid, um LMP1 com motor V4 de 2,0 litros e dois sistemas de recuperação de energia que, em conjunto, produziam cerca de 1.000 cv. Em 2015, a Porsche venceu pela primeira vez desde 1998, interrompendo a hegemonia da Audi. Ganhou ainda em 2016 e 2017, mas em ambas as edições, a Toyota liderou com ampla vantagem e perdeu a vitória de forma cruel nas últimas voltas, tornando-se a grande vítima trágica de La Sarthe e elevando a níveis nunca antes vistos o drama da endurance.

A marca nipónica nunca desistiu e quebrou finalmente o enguiço em 2018 com o TS050 Hybrid, após mais de duas décadas de tentativas. Fernando Alonso partilhou a glória dessa mesma máquina em 2018 e 2019 com Sébastien Buemi e Kazuki Nakajima.

Which iconic Le Mans shot are you most looking forward to this year? 🤩
#WEC #LeMans24 pic.twitter.com/rqdX64pkGU

— FIA World Endurance Championship (@FIAWEC) May 27, 2026

A Era Hypercar (2021–Presente): O Regresso dos Grandes Construtores

Em 2021 entrou em vigor o novo regulamento Hypercar, desenhado para atrair os maiores construtores mundiais de volta ao topo do desporto de resistência. A Toyota abriu esta era estendendo a sua sequência de vitórias, mas o interesse em torno destas regras cresceu rapidamente, permitindo o regresso de marcas lendárias como a Ferrari.

O impacto da casa de Maranello foi imediato. Em 2023, precisamente no centenário da prova, o 499P de Alessandro Pier Guidi, James Calado e Antonio Giovinazzi venceu à geral, devolvendo a Ferrari ao topo de Le Mans 58 anos depois do seu último triunfo (conquistado em 1965). Provando que não foi um acaso, a Ferrari repetiu a proeza e garantiu nova vitória absoluta em 2024 e 2025.

A corrida que nasceu para provar que os carros podiam durar 24 horas continua viva. O que antes era uma gestão de sobrevivência transformou-se num sprint puro de 24 horas, onde a fiabilidade das máquinas já raramente é questionada, apesar de devorarem mais de cinco mil quilómetros num único fim de semana. Um esforço tremendo para mecânicas, pilotos e equipas cujos limites são levados ao extremo.

Le Mans é um duelo com a história, um desafio coletivo e pessoal. Inúmeras páginas foram escritas por homens e mulheres inconformados que sempre procuraram mais. São essas narrativas que dão vida a esta mítica corrida que todos os anos atrai centenas de milhares de fãs. Mais de cem anos depois, a partilha, o fervor e a paixão mantêm-se intactos e crescem a cada edição: não apenas para ver quem percorre a maior distância, mas para testemunhar a capacidade técnica dos engenheiros, a resiliência dos mecânicos e o talento puro dos pilotos em histórias de superação que serão recordadas por décadas.

Foto: MPSA

Tags: 24H Le Mans
Fábio Mendes

Fábio Mendes

Em 2013 criei um blog com um grupo de amigos, que me abriu as portas para o fantástico mundo do motorsport e do AutoSport, onde escrevo desde 2017.

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