A FIA) e a gestão da Fórmula 2 apresentaram os detalhes do novo monolugar que entrará em pista em 2027. O diretor de monolugares da FIA, Nikolas Tombazis, e o diretor executivo da F2, Bruno Michel, detalharam em conferência de imprensa as principais novidades técnicas e desportivas do projeto, que visa estreitar a proximidade com a Fórmula 1.
Bruno Michel sublinhou que a missão principal da categoria intermédia continua a ser a preparação rigorosa dos pilotos rumo ao topo do desporto automóvel, garantindo que o carro e os pneus — fornecidos pelo mesmo parceiro da Fórmula 1 — reflitam o mais fielmente possível a realidade da classe rainha. Fique com o essencial do que disseram na conferência de imprensa.
Bruno, fale-nos sobre os objetivos por trás deste novo carro…
Bruno Michel: “A missão da Fórmula 2 sempre foi preparar os pilotos para a Fórmula 1 e garantir que, quando chegam à Fórmula 1, estão prontos. Portanto, claro que o carro desempenha um papel muito importante nesta preparação. E o que tentamos fazer sempre — dado que normalmente construímos um carro novo a cada três anos, seja um carro completamente novo ou uma atualização do carro existente — é aproximar o o máximo possível daquilo que é a Fórmula 1 nessa exata fase, para assegurar que os pilotos ficam prontos quando saltam para a Fórmula 1. E isso não se aplica apenas ao carro, mas também aos pneus, uma vez que utilizamos o mesmo fornecedor, o mesmo parceiro da Fórmula 1, além de muitos outros aspetos do carro. Mas tentamos garantir que os pilotos ficam o mais preparados possível.”
Nikolas, tecnicamente, quão diferente é o carro de 2027?
Nikolas Tombazis: “Este carro representa, na verdade, uma atualização significativa em relação ao modelo anterior. Portanto, sem responder diretamente à sua pergunta, existem muitas semelhanças com o anterior, bastantes pontos em comum por razões de custos e para manter a sustentabilidade financeira do desporto, que é sempre uma prioridade. Dito isto, há alterações muito significativas na aerodinâmica. Como o Bruno disse, houve o desejo de alinhar muito mais com a filosofia da Fórmula 1, pelo que toda a aerodinâmica é nova, e penso que isso garantirá uma capacidade ainda melhor de seguir de perto outros carros, não que isso seja um problema na Fórmula 2 em geral. E diria que também há o motor de arranque, que foi adicionado. Essa é, novamente, outra característica importante para evitar, do ponto de vista desportivo, ter carros imobilizados na pista e interromper o fluxo das corridas devido a isso. O carro tem efetivamente mais força descendente (downforce). Penso que são cerca de 25 pontos de downforce e um pouco mais de resistência aerodinâmica (drag), três pontos. Por isso, é fundamentalmente um carro muito mais eficiente a nível dinâmico, além de possuir melhores características para seguir outros carros e ser mais semelhante à Fórmula 1, constituindo assim um melhor campo de testes para a aprendizagem dos pilotos que sobem na hierarquia para chegar à Fórmula 1.”
Quais são os planos para o lançamento do novo carro? Quando começarão as equipas a receber o carro?
BM: “Continuamos a testar o carro. Vamos levar o carro para o túnel de vento porque o que também pretendemos é centralizar toda a informação do túnel de vento a 100% para a transmitir às equipas, para que obtenham todos os dados sem terem de o fazer por iniciativa própria. E depois a ideia é que o primeiro carro seja entregue às equipas no final do ano, e o segundo carro algures no final de janeiro. E depois iremos testar com 22 carros, porque é sempre diferente quando realizamos um teste com um só carro e quando fazemos um teste com 22 carros. E nessa altura os carros estarão prontos para seguir viagem para a primeira corrida da próxima época.”
(Jon Noble – The Race) Para o Nikolas: falou sobre a adoção de algumas filosofias da Fórmula 1. Quais são os fundamentos-chave da Fórmula 1 que foram transpostos para a vossa compreensão da aerodinâmica? E existem também elementos da plataforma que possam fluir no sentido inverso, ou seja, a compreensão de aspetos da F2 influenciar regras no futuro?
NT: “Diria que se trata essencialmente de um fluxo da Fórmula 1 para a Fórmula 2. A Fórmula 2 tem uma vantagem em comparação com a Fórmula 1: as equipas não desenvolvem os carros e, portanto, não conseguem encontrar quaisquer, digamos, lacunas (loopholes) ou dispositivos aerodinâmicos que possam eventualmente comprometer a filosofia — embora na Fórmula 1 tenhamos tido imenso cuidado para tentar minimizar isso o máximo possível, e creio que o feedback tem sido bastante positivo. Fundamentalmente, as principais alterações dizem respeito à forma como o fluxo turbulento (wake) das rodas dianteiras é gerido. Aquele pequeno defletor em frente ao sidepod ajuda a manter o fluxo da roda dianteira bastante próximo da parte interior do carro e a passar por cima do fundo plano, entre o painel central (coke panel) e a roda traseira. Garantir isto significa que o fluxo que vai para o carro de trás é muito mais limpo, porque o fluxo ascendente (upwash) da asa traseira desloca todo o ar sujo um pouco mais para cima, e o que permanece junto ao solo para o carro que segue atrás é, na verdade, ar bastante limpo vindo de fora. Portanto, essa é a principal filosofia que foi adotada. Tudo isto, claro, trabalha em conjunto com uma nova placa terminal da asa dianteira, que tem de acompanhar essa gestão do fluxo da roda. Por isso, diria que essa é a parte fundamental. E depois, naturalmente, o difusor é semelhante. A asa traseira não tem um efeito enorme no desempenho em seguimento, mas é um pouco mais simples de ajustar com esse tipo de filosofia, o que também se deve a razões de custos. Na verdade, essa foi também uma das razões na Fórmula 1.”
P: (Josh Suttill – The Race) Nikolas, é evidente que a Fórmula 1 abandonou o DRS e avançou para a aerodinâmica ativa. Isso foi tido em conta para alterar e evoluir essa vertente na Fórmula 2, e qual foi a motivação para a manter?
NT: “Na verdade, não. Na Fórmula 1, isso aconteceu devido às características energéticas dos motores elétricos em relação ao motor de combustão interna (ICE). Isso não é um problema na Fórmula 2. Na Fórmula 2, toda a potência provém do motor de combustão, pelo que não havia necessidade de ter uma aerodinâmica móvel como na Fórmula 1. Em vez disso, o DRS continua a ser um princípio muito válido, um conceito válido para utilizar na Fórmula 2.”
P: (Carlo Platella – FormulaPassion.it) Pergunta para o Sr. Tombazis. Existem melhorias ao nível da segurança, por exemplo, nas estruturas ou nos parâmetros de segurança deste carro?
NT: “Bem, este carro — digamos que o primo ou o irmão mais velho, por assim dizer — foi introduzido em 2024 de acordo com os parâmetros de segurança da Fórmula 1 à data. A Fórmula 1 evoluiu um pouco para 2026, mas não de forma colossal. A prioridade aqui foi manter o mesmo chassis por razões de custos, para garantir a sustentabilidade financeira do desporto, o que constitui uma característica e um conceito muito importantes para a FIA e para o Bruno: manter os custos o mais controlados possível. Assim, tomou-se a decisão de conservar o mesmo chassis. Consequentemente, não há melhorias de segurança maiores. As próximas melhorias de segurança na Fórmula 2 ocorrerão em 2030. Penso que prefiro ver o copo meio cheio do que meio vazio, pois considero que os padrões de segurança já são extremamente bons na Fórmula 2. Ainda assim, haverá provavelmente uma atualização na próxima geração.”
P: (Alejandro Alonso Lopez – DiarioMotor.com) Pergunta para o Nicolas. É evidente que existe uma atualização significativa na asa dianteira e na asa traseira. Houve também melhorias noutras partes menos visíveis, como o fundo plano? Quanto é que o difusor mudou?
NT: “Não, o carro inteiro mudou a nível aerodinâmico. Na aerodinâmica moderna de monolugares, todos estes componentes interagem entre si. Não se pode simplesmente mudar a asa dianteira e deixar tudo o resto inalterado. Portanto, o fundo plano mudou, tal como o carro todo, basicamente. Mas por favor também, sabem, precisam de se lembrar do meu amigo Bruno aqui presente.”
P: (Valentina Peña – Diario AS) Esta pergunta destina-se um pouco a ambos, mas habitualmente, quando há alterações regulamentares, surge a oportunidade para diferentes equipas chegarem à frente da tabela. Recentemente, temos visto a Campos e a Invicta provavelmente como as equipas mais fortes da Fórmula 2. Quão confiantes estão de que estas alterações na dinâmica permitem que outras equipas se aproximem delas?
BM: “Bem, é um aspeto bastante interessante porque é verdade que, ao longo dos últimos anos, as equipas que se estavam a dar bem com o carro anterior talvez tenham tido algumas dificuldades, e há novas equipas a emergir e a alcançar melhores resultados. É muito difícil prever. O que é verdade é que, quando introduzimos um carro novo, sabemos que vai haver uma alteração na ordem das equipas, com toda a certeza. Naturalmente, os pilotos também fazem uma diferença enorme, pelo que não se deve apenas às equipas. E talvez, quando olhamos para o que a Campos e a Invicta têm feito, elas tenham tido pilotos muito fortes nos últimos dois ou três anos também, o que faz diferença. Mas sim, a ideia ao introduzir um carro novo é sempre fazer com que os engenheiros trabalhem um pouco mais e não fiquem, sabem, acomodados ao que têm vindo a fazer nos últimos dois ou três anos. Portanto, vai ser interessante e vamos assistir a isso, tenho a certeza.”
P: Nikolas, qual a sua opinião? Está à espera de uma remodelação na ordem da grelha?
NT: “Sim, concordo plenamente com o que o Bruno disse. Estaria à espera de alguma alteração na ordem. Naturalmente, na Fórmula 2 as margens são muito mais reduzidas, a margem para variações é menor, e compreender a plataforma do carro é o que dá a vantagem a algumas equipas em comparação com outras. Por isso, embora existam dados comuns — como o Bruno disse, por exemplo, os dados do túnel de vento são enviados para todas as equipas —, quem interpretar esses dados da melhor maneira e otimizar a afinação do carro terá um papel muito importante para o desempenho. E além disso, claro, para ter uma corrida competitiva, é preciso acertar em muitas coisas — a nível operacional, temperaturas dos pneus, muitos outros pormenores —, e quem compreender melhor todos estes pequenos detalhes terá efetivamente o melhor pacote.”
P: (Jon Noble – The Race) Para o Nikolas: o design da asa traseira com DRS do carro atual era bastante único quando surgiu pela primeira vez. O design é diferente agora para esta versão e, de facto, parece não se estender por toda a secção da aba traseira. Qual é a lógica por trás deste conceito e porque é que representa um passo diferente do que vimos anteriormente?
NT: “A principal razão para a adoção do novo sistema foi, basicamente, alinhar o aspeto geral com o carro da F1, diria eu. A eficácia do DRS, ou seja, quanta redução extra de drag se obtém e que salto de velocidade se consegue alcançar, melhorou ligeiramente com este novo design.”
P: (Josh Suttill – The Race) Bruno, pode dizer-nos qual é o calendário para a seleção da nova equipa no que diz respeito à equipa de Lando Norris, e o quão meritório é para o campeonato contar com esse interesse?
BM: “Bem, realizamos um processo de seleção de novas equipas a cada três anos, que é exatamente a fase em que nos encontramos agora que temos um carro novo. Estamos em plena fase desse processo de seleção neste momento, pelo que apresentaremos uma lista de equipas dentro de um mês, diria eu, um mês e meio. Portanto, será muito em breve. E claro, a equipa de Lando Norris apresentou uma candidatura a uma licença, e estamos a analisá-la da mesma forma que analisamos qualquer outro pedido. Há muitas equipas que gostariam de se juntar à Fórmula 2 neste momento. É um campeonato muito saudável, mas não vamos aumentar o número de equipas porque isso é algo bastante importante para a saúde financeira das mesmas. E também, sabem, penso que 22 pilotos na F2 é um número perfeitamente adequado quando temos 22 pilotos na F1, sabendo que nalguns anos haverá lugares disponíveis na F1, enquanto noutros anos será mais difícil. Por isso, precisamos de ser também bastante cautelosos quanto a isso. Manteremos, portanto, o mesmo número de equipas, e os resultados desta seleção serão divulgados muito em breve.”
P: (Cliona Sheerin – FeederSeries.net) Uma pergunta para o Nikolas. Quanta colaboração com as próprias equipas de F2 esteve envolvida neste design?
NT: “A principal colaboração decorre com a equipa do Bruno na FML e com a Dallara, diria eu. É evidente que as equipas de Fórmula 2 nos dão feedback e nós levamo-lo em consideração, mas a colaboração principal é com a equipa real que trabalha para construir este carro e, naturalmente, com o promotor.”









