Ricky Taylor, colega de equipa de Filipe Albuquerque no IMSA, ambos representando a Wayne Taylor Racing, falou da relação com português e das diferenças entre ambos que os tornam tão complementares e, por isso, mais fortes.
Os fãs portugueses recordam ainda aquele toque de Ricky Taylor na traseira do Cadillac de Filipe Albuquerque, a sete minutos do fim da edição 2017 das 24h de Daytona, que tirou o português da liderança da corrida, tão perto do fim. Não será mentira afirmar que o nome Taylor deixou de ser apreciado por estes lados. Mas quando em 2021 o piloto de Coimbra passou a ser colega de Ricky, criou-se uma ligação que poucos esperavam ser tão forte.
Na entrevista que deu à RACER após a vitória da Wayne Taylor Racing nas 6 Horas de Road America — a primeira da equipa com o Cadillac V-Series.R —, Ricky Taylor dedicou boa parte da conversa à sua parceria com Filipe Albuquerque, companheiro de equipa há já seis temporadas.
A vitória que devolveu a normalidade
Questionado sobre o que representou a vitória em Road America depois de um início de temporada atormentado, Taylor começou por situar o resultado no contexto de dois anos difíceis para a equipa:
“A parte mais bonita das 6 Horas de Road America foi sentir que estava tudo de volta ao normal: calmo, controlado, todos a funcionar em pleno. Não pareceu cair-nos ao colo — não tivemos nenhuma penalização, o que já diz muito sobre esse fim de semana — e também tivemos um pouco de sorte com um safety car que nos facilitou a vida. Mas, no geral, o carro era rápido, a equipa executou bem e não estragámos nada.”
Mais adiante, ao ser questionado sobre as decisões arriscadas que a equipa foi tomando ao longo da temporada e sobre a confiança que vinham a construir com a Cadillac e a Action Express, Taylor voltou a Road America para explicar como essa vitória aliviou meses de tensão:
“Temos ótimos companheiros na Action Express — têm sido incrivelmente bem-sucedidos, e a Cadillac tem sido uma parceira fantástica na construção desta cultura de ‘uma só equipa’. Recebemos tudo deles, e por vezes nem confiamos em nós próprios para aplicar isso ao nosso carro. Parece de loucos, dados os resultados que eles têm tido, mas simplesmente não conseguíamos encontrar o nosso caminho. A parte boa de Road America foi que tivemos dois carros muito diferentes entre o 40 e o 10 — ambos rápidos, o 40 talvez até um pouco mais forte do que nós — e tudo resultou. Espero que isso baixe a tensão na equipa. Sei que o Filipe e eu estávamos a torturar-nos, todos a culparem-se a si próprios pela falta de resultados. Nunca analisámos tantos dados e vídeo como agora, à procura de algo. A parte boa de Road America foi sentir que estávamos a conduzir normalmente e a performance estava lá. Isso dá-nos confiança: não estamos loucos, não nos esquecemos de conduzir, e conseguimos fazer isto.”

Duas abordagens, uma só direção
Quando a conversa se voltou diretamente para a natureza da parceria com Albuquerque, Taylor deu uma resposta detalhada, explicando por que razão a diferença de estilos entre os dois é, na sua visão, uma vantagem competitiva:
“O Filipe e eu somos muito diferentes na abordagem e no estilo de condução. Há duas escolas de pensamento nas corridas de resistência: alguns preferem dois pilotos parecidos, para não discutirem e para desenvolverem um carro perfeito para ambos. Outra escola de pensamento diz que se quer dois pilotos diferentes, porque a corrida e a pista vão evoluir e o carro nunca vai estar na ‘janela’ ideal durante 24 horas seguidas. Acho que ter dois pilotos diferentes, honestos, humildes e confortáveis um com o outro, é algo muito poderoso. Já aconteceu duas ou três vezes — nos dois sentidos — em que o Filipe ou eu dissemos ‘quero que seja o outro a terminar a corrida, porque não sinto que seja o meu dia, não estou confortável na janela em que o carro está’ — e pomos o outro no carro, sabendo que vai fazer o trabalho. Essa relação tem sido muito poderosa para fazer avançar a equipa e deixar o ego de lado.
Em termos de trabalho, quando ele chegou à equipa, a primeira coisa que disse foi para desligarmos todo o controlo de tração (TC). Tínhamos o TC mais complicado de sempre no DPI da Acura, distribuído por cinco botões diferentes. E ele disse simplesmente: ‘Desliguem tudo.’ Todos pensámos: ‘Quem é este tipo a dizer-nos que estamos errados, com todo este sistema tão detalhado e aperfeiçoado que desenvolvemos?’ Duas ou três corridas depois, estávamos todos do lado dele — muito mais simplificado, a conduzir só com os pés, uma forma completamente diferente de pensar as coisas. Esse pequeno exemplo aplica-se a outras áreas também, em que confiamos um no outro pelas diferentes experiências e preferências que temos. Não temos um ‘driver coach’ na equipa, mas o bom é que, entre nós os quatro pilotos, todos temos acesso a dados e vídeo entre fins de semana — a maioria das equipas não deixa os pilotos levar esses dados para casa, mas nós temos. Somos treinadores um do outro: sentamo-nos cada um no seu canto, olhamos para os dados mesmo em casa, e estamos constantemente a falar sobre o que vemos e o que podemos melhorar. Acontece muitas vezes, especialmente quando estamos com dificuldades, encontrar algo nos dados e dizer ‘temos de tentar isto no próximo fim de semana’. A maior parte das vezes não resulta, mas testamos coisas, e algumas funcionam.”

De rivais em pista a companheiros de equipa
Ao ser convidado a comparar a relação com Albuquerque com as que teve anteriormente com o irmão Jordan e com Hélio Castroneves, Taylor relembrou o tal incidente que ele Albuquerque tinham protagonizado incidentes em pista, e Taylor admite que isso pesou na decisão de o contratar:
“Com o Filipe, obviamente chocámos em pista antes — ainda falamos disso de vez em quando. Sempre que a WTR contrata um piloto, os outros pilotos estão muito envolvidos no processo, e é importante que nos entendamos e nos demos bem. Eu queria-o como companheiro e ele estava mesmo no topo da lista, só que pensávamos que não estava disponível. Acho que, no fundo, estava um pouco nervoso, porque havia… não sei, ‘assuntos por resolver’ que nunca tínhamos falado, embora tivéssemos abordado o tema no passado. Foi óbvio, desde o início, que ele é uma pessoa muito genuína e, ao mesmo tempo, um competidor feroz — o que explica por que estávamos tão tensos em pista, e por que é tão bom tê-lo agora do meu lado, na minha equipa. Os três — Jordan, Hélio e Filipe — são semelhantes no sentido em que todos trabalhamos na mesma direção, mas cada fase da minha carreira em que conduzi com cada um deles foi única, e aprendi muito com todos eles.”

A adaptação difícil a um carro diferente
Taylor e Albuquerque apenas há algumas semanas venceram a primeira corrida com o Cadillac V-Series.R. Numa dupla habituada a vencer de forma regular e a lutar por títulos, é algo raro e por vezes difícil de entender. A WTR vinha de um período de sucesso com a Acura, mas a parceria com a Cadillac revelou-se difícil. O motivo? Um carro completamente diferente, apesar de ser construído para a mesma regulamentação. A WTR veio do Acura ARX-06 e encontrou um mundo diferente com o V-Series.R:
“Acho que não nos apercebemos da diferença em abordagem que pode haver de um fabricante de GTP para outro. Há um processo de trabalho totalmente diferente, uma estrutura totalmente diferente. Há tantas pessoas envolvidas nestes programas. Toda a filosofia é diferente. Tivemos de recalibrar a forma como pensamos sobre isto ou aquilo, tivemos de esvaziar a cabeça e esquecer o conhecimento que trazíamos.
Vínhamos de um carro muito forte, o Acura, e achávamos que podíamos contribuir muito para a Cadillac. Essa era a nossa abordagem: íamos ajudar muito estes tipos, fazer com que se destacassem bastante. Acabou por ser exatamente o contrário. E isso só aconteceu mais tarde porque acho que as pessoas são, em geral, teimosas. Só sabemos o que sabemos. Não conhecemos todas as dificuldades por que eles passaram e a forma como resolveram os problemas.E por causa da nossa própria teimosia, tivemos de dar um passo atrás e abrir-nos a uma nova abordagem, porque eles sabem definitivamente o que estão a fazer. A Action Express está a ter uma excelente época este ano e acho que, finalmente, esperamos estar a chegar lá”.

Depois do primeiro sucesso, todos esperam que a caminhada de Ricky e Filipe siga diretamente para os sucessos que todos desejamos. Pelo caminho, vamos descobrindo pormenores sobre a relação tão peculiar entre dois pilotos de resistência, colegas de equipa. Uma espécie de casamento, talvez apenas comparável com o que vivem os pilotos e navegadores de ralis. Uma relação assente na confiança no foco num objetivo comum, onde a partilha tem de ser constante. Taylor e Albuquerque fazem uma excelente dupla porque são diferentes, mas percebemos agora melhor porque essa diferença é mais um trunfo.










