Carlos Tavares deixou um aviso sério ao Campeonato do Mundo de Endurance da FIA. O CEO da Stellantis está preocupado com o rumo da competição e pede mudanças para garantir o seu futuro.
Não há dúvidas que estamos num dos melhores períodos de sempre da resistência mundial. O WEC tem agora uma força como raramente se viu, com muitas marcas, muito interesse do público e um potencial que ainda não foi completamente explorado. Com 14 marcas representadas, nove na categoria principal, o WEC está numa posição privilegiada.
Uma era de ouro ainda pouco estável
A adoção da regulamentação Hypercar / LMDh atraiu muitas marcas, mas desde cedo se percebeu que o sucesso da competição dependia da forma como o Balance of Performance (BoP) fosse aplicado. Em 2021, ainda no início da era Hypercar / LMDh, Alex Wurz, embaixador da Toyota e uma das referências do mundo da resistência, referia a importância de um BoP justo para garantir o sucesso da competição:

O caso Peugeot
Quase três anos depois, o WEC está pujante, mas ainda sujeito a alguma instabilidade. O BoP continua a dar que falar e há marcas que poderão ficar cada vez mais descontentes e até ponderar a saída se o sentimento de injustiça se prolongar.
Uma dessas marcas é a Peugeot. O projeto da marca francesa começou com arrojo, com uma proposta completamente diferente, num protótipo sem asa traseira. Tanto a Peugeot como a Toyota (das primeiras a apresentarem Hypercars) enfrentaram alterações regulamentares durante o desenvolvimento dos seus protótipos, para acomodar a plataforma LMDh, crucial para uma grelha WEC saudável.
A FIA e a ACO impuseram restrições aos híbridos LMH com tração às quatro rodas, incluindo uma velocidade de ativação mínima para o motor elétrico, diferenciais abertos e barras estabilizadoras ajustáveis. Inicialmente, ambos os fabricantes utilizaram pneus com a mesma largura nos dois eixos (a pensar no aproveitamento do sistema de tração integral). Com a revisão regulamentar, a Toyota mudou para pneus estreitos à frente e largos atrás em 2022, uma alteração que a Peugeot não adotou devido à sua complexidade.
O 9X8 da Peugeot estreou-se com pneus do mesmo tamanho em Monza em 2022. Os Hypercars homologados após 2022, como o 499P da Ferrari, têm de utilizar pneus dianteiros e traseiros de dimensões diferentes. Em 2024, a Peugeot atualizou o 9X8, deslocando a distribuição do peso para trás e reduzindo a dependência aerodinâmica do fundo, com uma nova asa traseira e pneus traseiros mais largos para melhorar a tração e reduzir o desgaste.
O projeto francês não começou da melhor forma, com vários fatores externos a influenciarem os primeiros capítulos da história. As mudanças foram feitas para permitir à marca lutar e ser bem sucedida, como já aconteceu no passado.

O BoP pode matar o WEC?
Ainda assim, a Peugeot continua algo afastada dos lugares da frente e agora, segundo Carlos Tavares, o problema está no BoP. Segundo o chefe do grupo Stellantis, o BoP vai “rebentar” com o WEC se não forem tomadas medidas:
“O WEC é um grande sucesso. O Richard Mille e o Pierre Fillon fizeram um trabalho estupendo. Mas o BoP não funciona e tudo o que foi dito sobre colocar os carros na mesma janela de performance não está a ser respeitado. Basta olhar para os tempos das grelhas de partida. Eu já falei com eles nas 24 horas de Le Mans e avisei que o WEC podia rebentar outra vez. E não temos interesse em campeonato do mundo de advogados.
Os nossos engenheiros fazem cálculos, o nosso poderio de engenharia é superior ao da FIA e estamos em constante desacordo com eles. Nós queremos que o WEC funcione, mas não podemos criar um cancro dentro de um grupo de amigos que querem que o campeonato tenha sucesso. E o cancro é a negociação permanente sobre o BoP”.
Solução para o WEC? Seguir os passos da F1 e da Fórmula E
As discussões sobre o BoP são, infelizmente, já uma norma nas competições do WEC. E essa discussão distrai os fãs do que realmente interessa: os carros e os pilotos. Não podemos ter os fãs a questionarem as vitórias, porque o sistema que foi pensado para que todos estejam ao mesmo nível é constantemente questionado. Para Carlos Tavares, a solução é simples e já é usada no mundo dos monolugares. Um Limite Orçamental:
” Há uma solução muito simples. Temos de tomar o caminho da F1 e da Fórmula E e implementar um Limite Orçamental. É a única forma de salvar o campeonato. Com o ‘Cost Cap’, todos têm o mesmo dinheiro e quem utilizar o dinheiro de forma mais inteligente ganha. Antes que aquilo rebente, acho que devem tomar este caminho e foi o que lhes disse em Le Mans”.

BoP não retira da Peugeot da competição… ainda!
O compromisso da Peugeot no WEC parece sólido e para durar. No entanto, as palavras de Tavares podem indicar que este compromisso pode ir enfraquecendo, se não forem tomadas medidas:
“Este ano, em Le Mans, tivemos nove carros na mesma volta! E sempre em ritmo de sprint. É estupendo! Não me lembro de tal na minha vida de desportista. Os nossos carros tiveram zero problemas, andaram sempre a fundo. Tivemos dois ou três erros com trocas de pneus, nada de mais. Mas os nossos mecânicos e engenheiros vão acabar por ficar desiludidos com esta situação. Aliás, quando se anda pelo paddock, nota-se que a mente das pessoas está poluída pela questão do BoP. Quando os engenheiros pensam que não vale a pena fazer mais nada, pois o BoP vai acabar por matar o desenvolvimento feito, o esforço deixa de existir”.
Oiça as declarações de Carlos Tavares:









