A cena passa-se em Abril de 1977, quando um piloto português, com vários títulos no palmarés, decidiu um dia encerrar a sua carreira desportiva com uma participação no campeonato europeu de ralis.
Conseguiu um modesto patrocínio junto de uma multinacional francesa e recrutou os seus companheiros de aventura – um navegador e um mecânico – aos quais, pontualmente, se juntava um amigo.
Os meios disponíveis não podiam ser mais exíguos: um Escort de Grupo 1 já com um campeonato nacional no ativo, um atrelado que já conhecera dias melhores, uma caixa de ferramentas, um macaco hidráulico, meia dúzia de pneus e outros tantos sobressalentes, tudo colocado numa verdadeira peça de museu, uma carrinha Peugeot da qual já ninguém sabia ao certo o número de voltas completadas pelo conta-quilómetros, nem o número de matrículas que ostentara anteriormente.
Numa equipa tão limitada, todos cumpriam várias funções. Mas a carrinha – carinhosamente apelidada de “Carreras” – era, provavelmente, o elemento mais importante do conjunto e, com toda a segurança, o mais versátil: rebocava o veículo de prova nas longas deslocações pela Europa, servia como veículo de treinos e, quando o rali começava, virava carro de assistência.
Durante uma passagem de reconhecimento (a única, já que não havia tempo nem dinheiro para mais) por um dos troços do Rali das Quatro Regiões, como sempre a bordo da carrinha Peugeot, os nossos heróis encontraram um piloto do Jolly Club que era já uma certeza do automobilismo desportivo transalpino. Tratava-se de Adartico Vudafieri que, com o seu navegador, olhava com ar desolado para o Lancia Stratos de treinos imobilizado por uma avaria irreparável. O piloto português, conhecido pela sua capacidade de relacionamento, não perdeu a oportunidade: anunciou-se como um “igual”, também ele concorrente à prova, e ofereceu uma boleia à dupla italiana.
Para ele, era uma oportunidade de ouro: para além das histórias de mais uma participação internacional, de regresso a casa poderia contar aos amigos que até tinha dado uma ajuda ao Vudafieri.
Imaginem, pois, o ar perplexo do nosso herói quando o italiano, querendo retribuir a gentileza, lhe perguntou com ar cândido enquanto se alojava na decrépita carrinha: “Piloto português? Onde está o teu muleto? Também tiveste um problema?”. Escusado será dizer que o nosso compatriota nem conseguiu balbuciar uma resposta e se limitou a conduzir calado até à aldeia vizinha.
Este texto, de autor “incógnito”, terá uma “segunda parte”, onde se poderá perceber como as coisas mudam tanto em duas décadas e meia. O único ponto comum entre elas é um dos “atores” que, no segundo caso, representa um personagem quase 25 anos mais velha e com o cabelo bastante mais ralo.
NOTA: Assim que for publicado o segundo texto faremos um link para este de modo a poder-se fazer um paralelismo.












