A ciência mental por trás da surpreendente maturidade de Kimi Antonelli. Como a psicologia desportiva explica o sucesso – até aqui – do jovem prodígio…
As recentes declarações de Kimi Antonelli na conferência de imprensa da F1, constituem um excelente case-study em psicologia desportiva de alta performance. Apesar da sua extrema juventude, o piloto revela um arsenal de mecanismos cognitivos e uma maturidade mental que distinguem os atletas de elite dos restantes.
O facto de um jovem de tenra idade – ainda tem 18 anos – ter dado respostas do calibre das que deu na conferência de imprensa deixou-nos curiosos.
Perguntámos a quem sabe, passámos as declarações, e a análise, ainda que superficial, é clara…
Percorrer o caminho, não pensar na ‘meta’
Pelos vistos, na psicologia desportiva, a fixação no resultado final (pontos, títulos, expectativas externas) gera, naturalmente, ansiedade generalizada e por vezes bloqueio cognitivo, mas Kimi Antonelli mitiga este risco, focando-se no processo em detrimento da meta de longo prazo. O exemplo está aqui:”No que respeita ao campeonato, não estamos propriamente preocupados com isso. Obviamente que tenho perfeita noção da oportunidade que tenho em mãos e quero aproveitá-lo ao máximo (…). No entanto, ao mesmo tempo, não quero pilotar ou correr a pensar nisso. Quero focar-me exclusivamente no que tenho de fazer em pista…”
Ao converter uma corrida pelo título mundial numa simples execução de etapas (“o processo”), o piloto liberta ‘largura de banda’ mental para tomar decisões reflexas mais rápidas dentro do habitáculo.
Lembram-se do ano passado, todos aqueles erros e o que muitos de nós já diziam, ou escreviam do jovem piloto? Vejam como está agora. Este “crescimento pós-adversidade” mostra a capacidade de reinterpretar um evento traumático ou altamente negativo sob uma perspetiva de utilidade e aprendizagem.
Antonelli, em vez de recalcar ou negar a crise de autoconfiança sofrida no ano anterior, integrou-a na sua narrativa de evolução: “Duvidava imenso de mim, especialmente durante aquele período difícil na fase europeia da temporada. (…) Por pior que tenha sido o momento na altura, hoje estou muito grato por ter acontecido, porque me fez crescer substancialmente e ensinou-me muito sobre mim mesmo.” Esta declaração demonstra uma autocrítica muito saudável e mesmo incrível para um jovem que ainda tem 18 anos.
É curioso porque Antonelli não se apresenta como uma máquina infalível; ele valida a sua vulnerabilidade passada e usa-a como prova da sua própria resiliência atual.
Economia de energia mental
O cérebro humano ‘consome’ mais energia quando exposto a ambientes novos. Se estiver, por exemplo, a guiar numa estrada nova, a nossa atenção (cérebro em atividade) é muito maior. No caso de Antonelli, há uma resposta em que ele explica como compartimenta as coisas. Quando regressa a um circuito onde já competiu, é ainda mais eficiente: “É uma diferença maciça regressar a um circuito onde já corremos no ano anterior, pois conhecemos melhor a evolução da pista ao longo das sessões e compreendemos melhor a estrutura do fim de semana. Isso permite-nos gerir a energia de uma forma muito mais eficaz. Consequentemente, ao entrar no carro, sentimo-nos melhor do ponto de vista físico e mental…”
Este domínio sobre a “balança energética” mental impede o esgotamento prematuro do piloto antes do momento crucial da qualificação ou da corrida.
Mentalidade de crescimento
Está perfeitamente estudado, o talento não é uma característica fixa, mas sim um músculo em desenvolvimento. Antonelli não encara a liderança do campeonato como o seu teto máximo, mas sim como o início de um mapeamento do seu potencial. O exemplo no seu discurso:”Ainda restam perguntas que precisam de resposta do meu lado: até onde posso chegar num curto espaço de tempo? O quanto mais consigo exigir de mim próprio? O quanto mais posso evoluir e quão grande é o meu potencial?” Adicionalmente, para proteger esta mentalidade de crescimento do “ruído do ego” (como as comparações da imprensa a Ayrton Senna), ele aciona um mecanismo psicológico que muitos de nós usamos: “descer à terra”: “É um excelente momento, mas é fundamental não nos deixarmos deslumbrar. Devemos manter o foco, os pés bem assentes na terra e concentrarmo-nos no objetivo final…”
Estes exemplos demonstram que a estabilidade de Kimi Antonelli não advém de uma arrogância juvenil ou de ignorar o perigo, mas sim de um sistema rigoroso de regulação emocional. Ele desfragmenta a pressão exterior convertendo-a em dados técnicos observáveis (pista, energia, processo de condução), o que o protege psicologicamente do stress da alta competição.
O que fica aqui a faltar, é quando as coisas correrem mal, como irá reagir. Até aqui, regra geral, só teve “bons inputs”, em claro contraste com George Russell, que parece estar a deixar “ir-se abaixo”.
quem mais um bom exemplo? No GP do Mónaco, Isack Hadjar a queixar-se fortemente da falta de potência do motor e o engenheiro várias vezes a dizer-lhe: “concentra-te no que tens de fazer” porque as queixas só lhe iriam continuar a aumentar o stress…
FOTO MPSA Agency










