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MEMÓRIA: OS DUROS TAMBÉM SOFREM


Há uns dias recordamos o acontecimento que quase se tornou em tragédia, do acidente de Robert Kubica num rali em Itália. Na altura, em 2011, o AutoSport tinha um colaborador, Roberto Chinchero, que não só era um grande conhecedor dos jovens pilotos que já estavam na F1, mas que tinha também uma ligação muito próxima com Kubica, era o confidente a quem o polaco recorria quando tinha dúvidas ou problemas, e também companheiro de bancada nos jogos do Milan em San Siro.

Num texto essencialmente pessoal, Chinchero recordou na altura como foi a vivência de Kubica no Hospital da Santa Corona, as suas emoções e receios duma forma que só quem é próximo do polaco poderia fazer. Recordamos esse texto, 10 anos depois…

Roberto Chinchero

“Viste a telemetria? O primeiro gráfico é o do batimento cardíaco, o segundo é da pressão sanguínea e o terceiro… já não me lembro. Os médicos leem os dados, como nos fazemos nas boxes. Se calhar depois mudam-me a caixa eletrónica, não achas?” Robert Kubica é um piloto de F1 mas o que entra no seu habitáculo é só uma parte, se bem que importante, dum homem fora do comum. Claro que aos adeptos interessa saber se o Kubica de capacete e macacão vai voltar às pistas, mas essa é uma resposta que ainda ninguém pode dar.

Nem lhe faço perguntas diretas, até porque depois da primeira saudação é ele que faz as perguntas: “Como foram os testes de F1? Os Pirelli ainda aguentam poucas voltas? Quem ganhou a GP2 em Abu Dhabi?” E parte para as suas análises habituais, só com pausas mais longas que o normal porque para ele cada movimento é garantia de dor intensa.

No meio da Unidade de Cuidados Intensivos, não falta o sorriso e o humor habitual: “Belo vestido que te deram, mas as mangas são curtas para ti….” E parte para uma descrição do seu novo ambiente: “São tantos os sinais de alarme que é difícil perceber tudo, mas quanto mais grave o problema, mais agudo é o alarme. De noite se há dois ou três com problemas, é uma barulheira enorme!”

Como sempre, apesar da sua situação, Kubica preocupa-se mais com o bem estar de quem o visita do que com o seu. Alarma-se porque os paparazzi incomodam os amigos e a família, mas com o passar dos dias o assédio diminui.

TUDO PELA RECUPERAÇÃO

Com um cérebro que funciona a mil quilómetros por hora, toda a energia física é dedicada à recuperação: “Vês, o indicador mexe-se, mas não posso dizer que estou em grande forma… Tive sorte, vou ter um tempo complicado à minha frente, mas estou preparado.” Quem o conhece não teme as dificuldades, os sacrifícios que o esperam. Mas todos sabemos que mesmo um duro como Robert tem alma e se tenta esconder a angústia, sofre.  Sabe que do lado de fora do quarto está Edita, a sua namorada de sempre, o amigo e manager Daniele Morelli e o seu médico, o Dr. Riccardo Ceccareli, mas quando está sozinho tem tempo de pensar.

Conhecendo-o bem, sei que só a si dá a culpa pela situação que vive, porque se é severo com os outros, é-o ainda mais consigo próprio. Espero que se lembre de como Liuzzi o fez rir, visitando-o todos os dias desde o acidente, como verdadeiro amigo que é: “Olha, põe-te mas é bom da mãozinha, sim, que está na hora de eu começar a recuperar o dinheiro que já me ganhaste no poker!” Mas seguramente relembra o que deveria ter sido um dia de divertimento e acabou de modo quase trágico.

Cá fora, Liuzzi perde o sorriso e a vontade de brincar. Sofre com a situação do amigo e informa-se o mais que pode do seu estado. Os médicos tentam confortá-lo: “Não podia ter tido o acidente em melhor lugar, porque aqui temos tudo o que é necessário para o recuperar.”

Se o homem tem o regresso a uma vida normal garantido, mesmo se ainda não se sabe se a cem por cento, quando se pensa no piloto as coisas são mais complicadas.

Mas da F1, para além de querer saber tudo, o polaco emociona-se quando lhe mostro fotos de todos os carros com uma mensagem para si, quando lhe faço ver que todos os jogadores do Milan autografaram a camisola número sete – o seu número preferido – e quando recebe centenas de mensagens diárias, mesmo de gente com quem quase não tinha contacto.

Mas como é que um polaco, tranquilo, discreto, toca tanta gente de forma tão profunda? “Olha, não é pelo seu talento como relações públicas”, ri-se Eric Boullier quando lhe fazemos a pergunta. A resposta, deu-a Alex Zanardi, ainda antes do acidente, na noite memorável dos Capacetes de Ouro da Autosprint em dezembro: “Robert é um grande piloto e, mais do que isso, um homem sério. Vê-se que é autêntico, que é um grande!” Uma frase que pode parecer banal mas que vinda dum elemento importante da mesma ‘tribo’ de pessoas, tem todo outro peso.”