ELMS: José Cautela vai competir em LMP3, com a Rinaldi Racing
Depois do regresso às pistas em 2025, 2026 traz uma grande novidade para José Cautela. O ELMS é o destino, com lugar assegurado na Rinaldi Racing, na categoria LMP3. É um sonho tornado realidade para um piloto que, mesmo com aparições apenas pontuais, nunca abandonou a sua paixão.
Formado nos karts, onde dividiu grelhas com nomes que hoje brilham na Fórmula 1, no WEC ou no IMSA, o lisboeta parecia ter visto o sonho interrompido em 2008, quando a crise económica fechou portas e o empurrou para a Medicina Dentária. Durante anos, Cautela ficou à margem dos grandes palcos, fazendo apenas aparições esporádicas, para se mostrar e para voltar a um ambiente onde se sente em casa.
Em 2025, deu-se o regresso à competição a tempo inteiro, com presença no Supecars Enduance. O que começou como um retorno “para ver como corre” transforma‑se numa época com vitórias, pódios e um vice‑título que o recolocam definitivamente no radar. O momento alto chega em Portimão, ao volante de um LMP3 da Inter Europol, numa vitória inesperada na ronda portuguesa da Michelin Cup, que abriu portas até agora fechadas.
Em 2026, o piloto do Sporting Clube de Portugal prepara‑se para aquilo que ele próprio descreve como “um sonho que parecia impossível”: uma época completa no European Le Mans Series.
Em conversa com o AutoSport, José Cautela fez uma breve retrospetiva da sua carreira e não escondeu o entusiasmo de chegar a um palco internacional, onde já tinha competido contra os melhores, no tempo dos karts.

Como resumes o teu percurso no automobilismo até agora?
Comecei nos karts em 2003, fiz uma carreira forte até 2008, maioritariamente em provas internacionais, e depois fui obrigado a parar por falta de apoios, seguindo o caminho da Medicina Dentária. Nunca deixei, porém, de fazer uma corrida ou outra “para não perder a mão” e manter vivo o vício das corridas. Nos karts, comecei por correr em Portugal, mas muito cedo entrei na Couceiro Junior Team, com o Nuno e o Pedro Couceiro, e isso permitiu-me dar o salto para a Europa. Fiz Europeus, Mundiais e grandes provas internacionais, sempre com bons resultados.
O que é que te faz parar em 2008?
Foi uma fase complicada: a crise económica rebentou nessa altura e as empresas, que podiam ser potenciais patrocinadores, cortaram quase tudo o que fosse investimento em corridas. Eu compreendi perfeitamente, mas isso obrigou-me a parar. Vindo de uma família de dentistas, acabei por seguir Medicina Dentária e integrar a clínica do meu pai, em Lisboa.

Apesar dessa paragem, nunca “desapareces” completamente das pistas. Que tipo de programas foste fazendo?
Fui fazendo uma corrida ou outra, sempre de forma muito esporádica. Corri no TCR Portugal com o Armando Parente, fiz uma prova em Portimão com o Manuel Gião e a Speedy Motorsport, e mantive-me ligado ao meio, mas sem nada verdadeiramente estruturado. Era mais um piloto “a tempo parcial”, a matar saudades e a mostrar que ainda tinha velocidade.
2025 marca o teu verdadeiro regresso, com o McLaren Artura GT4. Como nasce esse programa?
Surge a oportunidade na Supercars Endurance com a McLaren Barcelona – SMC Motorsport e, antes de assinar, fiz um teste em Valência. Senti-me imediatamente em casa com o GT: encaixa bem no meu estilo de condução. O teste correu muito bem, assinámos para a época e formei dupla com o Lourenço Monteiro.
O início, no entanto, não foi fácil…
Nada fácil. Tivemos problemas no carro e perdíamos cerca de 12 km/h em velocidade de ponta, o que nos deixava numa posição difícil. As duas primeiras corridas foram muito complicadas, mas a equipa encontrou as soluções para os problemas que enfrentávamos. Passámos a ter um carro capaz de ganhar e isso mudou o campeonato.
E o final da época acaba por ser impressionante.
Fechámos o ano com duas vitórias e dois pódios nas últimas quatro corridas, o que nos permitiu ser vice‑campeões no Iberian Supercars [divisão Pro-Bronze], a apenas um ponto do título. Se o início não tivesse sido tão difícil, o desfecho podia ter sido outro, mas, para mim, foi um “restart” perfeito às corridas. Deu‑me confiança e mostrou que ainda tenho andamento para lutar na frente.
No meio dessa época aparece uma oportunidade nos protótipos, com a Inter Europol. Foi o momento‑chave?
Sem dúvida. Fiz uma corrida da Michelin Cup em Portugal com a Inter Europol e foi provavelmente a melhor experiência da minha vida em termos de motorsport. Eles são uma estrutura de topo, extremamente profissional. É literalmente “outra liga” e eu senti-me muito bem com o carro. Tivemos tempo de pista, adaptei-me rápido e ganhámos a corrida – nem nos meus melhores sonhos achava que isso podia acontecer.
Essa vitória é, de certa forma, a porta de entrada para o European Le Mans Series?
Foi, pelo menos, a corrida que fez com que as pessoas do paddock do ELMS passassem a saber quem eu era. Ajudou a catapultar tudo: se não tivesse feito essa prova em Portimão, provavelmente hoje não estaria a preparar-me para uma época completa no ELMS.
Como nasce concretamente o programa com a Rinaldi Racing no ELMS?
A proposta surge através do Duarte Félix da Costa e da Synergy Performance. Ele tratou de todo o processo, falou com a equipa e construiu este “deal” para eu correr em LMP3 com a Rinaldi Racing. E quando ficou tudo confirmado nem queria acreditar! Chorei ao telefone. Honestamente, não achava que fosse possível. Na minha cabeça, o cenário mais otimista era fazer uma ou outra corrida de GT; um programa completo no ELMS parecia-me inalcançável. Na prova de Portimão, vi o nível dos pilotos e das equipas do ELMS e, se uma parte de mim queria estar ali, tinha de ser realista e entender que a probabilidade de o conseguir era diminuta. Quando a confirmação chega, é como um miúdo a quem dão um gelado: pura felicidade.

Dizes muitas vezes que só estar na grelha já é uma vitória. Mas o objetivo é ser “mais um” ou lutar por títulos?
Só o facto de estar lá é, para mim, uma vitória enorme, porque vou voltar a correr com muitos pilotos com quem cresci nos karts, alguns que chegaram à Fórmula 1, ao WEC, a Le Mans ou ao IMSA. Mas não quero ser apenas mais um número na grelha. Já sonhei alto e consegui chegar aqui; agora o objetivo é tentar ganhar o campeonato. Posso estar a sonhar outra vez, mas é esse o foco.
Olhando para trás: alguma vez desististe verdadeiramente do motorsport?
Nunca. Há aquela frase do “nunca desistas dos teus sonhos” que soa muito bem nos filmes da Netflix, mas a realidade é que, no automobilismo, muitas vezes não depende só da nossa vontade. Conheci pilotos com talento para chegar à Fórmula 1 que ficaram pelo caminho por falta de apoios. Eu sabia disso, tentei ser racional, construir a minha carreira na Medicina Dentária, mas nunca disse “acabou”. Ia fazendo corridas aqui e ali, com poucos apoios, sempre com esta paixão bem viva. Desde miúdo que faço corridas e aos comandos de um automóvel, sou verdadeiramente feliz e por isso a vontade de regressar esteve sempre presente.
Como é reencontrar agora, no paddock, gente com quem dividiste grelhas de karting?
É muito especial. Tive uma fase em que olhava para a grelha de Fórmula 1 e percebia que tinha corrido com metade deles. Hoje ainda falo com alguns pelas redes sociais e sinto orgulho por ter corrido com eles. Quando anunciei o ELMS, muitos deles mandaram mensagem a dizer que eu estava finalmente no sítio onde merecia estar. Isso deixa-me genuinamente feliz.
Conciliar uma clínica dentária com um programa internacional de resistência não é tarefa simples.
Sei que vai ser um enorme desafio conciliar tudo, mas também tenho uma paixão enorme pela medicina dentária. Gosto mesmo do meu trabalho diário. Vou encarar isto como se tivesse dois empregos e tentar ser o melhor possível em ambos. Sei que vai ser exigente, mas estou a viver um sonho e quero aproveitar ao máximo esta oportunidade.
Que peso tem o Sporting CP nesta fase da tua carreira?
É enorme. Sou sportinguista ferrenho, a minha família também, e a ligação começou até de forma natural: consegui o contacto do diretor do Sporting para as modalidades, apresentei o projeto e o clube percebeu o potencial. O Sporting não está habituado a competir no automobilismo, mas é talvez o melhor clube do mundo em modalidades e o automobilismo é mais um passo nesse ecletismo. É uma nova realidade para mim e para o clube, tenho tido todo o apoio e é um orgulho tremendo representar o Sporting.
O apoio é mais institucional e de visibilidade, ou também concreto a nível de recursos?
É muito concreto. Em termos de visibilidade, ajudam-me imenso e graças ao Sporting abriram-se portas que foram muito importantes para montar este projeto. Depois há o apoio em preparação física, fisioterapia, imagem, tudo o que eu precisar: ligo para o Sporting e eles estão lá. Tenho um contrato de três anos e posso dizer que estou onde estou também por causa deles.
Este salto do GT4 para o ELMS em apenas duas épocas não é comum. Sentes que o Iberian Supercars foi uma rampa de lançamento?
Claramente. É um campeonato com muito potencial: grelhas cheias, carros, equipas e pilotos com muita qualidade, fins‑de‑semana intensos. É verdade que ainda há arestas a limar, mas, em termos de rodagem e exposição, é uma plataforma excelente. O Bernardo Sousa fez GT4 e foi para o WEC, eu fiz GT4 e vou para o ELMS; acho que isso diz tudo sobre o papel que o campeonato pode ter.
Quando olhas para 2026, o que é que te vem primeiro à cabeça: responsabilidade ou sonho?
As duas coisas. Por um lado, sinto uma responsabilidade enorme de estar à altura de quem está na grelha comigo e de todos os que me ajudaram a chegar aqui. Por outro, continuo a olhar para isto como um sonho de criança que se tornou realidade. E, enquanto conseguir conciliar a clínica com o capacete, vou fazer tudo para que este sonho dure o máximo de tempo possível.
José Cautela inicia o seu sonho em breve, com o ELMS a ser agora o palco para o piloto que finalmente chega onde sonhou. O desafio é grande, mas não supera o entusiasmo. A primeira amostra na Michelin Cup foi impressionante e a época nas competições ibéricas serviu de base para este salto que se espera seja bem-sucedido.
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