Niki Lauda faria hoje 72 anos


Niki Lauda, uma das figuras mais carismáticas da história da disciplina, faria hoje 72 anos. Tricampeão mundial, empresário, iconoclasta e o homem que protagonizou um dos maiores regressos desportivos de todos os tempos, o austríaco é uma enorme figura, não só na história da Fórmula 1, mas em todo o desporto

Precisão, cálculo, empenho, paixão e heroísmo são algumas das grandes qualidades dos grandes heróis das corridas, e Niki Lauda tinha-as todas. O tricampeão do Mundo de F1 faleceu aos 70 anos. Depois de vários meses de internamento hospitalar e de um transplante pulmonar, estava novamente em tratamento na Suíça quando o seu estado de saúde se deteriorou, morrendo rodeado pela família. Curiosamente, Andreas Nikolaus Lauda foi o primeiro Campeão do Mundo de F1 da ‘vida’ do AutoSport, e um piloto que sempre espantou muita gente que fica a conhecer a sua história, quando em 1976 quase perdeu a vida no horrível acidente do Nürburgring Norschleife, que o deixou marcado para sempre. Lauda revelou um dia que teve uma visão de um padre que lhe ia dar a extrema unção, e isso serviu-lhe de estímulo para uma recuperação que a todos espantou.

LEVAR A SUA AVANTE
Andreas Nikolaus Lauda, por todos conhecido como Niki Lauda, nasceu em Viena, capital da Áustria, a 22 de fevereiro de 1949, numa família da burguesia média-alta. Mas apesar da sua paixão pelos desportos motorizados, nunca teve apoio dos pais, que preferiam que seguisse os negócios da família. Mas Lauda tinha outras ideias, e ser piloto de corridas cedo se tornou um objetivo claro. A escola não lhe corria bem, mas em determinado ponto conseguiu convencer o pai a dar-lhe um carro se os resultados escolares melhorassem. E assim foi! O ‘canudo’ que orgulhosamente apresentou ao pai, valeu-lhe dinheiro para comprar um VW Carocha, que depressa trocou por um Mini Cooper.
Mas o entusiasmo era grande, e o Mini foi destruído logo à primeira saída. A dívida de 1750 libras ficou e foi a avó que o ajudou. O carro seguinte foi um Mini Cooper S 1300 para fazer corridas, que arranjou na oficina do piloto local Fritz Baumgartner. Com ele, inscreveu-se na rampa de Mühlbacken, a 15 de abril de 1968. Apenas com 19 anos, terminou no 2º lugar da classificação geral. Mas houve um problema, é que o pai soube da prova, e proibiu-o de voltar a correr.
Claro que isso não aconteceu! Nos tempos que se seguiram, fez mais três corridas com o Mini e nove com um Porsche 911, que resultou numa vitória na geral e em sete vitórias na classe. Claro que logo repararam nele. A Austro-Kaimann, equipa oficial do seu país na Fórmula V, fez-lhe um contrato para 1969.
Fez 13 corridas, ganhou duas. Em 1970, Niki Lauda mudou-se para a F3, sem grande sucesso, mas com um Porsche 908, ganhou em Diepholz e em Osterreichring.
Já lançado, a família rendeu-se às evidências, e em 1971 pediu um empréstimo de 20 mil libras a um banco austríaco (o Erste Österreichische Spar-Kasse), para poder assinar um contrato com a March para correr na F2, onde foi colega de equipa de Ronnie Peterson. A March propôs-lhe um novo contrato, que incluía uma época completa na F2 e na F1. Mas custava 100 mil libras! Lauda queria ir em frente, mas o avô interveio junto do banco, e o jovem Niki, ficou sem dinheiro, mas com a dívida. Estreou-se na F1 aos 22 anos, com um March oficial, mas com uma dívida enorme para pagar. Zangado com a intervenção
da família, cortou os laços e nunca mais falou com o seu avô.

O CAMINHO PARA O PRIMEIRO TÍTULO
A sua perseverança foi grande, a qualidade como piloto era inegável, mas como todos sabemos, isso por vezes não chega para se ser notado e Niki Lauda esteve muito perto de terminar a carreira na F1 meses depois de a ter começado. O March 721X era mau, o que a equipa fez durante o ano, com uma evolução’, o 721G, não era melhor (um F2 reconstruído), e por isso no fim do ano, apesar de se ter dividido pela F1, F2 e corridas de Turismos e de Resistência, a dívida de Lauda não tinha diminuído muito. E não tinha contrato para a F1 em 1973.

Mas a sorte sorri sempre aos audazes. Lauda fez-se convidado para um teste da BRM em Paul Ricard, no início de 1973, batendo o veterano Vern Schuppan. A equipa não hesitou muito em lhe propor um acordo, dando início logo aí a uma pareceria entre Lauda e Clay Regazzoni, que se estendeu para a Ferrari (que aconselhou o commendatore a ir também buscar à BRM aquele jovem tão rápido e impressionante), durou quatro anos e terminou numa bela amizade entre os dois homens. A vida de Lauda na BRM não foi fácil, apesar de durar apenas uma temporada. A razão é simples de contar: uma vez mais, estava sem dinheiro e, a contas com o empréstimo anterior, ainda mal começado a pagar, conforme ganhava prémios com a BMW Alpina no Europeu de Turismo, ia amortizando a dívida, mas não conseguiu garantir aquilo que lhe pediram.
A solução foi um contrato prova a prova, que levou até ao final. A sua passagem para a Ferrari foi a porta que lhe abriu, finalmente, o sucesso almejado. No seu primeiro ano, venceu duas provas e foi quarto no campeonato, com 38 pontos. Mas, no ano seguinte, foi dominador e, com mais cinco triunfos, garantiu aquele que seria o seu primeiro título de Campeão do Mundo de F1. Tinha 26 anos e ficou pronto para, no ano seguinte, repetir a proeza.
O destino, porém, foi-lhe adverso: a 1 de agosto, no velho Nürburgring, Lauda despistou-se durante a corrida e foi retirado do Ferrari em chamas por Brett Lunger, Harald Ertl (cujos carros embateram no Ferrari imobilizado no meio da pista) e Arturo Merzario, que parou ao ver o acidente. E foi isso que lhe salvou a vida: seriamente queimado e com os pulmões colapsados pela grande quantidade de fumos tóxicos inalados, recebeu no hospital a extrema-unção. Todavia, resistiu e, para espanto de toda a gente, médicos incluídos, seis semanas mais tarde estava sentado no cockpit do Ferrari, em Monza! Terminou a corrida em quarto lugar, mantendo a liderança do campeonato, pois tinha ganho cinco GP, o último deles em Brands Hatch, duas semanas antes do seu quase fatal acidente. Até ao último GP, esteve sempre no comando e só não foi Campeão do Mundo porque, numa pista de Fuji inundada por um dilúvio, recusou continuar em prova, entrando nas boxes e entregando de bandeja o título a James Hunt.

DA QUASE MORTE AO TERCEIRO TÍTULO
Vingou-se no ano seguinte, com mais três triunfos, mas as suas relações com a Ferrari nunca mais foram as mesmas desde o GP do Japão em que, segundo a equipa italiana, “teve medo da chuva” e, para 1978, assinou com a Brabham. Nesta, venceu o GP da Suécia com o célebre BT46B ‘Aspirador’ – a única prova em que o carro correu – e, mais tarde, o de Itália, terminando a temporada em quarto lugar.
No ano seguinte, agastado com a extrema fragilidade do motor Alfa Romeo, que o condenava a consecutivos abandonos, Lauda bateu com a porta antes do GP do Canadá, mesmo depois de ter terminando em quarto em Monza e de, para o resto da temporada, a Brabham ter decidido substituir o motor italiano por um menos potente, mas mais fiável, Ford Cosworth DFV.
Nos três anos seguintes, dedicou-se por inteiro à sua companhia de aviação, a Lauda Air, até esta começar a dar prejuízo. Então, em 1982, assinou com a McLaren e, três provas depois, em Long Beach, voltou aos triunfos. 1983 foi um ano mau, com a equipa a arrancar com um chassis equipado com o obsoleto Ford Cosworth DFV, enquanto desenvolvia o motor TAG V6 turbo, que estreou na Holanda, a quatro provas do final do ano. Era apenas um ensaio e, em 1984, Niki Lauda voltou a vencer. Duplamente: ganhou cinco GP e, melhor ainda, bateu o seu colega de equipa Alain Prost, na última prova do ano, o GP de Portugal, por… meio ponto!
O ano de 1985 foi mau: 11 abandonos em 14 Grandes Prémios e apenas uma vitória, no GP da Holanda, elevando assim para 25 o seu score particular, a apenas duas do então recorde, na posse de Jackie Stewart. Além disso, partiu um pulso num acidente em Spa-Fracorchamps, faltando a uma prova. Por isso, não foi uma surpresa que, desiludido e cansado, tenha decidido colocar um ponto final na sua carreira na F1.
Tinha 36 anos e voltou aos negócios. Primeiro, com a Lauda Air e, quando teve que a vender, a uma outra empresa do mesmo ramo, que fundou em Pelo caminho, foi consultor técnico da Ferrari e dirigiu, em 2001 e 2002, a equipa Jaguar de F1. Desde 1996, foi comentador de F1 na RTL. Em 2008, a cadeia norte-americana ESPN colocou-o em 22º lugar no ranking de melhores pilotos de todos os tempos.
Niki Lauda, a quem chamaram ‘Super Rat’ ou ‘King Rat’, ficou mundialmente famoso pela sua imagem de marca: um boné vermelho da Parmalat e, mais tarde, da Viessmann, que passou a usar desde o seu acidente para esconder as marcas das queimaduras. Um dia, confessou que recebia 1,2 milhões de euros todos os anos pela publicidade que fazia no boné…

A VIDA NA FERRARI
Após uma carreira na F1 inicialmente marcada pela perseverança e impetuosidade, Niki Lauda foi contratado pela Ferrari em 1974 e, após uma estreia com laivos de brilhantismo no GP da Argentina, quando terminou em segundo ao volante do 312 B3, acabou por só voltar a triunfar na Holanda, terminando o Mundial na 4ª posição. Mas, em 1975, a história teve contornos distintos e as cinco vitórias alcançadas permitiram-lhe obter o título e afirmar-se como um dos grandes pilotos do momento. Infelizmente, o grave acidente que protagonizou no GP da Alemanha, em Nürburgring, impediu aquilo que parecia ser a crónica de mais um título anunciado, já que Lauda, em 1976, liderava confortavelmente o Campeonato com 31 pontos de avanço sobre o 2º classificado, Jody Scheckter. O piloto austríaco esteve às portas da morte mas, tal como a Fénix, renasceu das cinzas e voltou às pistas em Monza para defender a sua candidatura. Contudo, as péssimas condições meteorológicas registadas na derradeira prova do Mundial, o GP o Japão, realizado na pista de Fuji e as sequelas de um grave desastre ainda bem presentes, física e mentalmente, levaramno a abdicar da luta e a ‘entregar’ o campeonato a James Hunt. Uma decisão compreensível à luz de quem sentia na pele as consequências de um grave acidente, mas que Enzo Ferrari nunca quis compreender e aceitar.
Em 1977, ainda na Ferrari, voltou a ser Campeão Mundial, mas a relação de Lauda com a Ferrari e, principalmente, com o Commendatore estava inevitavelmente deteriorada e, assim, o piloto, que após 11 anos de insucessos da Scuderia tinha voltado a trazer a equipa para a ribalta, optou por rumar a
outras paragens.

O ACIDENTE
O Nordschleife foi palco de centenas (ou mesmo milhares…) de acidentes, dezenas deles fatais. Mas nunca nenhum foi tão falado como o que, em 1976, envolveu Niki Lauda. De tal forma, que foi mesmo já objeto de um filme, “Rush”, em que foi reportada a saudável (mais ou menos…) rivalidade que existiu entre o austríaco e James Hunt. Em 1976, Niki Lauda tinha 27 anos e era o Campeão do Mundo e, com o Ferrari 312 T2, continuou a dominar o panorama do Mundial de F1, caminhando a passos largos para o seu segundo título. Foi então que tudo se complicou…
Dia: 1 de agosto de 1976. Palco: Nordschleife. Lauda chegou ao GP da Alemanha, que era o 10º do calendário, com cinco vitórias, dois segundos e um terceiro lugares e na frente da tabela de Pilotos, com 61 pontos, mais 35 que o seu rival James Hunt, da McLaren, que só tinha ainda ganho duas provas. Tudo parecia, portanto, bem encaminhado para revalidar o título, embora faltassem ainda sete GP. A pista, no momento da largada, estava ainda molhada, mas já a secar. Clay Regazzoni, que partia da 5ª posição da gelha, não falhou e saltou para a frente da corrida, antes de fazer um pião e cair para 4º. No final da rimeira volta, que durou oito minutos, a maior parte dos pilotos decdiu parar nas boxes para trocar para pneus para seco, o que deixou Jochen Mass (Mclaren) na frente de Gunnar Nilsson (Lotus).
Então, na segunda volta, aconteceu a tragédia: Niki Lauda perdeu o controlo do Ferrari, a alta velocidade, por causa de uma eventual quebra da suspensão e bateu nas barreiras de proteção, antes de rodopiar e ficar parado a meio da pista, pegando fogo de imediato. Nessa altura, foi atingido pelo Hesketh de Harald Ertl e pelo Surtees de Brett Lunger. Os dois pilotos saíram de imediato dos seus carros e, acompanhados por Arturo Merzario e Guy Edwards, que tinham parado ao ver o que estava a suceder, correram para os destroços do Ferrari, retirando Lauda das chamas. A corrida foi parada e o austríaco, com graves queimaduras na cabeça e no tronco, foi levado para um hospital, onde, em condições críticas, chegou a receber a extrema-unção. Mas recuperou e, milagrosamente, seis semanas depois do acidente, estava a correr no GP de Itália, que terminou em 4º, arrancando pedaços de carne e de pele, ao tirar o capacete da cabeça, no final da corrida. Veio a perder o título quando, na derradeira prova, o diluviano GP do Japão, abandonou, recusando-se a continuar em tais condições de perigo, entregando de bandeja o título a James Hunt, que foi Campeão do Mundo com um ponto de vantagem! E Lauda, que chegou mesmo a ser chamado de cobarde, pela sua atitude ponderada… nunca mais teve a mesma vida na Ferrari.

Nome: Andreas Nikolaus ‘Niki’ Lauda
Data de nascimento: 22 de fevereiro de 1949
Local de nascimento: Viena
Nacionalidade: Austríaca

Casado pela primeira vez com Marlene, de quem teve dois filhos: Mathias, que também é piloto de automóveis, e Lukas. Divorciou-se em 1991. Em 2008, voltou a casar, com Birgit, 30 anos mais nova e que tinha sido hospedeira de voo na sua companhia aérea. A relação fortaleceu-se quando ela foi a doadora de um rim, numa operação a que Lauda se submeteu depois do rim que lhe tinha sido anteriormente doado por um seu irmão, anos antes, falhar, colocando a sua vida em risco. Niki e Birgit tiveram um casal de gémeos, nascidos em setembro de 2009. Niki Lauda tinha ainda um filho de uma outra relação, nunca legitimada pelo casamento, chamado Christoph.

Palmarés
GP 171
1º GP F1 GP DA ÁUSTRIA 1971 (MARCH/FORD)
ÚLTIMO GP F1 GP DA AUSTRÁLIA 1985 (MCLAREN/TAG TURBO)
VITÓRIAS 25
PÓDIOS 54
POLE POSITIONS 24
PRIMEIRAS LINHAS 31
VOLTAS MAIS RÁPIDAS 24
PONTOS 420,5
TÍTULOS 3 (1975, 1977 E 1984)
MARCAS MARCH (1971 E 1972); BRM (1973); FERRARI (1974 A 1977);
BRABHAM (1978 E 1979); MCLAREN (1982 A 1985)