Hoje, ao revisitarmos o depoimento de Rui Lages sobre o seu primeiro – e único – TAP Rali de Portugal, em 1974, voltamos a uma época em que o rali nacional de referência ainda tinha o nome da companhia aérea e em que a dureza da prova marcava carreiras e memórias. Olhando com o distanciamento de cinco décadas, relermos estas linhas é quase como voltar a entrar no Mazda 818 com que Rui Lages se estreou na grande montra internacional dos ralis em Portugal.
O contexto desse primeiro TAP
Rui Lages recordava que o seu primeiro TAP foi em 1974, ao volante de um Mazda 818, e que acabou por ser também o único, já que no ano seguinte a prova mudou de designação. Até então nunca tinha participado numa competição de dimensão tão grande, embora já acumulasse uma experiência sólida nos dois Campeonatos Nacionais e em duas épocas consecutivas na Promoção.
Na altura, explicava que optara por esse escalão de promoção por razões económicas, porque os ralis eram mais curtos e o troféu incluía também provas de velocidade e de rampas, permitindo-lhe estar presente em vários formatos com custos mais controlados. Era, como sublinhava, uma forma “simpática” de tocar todos os instrumentos, ganhando andamento e rodagem em contextos diferentes.
O Mazda 818 e a desistência em Talhadas
Na Promoção, Lages guiara primeiro um NSU TT e só mais tarde se decidiu a investir numa máquina mais potente, o Mazda 818 que comprou ao agente da marca em Braga, Santos da Cunha. Curiosamente, esse 818 foi estreado logo no TAP, onde ainda conseguiu “dar nas vistas” até ser traído por problemas no semi-eixo traseiro, que viriam a ditar o abandono.
Terminada a prova para si, tomou ali mesmo uma decisão importante: vender o 818 para adquirir um novo Mazda, o RX‑2, que marcaria o passo seguinte da sua carreira. Visto hoje, este momento que então lhe soube a frustração foi, na verdade, um ponto de viragem que ajudou a empurrá-lo para um patamar superior de competitividade.
Amizades de rali e o nascimento do Team Torrauto
Ao reler o texto original, salta à vista também a forma como Lages sublinhava a importância das relações humanas que nasciam à beira da estrada. Nesse TAP de 1974 travou amizade com Carlos Torres, que se estreava ao volante de um Fiat 124 Spyder e dava os primeiros passos numa modalidade onde, anos depois, viria a destacar‑se ao mais alto nível.
Dessa ligação nasceria mais tarde o Team Torrauto, que juntaria Lages, Carlos Torres e ainda Jorge Ortigão, formando uma estrutura privada de referência no panorama nacional. É interessante notar como, ao relermos hoje estas palavras, percebemos que muitos dos projetos competitivos que marcaram os anos seguintes tiveram origem em afinidades nascidas em ralis como este TAP.
A dureza da noite e o abandono
O rali arrancou por volta das 21 horas, nas traseiras do Casino Estoril, e Lages admitia que, à partida, estava longe de imaginar que iria acabar a dormir na estrada entre as 5 e as 9 da manhã, depois de abandonar, à espera que a assistência o fosse buscar. A desistência em Talhadas obrigou piloto e navegador – Abel Santos – a passarem uma noite gelada, numa imagem muito clara da dureza daquela edição: “foi uma noite bem friorenta”.
Até lá, tinham já cumprido as especiais da zona de Sintra, os clássicos Lagoa Azul, Peninha e Sintra, troços então com piso misto terra/asfalto que, após a passagem dos primeiros, se tornavam “intragáveis”, com o carro a bater por todo o lado. Provavelmente devido a um toque mais forte nessa secção, a transmissão do Mazda terá ficado com uma fuga de óleo, degradando‑se até à inevitável desistência por volta das 3 da madrugada, no troço de Talhadas, onde ficaram a aguardar o amanhecer.
Uma prova para duros
Lages sublinhava que, na altura, não havia muita oferta em termos de material de preparação e que faltavam várias proteções hoje comuns em quase todos os carros de ralis, o que tornava qualquer pancada muito mais penalizadora. Nesse cenário, a prova foi dominada pela equipa oficial da Fiat, com os 124 Spyder, enquanto entre os portugueses Francisco Romãozinho voltava a impor‑se, depois de uma luta intensa com Mário Figueiredo, em Datsun 260Z, e com os dois pilotos da Opel, Gomes Pereira e António Martorell.
Ele próprio tinha 24 anos e estava ainda no início da carreira, num contexto em que existia um lote alargado de pilotos capazes de discutir a vitória em qualquer rali. À sua frente via um grupo de 10 a 15 nomes a andar muito forte, num ambiente de rivalidade saudável entre marcas com equipas competitivas e um público que acorria em massa às classificativas, sem que se colocassem, como hoje, problemas tão graves de segurança relacionados com a indisciplina dos espectadores.
O ritmo da época e o olhar de hoje
De noite, as médias a cumprir eram elevadas e o tempo disponível para assistência era mínimo, em contraste com o que se vê atualmente. Lages chegava a dizer que hoje “há tempo a mais” e que, de um modo geral, se eleva sobretudo a pilotagem pura, sem que seja tão necessário gerir o “sofrimento” mecânico do carro ao longo de horas seguidas.
No TAP de 1974, havia muito menos descanso para os pilotos, que tinham de guiar durante longos períodos consecutivos, exigindo‑se uma capacidade física e mental muito maior do que a que, na perspetiva dele, é pedida hoje. Ao relermos esta reflexão, percebemos melhor o contraste entre o rali de resistência de outrora e o formato mais compacto e regulado da atualidade.
Porque vale a pena recordar este texto
Cinquenta e dois anos volvidos sobre o momento em que estas memórias foram originalmente colocadas no papel, voltar ao testemunho de Rui Lages ajuda‑nos a enquadrar não apenas o seu primeiro TAP Rali de Portugal de 1974, mas também uma era inteira do ralis nacional e internacional. O olhar do jornalista e do piloto da época, registado a quente, permite-nos revisitar a dureza das especiais, o espírito de camaradagem e a forma como se construíam carreiras num ambiente de verdadeira resistência.
É precisamente por isso que consideramos este texto um tema tão rico para recordar hoje: porque faz agora 52 anos que foi escrito e, ao relermos as palavras de então, conseguimos perceber melhor como se forjaram as histórias que continuam a alimentar a paixão pelos ralis em Portugal.












