José Megre: 10 anos de Saudade


José Megre deixou-nos há 10 anos. Recordemo-lo.
Inspirou-se no Cavaleiro Andante, em Júlio Verne e principalmente nos livros de Tintim. Antigo soldado, piloto frustrado, fez-se viajante compulsivo. Deu nove voltas ao mundo e cruzou 193 países, fintando os perigos em mais de 50 anos de expedições. “Algumas vezes a sorte protege alguns audazes”, era a sua divisa preferida

“A Terra é grande. Tem imenso para ver e viver. Precisava de estar cá 200 ou 300 anos. Como isso não é possível, terei de me ficar por aqui. Mas já foi muito bom”.



A frase, como que premonitória, é de José Megre e faz parte do prefácio do seu terceiro e último livro. Durante vários meses, o livro teve um título provisório, agora tornado definitivo: “Como Eu Vi Todos os Países do Mundo (Menos Um)”. A razão é simples: Dos 194 países soberanos que visitou, faltou-lhe apenas o Iraque.




A doença
As razões deste livro, explica-as na primeira pessoa: “Porque não tive oportunidade de contar a ninguém muitas das experiências que vivi; porque as edições que fiz dos dois livros anteriores esgotaram rapidamente; e factor decisivo: porque me foi detectada uma doença quase incurável”.
Soube-o quando uma constipação lhe pregou a partida de esconder um tumor num dos pulmões, há já quase um ano. Largou o cigarro mas avisou o médico que não ia passar os próximos meses só em tratamento. À nona sessão de quimioterapia, foi do Alasca a S. Francisco e viajou até ao Haiti (o penúltimo país da lista) antes de ser operado para retirar o pulmão doente.

Para José Megre, viajar era realmente “o melhor que se pode fazer na vida; conhecer o nosso planeta e fundamentalmente por terra, de todo-o-terreno”. Aliás, como viajante, o seu objectivo foi não só conhecer todos os países do mundo, “mas sim tentar ver tudo o que havia de interessante e bonito, fazer a maioria dos itinerários. Isso sempre foi o mais importante”.

Mesmo nos últimos anos da sua vida, foi pela terceira vez de carro até ao sul de África, “porque me faltavam alguns troços importantes”. Atravessou pela terceira vez a Europa e a Ásia, do Atlântico ao Pacífico, e foi três vezes à Arábia Saudita, fazendo aí 12 mil quilómetros, “porque achei que este país era único e difícil de ser visto”. Sempre que regressava, dizia: “Cada vez que viajo descubro mais destinos, mais metas”. Que o mundo é imenso.


As primeiras viagens
Tinha 13 anos quando saiu pela primeira vez de Portugal. “Fiquei empolgadíssimo”. Foi com os pais e uns amigos de carro até Espanha: “Galiza, La Toja, La Coruña, Santiago de Compostela, Vigo… . Apontei tudo num diário e diverti-me imenso”. Nascia o fascínio pelas viagens. E também o vício de apontar tudo num ‘log book’.

Seguiu-se Madrid, uma viagem a Paris e depois a chegada a Londres, onde ficaria a viver quase quatro anos a tirar um curso de Engenharia especializada em automóveis. A ideia foi do pai, na esperança de que a Guerra Colonial terminasse e o filho perdesse o sentido de se alistar como voluntário. “Dada a minha loucura pelos automóveis e pelas corridas, ofereceu-me esta oportunidade, à espera que eu amadurecesse e esquecesse a ideia”. Em vão.


Mas Inglaterra serve-lhe de base para viagens pela Europa no pequeno Mini Cooper: “Fiz 14 vezes o percurso entre Lisboa e Londres. E habituei-me, aos poucos, a apreciar Espanha e França”. Mas os anos não foram fáceis: “Não tínhamos dinheiro para aquele nível de vida. Trabalhei em bares, restaurantes e cafés para comer melhor”. Ah! E para conseguir estrear-se na Fórmula 3.


A guerra em Angola
Em Abril de 1964, regressa a Portugal com África na mira. Há muito que já sonhava com ela, através do jornal de banda desenhada ‘Cavaleiro Andante’, onde em miúdo lia as aventuras de Beau Geste e dos seus irmãos na Legião Estrangeira.
Faz a tropa em Mafra e seis meses mais tarde embarca para Angola, onde faz o curso de Comandos na 12ª Companhia, já num cenário de guerra. Adopta o nome de ‘Anjo’, “para contrariar a realidade”, e nos primeiros dias de curso, “arrepende-se de ter nascido”, tal como os colegas. Mas não desiste! “Foram os quatro meses mais violentos da minha vida. Mudei de personalidade, fiquei mais solto, mais seguro. E senti-me realizado. A memória não é bonita, mas é forte”.


Para além da guerra e das matas verdes, Angola marcou ainda a viagem ao primeiro deserto, o Namibe, num Mini Moke, o seu carro pessoal. “Foi o melhor que fiz na vida”. A meio da comissão dá ainda um salto à Rodésia (agora Zimbabwe), Moçambique, Swazlandia e África do Sul.
Em Abril de 1970, desembarca em Lisboa com muitas ideias na cabeça, “especialmente de viagens, e não fazer mais nada do que apreciar o facto de estar vivo”. O pai não aceitou e mandou-o trabalhar numa das propriedades agrícolas da família, na Aldeia das Águas, “que na altura estava um caos, uma ruína total”.


Mas isso permitiu-lhe avançar no objectivo de viajar, ter um ‘hobby’, e continuar a sua decepcionante e frustante carreira de piloto. “No início andava bem, era rápido, e dei provas disso. Só que não podia correr contra ninguém, porque não tinha dinheiro. Em Inglaterra ainda fiz umas coisas, mas tudo muito pendurado”.


A entrada no Entreposto Comercial, emprego que o pai lhe arranjou, abre-lhe a porta à Ásia, em 1970. Casa-se em Janeiro do no ano seguinte com Maria Paulina – mãe dos seus dois filhos, Ricardo e Zé Tomás –, que tinha conhecido no final da comissão em Angola. Por ser hospedeira na TAP, aproveitou para conhecer o mundo, “graças aos bilhetes gratuitos, ou só a pagar 10 por cento”. Como curiosidade, passou a viagem de núpcias a fazer 5 mil quilómetros em Marrocos.


1972 foi o ano de estreia na América. Nesse mesmo ano, viveu quase seis meses no Japão, num curso técnico alargado, e conseguiu finalmente fazer uma série de corridas no então Troféu Datsun, e depois em Grupo 2. “No ano de 1973, terei atingido o meu máximo como piloto e preparador do Datsun 1200”, recorda.

Dois anos depois larga a velocidade e passa para os ralis, aproveitando os carros e o material que a Nissan tinha deixado ao Entreposto após a sua participação no Rali de Portugal de 74. E faz o Rali Vinho do Porto (10º lugar em 1975), o de Marrocos e da Acrópole, todos a contar para o Campeonato do Mundo. É nesse ano que conhece Jean Claude Bertrand, organizador do Abidijan – Nice, onde Thierry Sabine foi buscar a inspiração para o “seu” Paris-Dakar.


Adiou a estreia na prova por alguns anos, aproveitando para fazer um programa semanal para a televisão sobre automóveis. “Isso deu-me credibilidade e notoriedade, e ajudou a conseguir o apoio da UMM para os projectos que lhe propus”.

A loucura do Dakar
E assim se dá a grande viragem na sua vida, no início da década de 80, com a loucura do Dakar: “Fez-me ver países e lugares únicos, até renegar a minha vida profissional”.
Durante uma década, fazer o Dakar e as viagens e expedições no mesmo itinerário foram os grandes objectivos de vida, ano após ano. E o fascínio não parava de aumentar: “Era uma viagem do além”, como escreveu no seu primeiro livro “Paris Dakar” (1985) e que chegou a oferecer a Sabine, em Paris, poucos dias antes de ele perder a vida num acidente de helicóptero.
Por essa altura já era simultaneamente piloto e organizador, “com um sucesso que nunca previ”. A seguir à edição de 82, fundou o Clube Todo o Terreno com Manuel Romão. Depois do Dakar de 84, foi a vez do Clube Aventura nascer com Pedro Vilas Boas. Portalegre e o Transportugal, mas também a Baja 1000 (hoje Transibérico) e as 24 TT foram alguns dos eventos que imaginou e organizou com um sucesso brutal.
Em 1990, já sozinho no Clube Aventura, deu um salto na organização de grandes expedições, ligando Lisboa a Bissau por três vezes, passando pelo coração do Sahara, Argélia, Níger e Mali. “1991 marcou o que de melhor fiz no Sahara, a Patrol Tenéré, que montei com o meu amigo Mano Dayak”, desaparecido em 1996.
Mas 1992 terá sido o auge de toda esta loucura: “Paris-Cabo em Janeiro, 3º Lisboa-Bissau em Fevereiro, Paris-Pequim em Agosto…”. Foi também o ano dos conflitos na Argélia, Níger e Mali que interditaram os grandes itinerários do Dakar, como a passagem pelo deserto de Ténéré. Com a transição para Marrocos e Mauritânia, o fascínio pelo Dakar terminou.

E porque não?
Tinha então 50 anos e conhecia 75 países, o que era bom. Nessa altura, pensou: “O que fazer agora?”. A resposta foi fácil: “Vou para o resto do mundo”.
Tornou-se então um viajante do mundo, abrindo os horizontes para outras paisagens, países e continentes. Só em 1998, aos 56 anos, atingiu os 100 e achou que era altura do seu segundo livro, “30 Anos de Aventura”. Erradamente, voltou a achar que que já não faltava nada para ver, pois entretanto já tinha chegado aos 127 países. Só faltavam 67 quando o livro saiu em 1999. Agora tinha piada “fazê-los todos”, pensou.
De início, não acreditou muito, “mas comecei a andar seguindo um único princípio: não repetir. Mais para o fim, percebi que não tinha tempo para os pormenores. Esses poderão ficar para a próxima encarnação!”.

A maior mágoa
Como piloto, observador e organizador, dedicou quase metade da vida ao Dakar. E, no entanto, não esteve presente quando a prova veio finalmente ao seu país. A custo, evitou sempre falar do assunto. Mas, em livro, reservou algumas linhas para aquela que terá sido, segundo os amigos e colaboradores mais próximos, a maior frustação que levou desta vida. “Foi uma sensação estranha e difícil para mim. Mas já não me interessava ver o Dakar ou ir atrás dele. Sentia-me ‘a mais’”.

A história começa com o desencontro negocial com João Lagos, “quando lhe disse que não vendia a empresa (o Clube Aventura) a dois meses do evento” – em finais de 2004. “Nunca me passou pela cabeça não continuar com a organização do Dakar. Mas ele não entendeu assim e quis cortar a relação comigo. Depois destas conversas finais, muito desagradáveis e quase sempre feitas com os seus representantes, acabei por disponibilizar toda a minha organização para levar o nosso trabalho de oito meses até ao fim, afastando-me eu próprio e totalmente do evento. (…) Foi o preço que paguei por não ter vendido as provas ao João Lagos”.

Troféu Datsun 1200: a menina dos seus olhos

Falhado o projecto com o Troféu Mini, José Megre concretizou em 2002 o sonho de relançar o Troféu Datsun 1200. Qual pedrada no charco, a iniciativa rapidamente se tornou um êxito, chegando a contar na primeira edição com mais de… 100 pilotos inscritos. O espírito essencial passava por manter a ideia original, ou seja, que o Datsun 1200, com cerca de 70 cv de potência, estivesse o mais próximo do modelo de série. “Quis manter o espírito com que eu próprio encarei o troféu de 1971: o automóvel emprestado, no qual se colocava o ‘santo-antónio’ na sexta-feira à tarde, e que me levava por estrada para os circuitos e rampas”, explicava Zé Megre em 2007.

AS ESCOLHAS DE JOSÉ MEGRE

Dizer qual a viagem que mais o marcou não é ingrato, “é ridículo”. Para Megre, há no mínimo 20 países a não perder. “Não se pode generalizar, mas pelo menos 30 por cento de cada país, em média, é de grande interesse”, dizia Megre, que considera, por exemplo, na vertente da arquitectura antiga, o Yemén e o Butão dos países mais preservados. Já o Níger tem das pessoas mais fantásticas e genuínas que conheceu.

Na Europa:

  • Moscovo e St. Peterburgo são sem dúvida a não perder, únicas e muito diferentes de tudo.
  • A Holanda tem uma das mais bonitas capitais e uma das que mais gosto do mundo.

Em África:

  • Marrocos é dos países dos mais bonitos do mundo. Pela imensa variedade de coisas para ver.
  • A Argélia está entre o que há de mais fantástico ao nível de paisagem de deserto, especialmente o sul.
  • Dominado pelo Ténére, o Níger é possivelmente o mais bonito e espectacular dos países desérticos de África.
  • Norte de Akalus, Líbia. O deserto do Sahra em toda a sua extensão. Uma das paisagens mais fortes e sgnificativas do Norte de África.

Na Ásia:

  • Para mim, o maior fascínio da Ásia é a Birmânia.
  • Iémen, porque é um dos países mais bem preservados do mundo.
  • E a grande Índia. Fascinante, única, esmagadora, diferente de tudo. Os templos mais sumptuosos, a miséria mais visível.

Na América:

  • Nova Iorque não é representativa da América. Mas é impressionante e única. Voltei lá várias vezes e nunca deixei de ficar embasbacado.

Na Oceania/Pacífico:

  • Thaiti, Samoa e Palau são, para mim, os mais bonitos e curiosos países do Pacífico.

TESTEMUNHOS

“Poderia contar centenas de histórias, mas prefiro dar a conhecer uma faceta do Zé que muito pouca gente conhece. Era um imitador de pessoas, ruídos e situações fora do normal. Nunca vou esquecê-lo com o nariz para a frente, o queixo para trás, a imitar o seu UMM no Dakar, com o baralho da caixa de transferências misturado com os sons ambientes do local por onde passava”.
Orlando Romana

“Não há nada que melhor defina a sua personalidade como a imagem do que poderia ser uma fábrica de produzir stress e consumi-lo na mesma proporção. O Zé era assim. O “não é possível” não existia. Inconformado por natureza. Único!”.
Pedro Cortez

“Sempre tive o gosto pelas viagens. Mas foi o Zé que me ensinou a ver o mundo. Terão sido mais de 70 os países que visitei com ele. Com graça, dizia que eu tinha a força e genica de um cherpa nepalês.”
Teresa Cupertino de Miranda

“Na altura da minha primeira participação no Dakar, em 1995, pedi para ele receber-me no Entreposto, porque queria uns conselhos sobre a prova. Disse-me então: ‘Ó Sousa, essa tem graça. Nunca foi a África, nunca fez uma prova fora de Portugal, que vai fazer ao Dakar?’ Garantia-me que era um erro, que não tinha hipótese de fazer mais de metade do percurso. Respondi-lhe: ‘Olhe Zé. Hei-de apreender em metade do tempo o que muitos demoraram anos’. Assim foi.”
Carlos Sousa

“O Zé estará sempre comigo nas pequenas coisas que o trazem à minha memória, como ‘descrever’ uma curva, saborear um arroz de pato ou olhar para um chapéu de feltro preto”.
Patrícia Caldeira

“Lembro um episódio no Rali dos Faraós de 1988, em que fiz equipa com o Zé, numa parceria em que ora guiava eu, ora guiava ele. Certo dia, no meio do nada, chegamos a uma duna com 150m de altura, que tínhamos que transpor pelo lado esquerdo. Fiquei aterrado com a possibilidade de falhar, porque ficaríamos sem gasolina. Com a maior calma do mundo, disse-me: ‘Se falharmos, acomodamos-nos. Alguém há-de aparecer!’”.
Carlos Barbosa

CURIOSIDADES

Na escola Ave-Maria, descobre o primeiro jipe da sua vida: um Willys Station Wagon. Era nele que a directora do colégio levava os meninos a casa, quase sempre com o pequeno Zé agarrado às rodas sobressalentes – “o lugar preferido”.

Nunca fez um único amigo verdadeiramente inglês, apesar de ter vivido em Londres quatro anos.

Tem as suas manias: “Um carro, para mim, tem duas portas. Com quatro já é uma carrinha.”

Dizia com orgulho que não tinha a mentalidade dos “caça carimbos” e dos viajantes americanos, “aqueles para quem pôr o pé chega”. Ainda assim, guardou religiosamente 25 passaportes repletos de carimbos.

A sua biblioteca é integralmente feita de livros de viagens

Das 3600 divisões administrativas de todos os países, conheceu quase 1900

Procurou também ir ao maior número de locais Património da Humanidade, classificados pela Unesco: “Consegui cerca de metade – 300”.

O seu ídolo da juventude era Che Guevara. “Para mim os homens, não a política!”

Neto de juizes, o materno da Beira Alta e o paterno da Beira Baixa, só por mero acaso acordou em Lisboa, a 26 de Março de 1942. “Era um sulista com ascendência nortista”, dizia.

O pai, José Tomás, licenciou-se em Direito e trabalhava no Ministério do Ultramar; A mãe, Maria de Belém, havia de pertencer ao Movimento Nacional Feminista (MNF).

Filho único até aos cinco anos, entretinha-se com os Dinky Toys, miniaturas de carros que o pai ia oferecendo, e fazia construções com o Meccano. Guardou todos.

Texto Jorge Rodrigues (in AutoSport 1662, Março 2009)