Em qualquer rivalidade, chega um ponto em que a corda parte e se dá o inevitável confronto direto. A luta Max Verstappen vs Lewis Hamilton desde o início do ano que andava a prometer o que aconteceu em Silverstone.
O arranque da prova foi marcado pelo incidente na curva Copse, uma rápida direita onde Lewis Hamilton ganhou o interior, com Max Verstappen a não levantar o pé, dando-se um toque. Este tema irá sempre dividir os fãs, com uns a acharem que foi uma manobra irrefletida de Hamilton e outros a apontarem Verstappen como culpado.
Sabíamos que este momento iria acontecer mais tarde ou mais cedo e, de certa forma, foi surpreendente não ter acontecido antes. Os dois pilotos já partilharam várias vezes este ano a primeira linha da grelha de partida, mas na grande maioria delas, foi Verstappen a ficar por cima, por um motivo muito simples… Hamilton nunca arriscou e optou sempre pela via mais segura. Basta lembrar Ímola ou Barcelona para vermos que Verstappen teve sempre uma postura muito agressiva e que Hamilton preferiu sempre sobreviver e levantar o pé.
Mas sabemos que o sucesso da F1 depende também do fator mental. E nesta fase, Verstappen tinha a vantagem pois Lewis Hamilton levantou sempre o pé. O britânico sabia que teria de se impor também, correndo o risco de ver o neerlandês ser cada vez mais agressivo nas lutas. Martin Brundle costuma relembrar como Ayrton Senna fazia na Fórmula 3000 britânica, colocando-se numa posição em que o acidente dependia da atitude do adversário: se levantasse o pé a vantagem psicológica ficava do lado de Senna. Foi um pouco o que aconteceu ontem em Silverstone.
No dia anterior, o cenário foi o inverso e Hamilton apareceu por fora na entrada da Copse com Verstappen por dentro. Hamilton levantou o pé e foi largo, com Verstappen a assumir a liderança que lhe valeu a pole. A jogar em casa e a querer vencer perante o seu público, era inevitável que Hamilton subisse os níveis de agressividade, pela vontade de vencer e por tudo o que aconteceu anteriormente.
Lewis Hamilton foi penalizado com a segunda pena mais leve do “cardápio” à disposição dos comissários. A gravidade do impacto terá levado a isso, mas a pena aplicada mostra que os comissários terão ficado divididos. Este é o típico caso “futeboleiro” da intensidade… nunca haverá consenso.
A repartição de culpas parece a decisão mais lógica: Hamilton arriscou e Verstappen também e como as duas culpas se anulam mutuamente temos aqui um caso forte de incidente de corrida, esta é pelo menos a minha visão pessoal. As proporções do toque foram assustadoras e felizmente Verstappen saiu “apenas” abalado do impacto de 51G. Mas a forma irada como a Red Bull reagiu, com Helmut Marko a pedir uma corrida de suspensão para Hamilton torna-se algo caricata, quando no dia anterior todos viram que em situações inversas, Verstappen arriscou e meteu por dentro, tal como Hamilton fez.
O que vimos foi dois pilotos fantásticos, a lutarem de forma aguerrida e infelizmente o toque tornou-se inevitável pois a sede de vitória falou mais alto nos dois cockpits. O que se seguiu foram cenas que mais uma vez nos relembram do perigo deste desporto e dos riscos a que os pilotos estão sujeitos.
Tudo o resto faz parte do Grande Circo que é a F1. As acusações de Christian Horner, os mails de Toto Wolff, as críticas dos homens da Red Bull e até o post inflamado de Verstappen apontando falta de fair play e desrespeito pelos festejos quando ele estava no hospital… tudo isso faz parte do espetáculo mediático da F1, que será certamente esmiuçado. Quanto à corrida em si, apenas vi dois teimosos que não levantaram o pé, num incidente de corrida que deverá acontecer mais vezes este ano. Usando uma célebre frase de um filme de Hollywood: “Are you not entertained?”











