A Fórmula 1 prepara-se para receber uma nova geração de pneus em 2026, desenvolvidos pela Pirelli para se adaptarem às profundas mudanças regulamentares que entrarão em vigor na próxima temporada. Depois de meses de testes intensivos, começam a ficar mais claros os contornos técnicos e as especificações do novo produto.

Dimensões reduzidas: mais estreitos, mas mantêm as jantes de 18 polegadas
A principal alteração relaciona-se com a largura dos pneus. Numa tentativa de reduzir o peso e a área frontal dos monolugares, a Pirelli aceitou diminuir a largura dos pneus dianteiros em 25 mm (de 305 mm para 275 mm) e dos traseiros em 30 mm (de 405 mm para 375 mm).
O diâmetro externo também será ligeiramente menor, passando dos atuais 720 mm para cerca de 705-710 mm, embora as jantes de 18 polegadas sejam mantidas — ao contrário dos planos iniciais que previam o regresso às jantes de 16 polegadas.
Esta decisão deveu-se a preocupações com o sobreaquecimento e à necessidade de evitar tempos por volta demasiado lentos, que poderiam colocar a F1 demasiado próxima da Fórmula 2. Manter o formato de 18 polegadas também mantém a relevância comercial para a Pirelli, já que estas dimensões são usadas nos automóveis de estrada.
A redução de tamanho permitirá poupar cerca de 300 gramas por pneu dianteiro e 500 gramas por traseiro, resultando numa poupança total de 1,6 kg por carro.

Gama de compostos: C1 a C6 será mantida
A Pirelli confirmou que manterá a gama de seis compostos slick, que vai do C1 (mais duro) ao C6 (ultra-macio), tal como em 2025. No entanto, o composto C6 sofrerá alterações significativas para 2026.
O futuro do C6: um composto a reformular
O C6, introduzido em 2025 para circuitos urbanos de baixa exigência térmica, revelou-se problemático. Muitos pilotos, incluindo Max Verstappen, criticaram duramente o composto, afirmando que era difícil de usar e por vezes mais lento do que o C5 na qualificação.
A Pirelli reconheceu as limitações: o C6 mostrou-se “peaky” e imprevisível, com tendência para sofrer graining rapidamente e oferecer apenas uma margem mínima de desempenho sobre o C5. Por esse motivo, foi descartado de corridas como Singapura e Las Vegas em 2025, onde inicialmente estava previsto.
Para 2026, a Pirelli está a reformular completamente o C6, procurando torná-lo mais fácil de extrair desempenho e garantir uma diferença de tempo por volta mais significativa face ao C5, mantendo a sua vocação para circuitos de baixa energia.
Pneus de chuva: reduzir o ponto de cruzamento entre intermédios e ‘extreme wet’
Outra prioridade da Pirelli para 2026 passa por melhorar os pneus de chuva extremos (wet), que na prática raramente são usados em corrida devido às condições de visibilidade e excesso de spray.
Atualmente, o ponto de cruzamento entre o intermédio e o extremo situa-se nos 118% do tempo de volta seco. Para 2026, a meta é reduzir esse valor para 115-116%, aproximando os dois compostos e tornando o pneu de chuva extremo mais útil em corrida, não apenas atrás do safety car.
A Pirelli testou novas soluções de composto e estrutura para o wet em pistas artificialmente molhadas, incluindo sessões em Fiorano, Paul Ricard e Silverstone. O objetivo é criar um pneu menos sensível termicamente e que ofereça um intervalo de utilização mais largo.

Programa de testes: 15 sessões em sete países
O desenvolvimento dos pneus de 2026 envolveu 15 sessões de testes, realizadas em sete países entre 2024 e 2025. As equipas utilizaram “mule cars” (carros adaptados de temporadas anteriores) para simular as condições de carga esperadas nos novos monolugares, já que os carros de 2026 ainda não existem.
Participaram nestes testes equipas como Aston Martin, Ferrari, McLaren, Mercedes, Alpine, Sauber e Williams. Os testes decorreram em circuitos como:
Barcelona (várias sessões com compostos slick)
Mugello (slicks e condições molhadas)
Magny-Cours e Paul Ricard (pistas artificialmente molhadas para testar inters e wets)
Silverstone (compostos duros e testes de chuva)
Fiorano (desenvolvimento dos pneus de chuva)
Budapeste (compostos macios)
Monza (validação das construções)
O último teste de validação antes da aprovação final está agendado para 28 e 29 de outubro no México, seguido de um teste coletivo em Abu Dhabi nos dias 9 e 10 de dezembro, onde todas as equipas utilizarão os pneus de 2026 em ‘mule cars’ adaptados.

Construção e pressões: adaptação às novas cargas aerodinâmicas
Os carros de 2026 terão menos carga aerodinâmica (redução de cerca de 15% após ajustes nos regulamentos) e menos resistência (queda de 55% no arrasto). Isto resulta em cargas verticais e laterais diferentes, obrigando a Pirelli a ajustar as construções dos pneus e as pressões mínimas recomendadas.
A marca italiana tem-se baseado em simulações fornecidas pelas equipas para afinar os modelos de carga, já que os testes com mule cars não reproduzem totalmente o comportamento esperado dos novos monolugares, especialmente nas zonas de downforce ativo e nos novos pisos mais planos.
Novas regras técnicas: fim aos truques de arrefecimento dos pneus
Em paralelo, a FIA aprovou uma alteração importante nos regulamentos técnicos de 2026, que proíbe explicitamente qualquer sistema destinado a arrefecer os pneus — encerrando uma alegada área cinzenta regulamentar.
A nova redação do artigo 10.8.3 estabelece que qualquer dispositivo, sistema ou procedimento cujo objetivo seja aquecer, arrefecer ou manter a temperatura das rodas completas, cubos ou travões está proibido (com exceção do ar que entra pelas aberturas regulamentares e das mantas térmicas autorizadas).
Esta mudança surge depois de suspeitas em torno da capacidade de algumas equipas, como a McLaren, em gerir melhor as temperaturas dos pneus ao longo de 2025.

Objetivo: desempenho semelhante ao atual, mas com maior durabilidade
Apesar das mudanças de dimensão e construção, a meta da Pirelli é manter características de desempenho, degradação e equilíbrio semelhantes aos pneus atuais. O principal receio é que os pneus mais pequenos sofram maior sobreaquecimento, algo que a marca está a tentar compensar com novos compostos e construções reforçadas.
Mario Isola, diretor de desporto motorizado da Pirelli, afirmou: “O nosso objetivo é ter pneus que ofereçam desempenho, degradação e equilíbrio semelhantes aos de agora. Devido ao diâmetro e largura ligeiramente menores, esperamos algum sobreaquecimento adicional, que precisamos de compensar com novos compostos”.
Resumo das principais características dos pneus Pirelli para 2026
Característica Especificação
Jantes 18 polegadas (mantidas)
Largura dianteira 275 mm (menos 25 mm)
Largura traseira 375 mm (menos 30 mm)
Diâmetro externo 705-710 mm (menos 10-15 mm)
Gama de compostos slick C1 a C6 (6 compostos)
Composto C6 Reformulado para 2026
Pneus de chuva Melhorado o ponto de cruzamento wet/inter (objetivo: 115-116%)
Poupança de peso 1,6 kg por carro
Proibição de arrefecimento Explicitamente banido nos regulamentos de 2026
Os novos pneus Pirelli para 2026 representam uma evolução técnica significativa, alinhada com os objetivos de sustentabilidade, redução de peso e melhoria do espetáculo, sem comprometer o desempenho que caracteriza a Fórmula 1. A época de estreia será crucial para confirmar se o extenso programa de desenvolvimento atingiu os seus objetivos.










