F1, Corridas Sprint – Jogada política ou receio do caos?
Se inicialmente estávamos a contar com seis corridas sprint, esse número poderá cair para metade, ou até menos, dependendo do que for decidido nos próximos dias. As equipas grandes têm feito pressão para que a compensação monetária para as seis corridas seja de 5 milhões de dólares, um valor substancial e que não agradou às restantes equipas.
Sabe-se que as equipas receberam mais 100.000 dólares por cada corrida sprint em 2021. Foi-lhes também concedido um aumento no limite orçamental de 450.000 dólares para os três eventos, mais a possibilidade de um suplemento de 100.000 dólares por carro para danos de acidente no caso de um incidente grave.
Para este ano, entende-se que F1 não quer oferecer qualquer indemnização extra por acidentes. Em vez disso, a sua oferta inicial era um pagamento directo de $500.000 por equipa para os primeiros cinco eventos, mais um extra de $150.000 por cada evento acima disso. Isto significa efectivamente um suplemento de $2,65 milhões por cada equipa para as seis corridas em 2022.
Ora esta proposta não agradou às equipas grandes e foi Zak Brown que fez questão de tornar o assunto público, apontando o dedo a uma equipa.
Ora para que esta questão das seis corridas e do respetivo financiamento seja acordado é preciso uma maioria de 28 votos em 30 possíveis na Comissão para a F1. O problema é que se as equipas grandes quiserem ir contra esta ideia, poderão influenciar a tendência de voto das equipas cliente. Ou seja, a Ferrari poderia pressionar a Haas e até a Alfa Romeo, a Red Bull e a Alpha Tauri invariavelmente votam da mesma forma e a Mercedes poderia forçar a Williams a ir contra a sua ideia. Este é um cenário hipotético mas que não foge muito da realidade da maioria das votações.
Estará aqui em causa apenas uma questão financeira? Ou há interesses desportivos subjacentes a este bloqueio?
Se olharmos para as corridas Sprint do ano passado, à primeira vista, as equipas grandes não foram muito prejudicadas. A Mercedes venceu 2 corridas sprint ( Valtteri Bottas ) e a Red Bull uma (Max Verstappen). Lewis Hamilton pode parecer ter sido o mais prejudicado, mas na verdade beneficiou das corridas sprint de Interlagos para cumprir a penalização por troca de motor e recuperou até ao quinto lugar, que lhe permitiu depois lutar pela vitória. Mesmo a Ferrari, outra das equipas que estará a bloquear o acordo, em corridas sprint conseguiu sempre estar no top 5 ou muito perto. Em Silverstone Charles Leclerc fez pódio na corrida, e nas duas seguintes a equipa teve como melhor resultado um quarto e um quinto lugar (sempre com Leclerc melhor). No que diz respeito a grandes mudanças, as corridas sprint não trouxeram revoluções nas grelhas de partida. Desportivamente, as corridas sprint não influenciaram sobremaneira o resultado final da corrida de domingo. Mas a influências destas numa época não pode ser menosprezada. Há um desgaste extra nos motores, nos chassis, há um fim de semana que não pode ser trabalhado como os engenheiros pretendem, há rivalidades que ficam mais acesas ao sábado, o que pode levar a incidentes ao domingo (o caso dos duelos Verstappen vs Hamilton, azedaram sempre mais nos fins de semana das corridas sprint).
O que as equipas grandes podem estar a fazer é um jogo duplo. Se por um lado os cinco milhões extra podem ser canalizados para mais investigação e desenvolvimento dos novos carros, o que num ano com tantas incógnitas pode ser muito útil, por outro lado se a proposta não avançar, as equipas retiram uma variável pouco controlável da equação. O risco de acidentes torna-se menor, o controlo em todos os fins de semana torna-se maior e não há areia numa engrenagem que não gosta de sair da zona de conforto.
O que pode estar aqui em causa é o fim das corridas Sprint, o que por si só não é um mal muito grande pois, apesar de terem trazido mais alguma cor aos fins de semana, não são uma adição que valha a pena fazer questão de manter (isto de uma vertente puramente desportiva). Mas isto traz de volta velhos hábitos, em que as equipas grandes olham apenas para o seu umbigo. Desde a entrada da Liberty que têm sido encontradas plataformas de entendimento em que, com maior ou menor dificuldades, todas as equipas conseguiram entender que era preciso preservar o desporto e por isso aceitar medidas que poderiam ser detrimentais a curto prazo. Com este regresso aparente a uma mentalidade antiga, poderemos ter um ambiente político menos favorável daqui para a frente, com equipas como a McLaren e a Alpine a ficarem contra a Mercedes, Red Bull e Ferrari, que têm do seu lado a força de serem agora todas fornecedoras de motores e com isso influenciarem os votos na Comissão para a F1.
Olhando para o cenário atual, este bloqueio às corridas Sprint parece ser mais uma jogada política, do que uma tentativa de as equipas grandes se afastarem de um cenário desportivo menos favorável. Pode também ser o princípio do fim das corridas sprint, uma luta que a Liberty não vai deixar acabar facilmente pois encontrou uma forma de valorizar ainda mais os fins de semana. O que pode acontecer é vermos as corridas sprint não acontecerem em 2022 para regressarem em força em 2023, sem ser necessária a unanimidade para a sua aprovação. No entanto, a questão do fornecimento dos motores terá de ser sempre tida em conta e as equipas poderão entrar num beco sem saída, onde jogos de poder e egos falam mais alto. É, no fundo, a F1 a ser F1.
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