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Edições marcantes Séc. XXI, 24h Le Mans 2016: O dia mais cruel de la Sarthe

José Luis Abreu by José Luis Abreu
13 Junho, 2026
in AutoSport Histórico, VELOCIDADE
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Edições marcantes Séc. XXI, 24h Le Mans 2016: O dia mais cruel de la Sarthe

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A escassos 3 minutos do fim da corrida, após 23 horas e 57 minutos a acelerar, o o Toyota TS050 Hybrid número 5 perdeu potência na reta da meta devido a uma falha num conector do turbo. O Porsche nº 2 ultrapassou o Toyota parado na última volta, gerando uma das reações de choque mais viscerais alguma vez vistas nas boxes.

Há precisamente uma década, as nossas páginas registavam o maior drama do automobilismo moderno, que entregou de bandeja o 18º triunfo à Porsche.
Há edições que ficam gravadas na memória coletiva não por quem dominou, mas pela forma inacreditável como a vitória escapou entre os dedos. Ao abrirmos o arquivo do AutoSport e recuarmos a junho de 2016, deparamo-nos com o relato daquele que foi, sem margem para dúvidas, o final mais implacável e dramático da história das 24 Horas de Le Mans. Na altura, o nosso jornalista Paulo Manuel Costa abria a crónica com uma frase que hoje, ao relermos, mantém o mesmo impacto arrepiante: “Nunca houve um final assim em Le Mans”.

Nas nossas páginas de então, recordavamos aos leitores que analisar uma corrida de 24 horas envolve dissecar ritmos, antecipar paragens e gerir o tráfego. Mas a verdade contundente expressa no artigo original mantém-se atual: nada disso interessa até baixar a bandeira de xadrez.
Perante 263 500 espectadores em choque, o Toyota TS050 Hybrid número 5, que realizara uma prova limpa e virtualmente perfeita, preparava-se para a consagração. Contudo, a escassos seis minutos do fim, o motor calou-se. A cinco minutos da meta, o protótipo nipónico perdeu tração e, a meros três minutos do encerramento, imobilizou-se na reta da meta, mesmo em frente à sua box.

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O sonho desfeito de Nakajima e a herança inesperada da Porsche
Ao reinterpretar a perspetiva do nosso artigo da época, sobressai a dimensão histórica do que se perdeu ali. Kazuki Nakajima preparava-se para ser o primeiro piloto japonês a vencer o mitológico evento aos comandos de um protótipo também japonês, quebrando um enguiço da Toyota que durava desde 1985. O carro irmão, o número 6, dominara a fase inicial à chuva, mas fora a tripla do número 5 — com Anthony Davidson e Sébastien Buemi — a carimbar a liderança na fase crucial. A 15 minutos do fim, Nakajima geria uns impossíveis 1m30s de vantagem sobre o rival mais próximo. A falha terminal no conector do turbo não só lhe roubou a vitória como, devido a uma última volta cumprida em mais de seis minutos, fez com que o carro nem sequer ficasse classificado.

O infortúnio asiático abriu alas ao 18º triunfo da Porsche. Como escrevemos na altura, a própria formação de Estugarda já tinha deitado a toalha ao chão a uma hora do fim. O favoritismo do carro número 1 esvaziara-se na sequência de uma avaria no sistema de refrigeração, e o número 2 de Marc Lieb, Romain Dumas e Neel Jani — que herdou a liderança na penúltima volta — recuperava de atrasos provocados por uma má escolha de pneus e uma saída de pista. Jani cruzou a meta sem conseguir acreditar no desfecho.

O drama acabou por salvar o pódio da Audi (terceiro e quarto lugares), que sofria com falhas de turbos e travões. Sem o colapso da Toyota, a marca de Ingolstadt teria falhado o pódio em la Sarthe pela primeira vez desde a sua estreia em 1999.

As recuperações de Filipe Albuquerque e João Barbosa na LMP2
No contingente luso, as páginas do AutoSport detalhavam uma jornada de forte resiliência na competitiva classe LMP2. Filipe Albuquerque, aos comandos do Ligier da RGR Sport by Morand, que partilhava com Bruno Senna e Ricardo González, sabia de antemão que a aerodinâmica do seu monolugar estaria em desvantagem face aos Oreca. Para piorar, após a partida dada atrás do safety car, o motor do Ligier cedeu à terceira hora, custando oito voltas nas boxes. Uma posterior quebra de suspensão relegou-os para o fundo do pelotão, mas uma recuperação sólida permitiu-lhes salvar o 10.º posto da classe (6.º entre os inscritos no WEC). “Pensei que à terceira seria de vez, mas também não foi”, desabafou-nos Albuquerque, focando-se de imediato nas contas do campeonato.

Por sua vez, João Barbosa reeditou a sua colaboração com a Krohn Racing. Apesar de a equipa ter trocado o motor Judd pelo mais competitivo bloco Nissan, o Ligier verde sofria com a elevada resistência ao ar nas longas retas das Hunaudières. Barbosa rubricou turnos de excelente nível, mas as duas saídas de pista do patrão da equipa, Tracy Krohn, ditaram um modesto 13.º lugar na categoria. “Estar numa corrida como esta é especial, seja qual for o resultado”, declarou-nos o experiente piloto luso, relativizando a classificação antes de apontar agulhas ao campeonato norte-americano IMSA.

Voltar a ler esta detalhada cobertura, agora que se cumprem precisamente 10 anos sobre esta edição de 2016, recorda-se a incredulidade de todos no momento em que a Toyota colapsou e a Porsche triunfou, um facto que preserva a carga dramática que os números frios das tabelas de tempos tendem a apagar com os anos.
É um daqueles momentos eternos que justificam plenamente ser recordados, ilustrando na perfeição por que razão Le Mans é apelidada de a corrida mais bela — e simultaneamente mais cruel — do mundo.

FOTOS António Borga – Interslide/Paulo Maria e Oficiais

Tags: 24h Le Mans 2016
José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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