Há 12 anos, as páginas do nosso jornal detalhavam como a sabedoria de Ingolstadt bateu a juventude de Estugarda e a velocidade da Toyota na classe rainha

Há momentos no desporto automóvel em que a história se escreve não pela velocidade pura, mas pela capacidade de reagir à adversidade. Recuando até junho de 2014, somos projetados para uma das edições mais aguardadas do século XXI: o ano em que a Porsche regressou à categoria máxima (LMP1) com o tecnológico 919 Hybrid, após 16 anos de ausência, para desafiar a Audi e a Toyota. Na altura, titulámos a nossa crónica de forma categórica: “Preparados para vencer”. Uma leitura que, hoje, nos recorda uma verdade imutável em La Sarthe: a experiência bem aplicada ganha sempre.

Nas linhas que escrevemos na época, sublinhavamos que em Ingolstadt ninguém considerava o número 13 como sinónimo de azar. Pelo contrário. A Audi alcançava a sua 13ª vitória em 15 anos porque os seus protótipos R18 e-tron quattro eram projetados para facilitar o acesso a qualquer componente. “Assumindo que vai acontecer algo de mau”, explicavamos no texto original, a equipa preparava-se para resolver avarias em minutos. E a marca dos anéis bem precisou dessa filosofia numa maratona mítica de sol e chuva.

O calvário dos favoritos e a ressurreição dos turbos
Ao reler o nosso relato, revivemos a sucessão de golpes de teatro que deitou por terra o favoritismo dos mais velozes. A Toyota dominou a primeira metade da prova; o carro número 7, que conquistara a pole position com Kazuki Nakajima, liderava confortavelmente com meia volta de vantagem até ser traído por uma avaria elétrica ao amanhecer. Pouco antes, a Porsche também via o seu carro número 20 passar pelo comando, mas problemas de juventude deixaram-no apenas com potência elétrica a duas horas do fim.
A corrida transformou-se, então, numa viagem no tempo. Em pleno ano de 2014, a fiabilidade parecia ter recuado aos anos 70, com os dois Audi sobreviventes a serem forçados a trocar os turbocompressores nas boxes — uma operação raríssima na era moderna. No final, a tripla Benoit Tréluyer, Marcel Fässler e André Lotterer repetiu os triunfos de 2011 e 2012, secundada pelo Audi número 1 de Tom Kristensen, Marc Gené e Lucas di Grassi. Gené, recordávamos na altura, saltou para o carro à última hora para substituir Loïc Duval, impedido de correr pelos médicos após um violento acidente nos treinos livres que destruiu o carro original, totalmente reconstruído pela equipa em apenas 24 horas.

A enorme desilusão do contingente português
O ângulo mais doloroso da nossa cobertura de então residia na prestação dos pilotos nacionais, fustigados por “ratoeiras” e problemas mecânicos. O caso mais gritante foi o de Filipe Albuquerque, integrado no terceiro Audi oficial. O piloto de Coimbra e os seus companheiros, Marco Bonanomi e Oliver Jarvis, alinhavam no quinto posto da grelha (o melhor Audi nos treinos) e Albuquerque celebrava o seu 29º aniversário com o Troféu de Melhor Piloto Estreante na Qualificação.
Contudo, o piloto luso nem sequer chegou a sentar-se no cockpit durante as 24 horas. À segunda hora de corrida, sob um violento aguaceiro, o Ferrari de Sam Bird abalroou a traseira do Audi pilotado por Bonanomi, forçando o abandono imediato. “As coisas estavam a correr bastante bem… e quando menos se esperava, o pior aconteceu”, desabafou-nos Albuquerque em discurso direto, visivelmente desiludido com o desfecho inglório.
Mais atrás, na classe LM GTE Am, Pedro Lamy também viu a vitória fugir-lhe por entre os dedos. Aos comandos do Aston Martin Vantage V8 número 98, o piloto português liderava com 38 segundos de vantagem quando uma avaria na coluna de direção deitou tudo a perder. “Infelizmente, perdemos imenso tempo nas boxes”, lamentava Lamy ao AutoSport, tendo ainda recuperado até ao sexto lugar da classe numa prova disputada ao ritmo de sprint.
Quem também teve uma batismo de fogo complicadíssimo em La Sarthe foi Álvaro Parente, estreando-se com o Ferrari 458 da RAM Racing. Parente chegou a parar nas Hunaudières devido a um princípio de incêndio no sistema de telemetria, tendo o discernimento de impedir que os comissários usassem os extintores para não ditar o abandono imediato. A caixa de velocidades acabaria por ceder na madrugada, mas o piloto garantia-nos que a mítica pista o tinha seduzido: “Espero regressar para ajustar contas com Le Mans”.
FOTOS Oficiais das Marcas












