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Entrevista a Alexandre Pinto: “vou ao Dakar para ganhar (…) depois objetivo é chegar aos T1+ e tornar‑me piloto oficial”

José Luis Abreu by José Luis Abreu
18 Dezembro, 2025
in DAKAR, Newsletter, TT, W2RC
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Da revelação ao título mundial: a ascensão meteórica de Alexandre Pinto…

Aos 26 anos, Alexandre Pinto inscreveu o seu nome na história do desporto motorizado português ao tornar-se o primeiro piloto nacional a conquistar um título mundial FIA no todo‑o‑terreno, na categoria SSV.
Natural de Pegões e acompanhado pelo jovem navegador Bernardo Oliveira, de apenas 20 anos, Pinto cimentou a sua caminhada com triunfos no Dakar Rally 2025 e no campeonato.
Determinação, estratégia e maturidade marcaram um percurso de superação que transformou o orgulho nacional numa vitória global. “Foi um sentimento de dever cumprido. Gosto de levar a bandeira de Portugal ao peito e provar que somos pequeninos, mas somos bons”, resume o novo campeão do mundo.

O que significa para ti ser o primeiro campeão português, campeão do mundo FIA de todo‑o‑terreno em SSV?
“É um sentimento de dever cumprido e, sendo o primeiro português, tenho muito orgulho nisso, porque sou daquelas pessoas que gosta de ostentar a bandeira de Portugal. A minha bandeira… E é um orgulho enorme. Acho que é mais um título para Portugal, olhando a todos os desportos que existem, e fazer perceber ao mundo que somos pequeninos, mas somos bons, e fazer perceber a outros atletas portugueses que é possível…”

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Sabe bem levar aquela bandeira e ouvir o hino, não é?
“Sem dúvida…”

Quando olhas para o caminho que fizeste desde a tua estreia no CNTT em 2020 até ao título mundial em 2025, quais foram os momentos chave que realmente mudaram a tua carreira?
“Eu acho que um dos momentos‑chave é mesmo quando entro na Old Friends Rally Team. É uma equipa com ambição de projectos internacionais. Antes, a equipa onde estava era bem conceituada cá em Portugal, mas com foco no campeonato nacional.
Comecei a tentar procurar sair e fazer algumas coisas fora, mas também não ia aparecendo a oportunidade; a equipa onde eu estava não tinha muito essa ambição de projectos internacionais.
Por isso, posso dizer que o momento‑chave passa mesmo por quando me junto à Old Friends Rally Team, em 2023.
Estou muito grato pelo convite que foi feito na altura e cada vez percebo mais que foi a decisão acertada mudar logo na hora e juntar‑me a eles. Tem sido uma caminhada incrível e posso dizer que o momento‑chave é esse.
Quando aparece esse projeto eu já tinha ideias, claro, e ambições internacionais, mas há que ter tudo reunido para fazer um projeto desses, e é quando me junto à Old Friends e começa tudo a ser posto em prática. E aqui estamos hoje…

Em que momento é que percebeste que o sonho de chegar ao topo mundial era realmente possível? Quando é que começaste a sentir isso?
“Eu senti isso logo no Dakar, quando começamos a alcançar pontos por etapas e, após o fim do Dakar, com a vitória no campeonato do mundo, somamos o máximo de pontos possível. Aí, analisando as corridas que iríamos encarar no resto do campeonato, e onde a concorrência seria a mesma que estava no Dakar, começámos a ver que seria possível e começámos a acreditar, claro.
Apesar de o todo‑o‑terreno, como outros desportos ou situações da vida, ter muitos contratempos, não havia certezas nenhumas, mas fomos acreditando e acho que fizemos bem o nosso trabalho, e concretizou‑se.”

Tendo em conta o que te foi acontecendo no Dakar, isso mudou logo a forma como passaste a encarar o resto do campeonato. Passaste a olhar para o que vinha a seguir de forma diferente…
“Sim, comecei muito a olhar para o campeonato. Abordámos sempre as corridas a pensar no campeonato, a fazer as coisas bem feitas a pensar no campeonato, já pelos pontos que tínhamos acumulado e por termos estado sempre na liderança. Fomos sempre tomando decisões consoante o campeonato. E deu frutos!”

Eu acho que há muita gente que não se apercebeu muito bem do feito que alcançaste! Acho ainda que é muito maior do que pode parecer, porque o pelotão dos SSV em 2025, com tantos pilotos e equipas fortes, é muito competitivo. E tu conseguiste fazer a diferença em relação aos teus principais adversários. Conta‑me o que achas desse plantel e dos adversários que tens, e como foram os altos e baixos do campeonato para ti…
“Isso é uma verdade: o nível é muito alto. Os pilotos que estavam a disputar a categoria eram muito fortes. Mais focados no Dakar, porque aí sim estava um plantel muito, muito forte, com pilotos de renome, com Dakar ganhos, com carros já bem fortes, o novo Can‑Am, o novo Polaris, na altura. Eu tive sempre o Can‑Am mais antigo, salvo agora nas últimas duas provas do campeonato, em que já mudei de carro. Portanto, havia ali várias desvantagens.
O Dakar foi um grande feito porque ficámos à frente de grandes pilotos com muita experiência e vários Dakar feitos. Podemos dizer que foi mesmo um feito enorme. No resto do campeonato já não estiveram presentes todos esses pilotos, só alguns, o que facilitou um bocadinho as contas; não houve a mesma concorrência que no Dakar.
Mas, olhando ao Dakar e à concorrência que lá estava, e à dificuldade do resto do campeonato – onde enfrentamos alguns problemas e não conseguimos pontuar em certas corridas, nem perto do que esperávamos, e tivemos de batalhar a dobrar nas outras, acabou por ser um campeonato duro, em que tivemos de batalhar muito e correr atrás dos resultados.”

Como é que se gere mentalmente a transição entre arriscar para ganhar etapas ou levantar o pé e pensar nos pontos do campeonato?
“Isso é uma parte muito complicada. Mencionando, por exemplo, o BP Ultimate Rally‑Raid Portugal, foi muito complicado eu saber que poderia lutar pela corrida, a jogar em casa, com o calor do público. Psicologicamente e emocionalmente foi uma corrida muito dura para mim.
Correu às mil maravilhas, fizemos o trabalho que tínhamos a fazer, pontuamos o máximo para o campeonato e ainda terminamos em segundo atrás do João (Dias). Foi incrível, mas foi muito doloroso etapa a etapa ir sempre naquele ritmo e não acelerar, porque precisava de chegar ao fim e levar os pontos para o campeonato – dia após dia, assim, durante cinco dias de corrida.
Psicologicamente, foi das corridas mais duras do campeonato, porque consegui gerir isto tudo. O meu sangue é feito para andar rápido e para ganhar, e o que está interiorizado é isso mesmo, mas tive de perceber que, na prática, não é só isso: também se tem de andar devagar, gerir para ganhar. E consegui, ao longo de todo o percurso, imprimir um ritmo certinho, não tivemos problemas e consegui andar ali só para pontuar, digamos..”

Houve provas em que geriste, mas noutras também foste conseguindo pódios decisivos. O que foi mais difícil: ganhar o Dakar ou gerir a pressão de defender a liderança do Mundial nas provas seguintes?
“Foram situações diferentes, mas posso dizer que o resto do campeonato foi mais difícil. O Dakar é uma prova em si, onde entramos com uma vontade diferente, porque inicialmente não pensávamos que chegaríamos onde chegamos. Entrámos sem pressão, zero pressão. O resto do campeonato já foi diferente, porque acreditávamos que seria possível e tivemos de gerir tudo isso.
Portanto, posso dizer que sim, defender o campeonato foi mais complicado do que conseguir a vitória no Dakar, olhando a este contexto. Claro que o Dakar é sempre muito difícil – só chegar ao fim já é complicado. Portanto, são ambas complicadas, mas, em termos de gestão, o resto do campeonato custou‑me mais.”

Agora, para este Dakar, sentes mais responsabilidade? Qual é o objetivo que levas? Provavelmente ganhar à geral…
“Sim, sem dúvida que vamos lá para isso. Mais responsabilidade ou mais pressão, penso que não iria por aí; preciso lá de chegar para sentir, mas acho que não. Quero encarar de forma como se fosse a primeira vez, porque realmente vai ser um primeiro Dakar nestes moldes. Fiz um Dakar o ano passado, que foi a minha estreia, com o objetivo de terminar, e foi isso.
Só que os resultados foram aparecendo e fomos acreditando mais e lutando por eles durante a corrida. Mas este Dakar vai ser um novo Dakar para mim, porque já vamos com um carro mais competitivo para andar na frente, já vamos a saber que temos ritmo para isso. Vamos abordar de forma diferente, claro, mas queremos ser conservadores. Se conseguirmos entrar com esse foco de ser conservadores e levar o Dakar até ao fim, a pressão vai ficando para trás. É muito isso: é um Dakar novo.”
Pois, este ano é tudo diferente. É uma questão da forma como tu e a equipa decidirem encarar a prova…
“No caso da pressão ou responsabilidade, acho que acaba por termos a responsabilidade de fazer as coisas bem. Passa mais por aí: há uma responsabilidade. Obter um resultado, vamos trabalhar para isso, vamos lá para isso e sei que temos potencial, mas há muitas coisas que podem fazer o jogo mudar. É mesmo assim.
Cada Dakar é um Dakar e acho que mesmo os mais velhos, com mais edições, dizem isso: um Dakar é sempre uma estreia, porque é sempre novo. Claro que, quanto mais experiência acumulada, menos isso se aplica. Eu já vou ‘outro Alexandre’. Pagámos bem a factura de rookie o ano passado em certos momentos; sei que este ano já vamos estar preparados para eles.
Acho que estamos preparados, a equipa está preparada, temos um bom carro, está tudo para correr bem e conseguir lutar pela vitória.”

Alexandre, eu já falei, como deves calcular, ao longo destes anos com muita gente nova que vai ao Dakar, e sinto que tens a cabeça exatamente no sítio onde deve estar. Não precisas da pressão, precisas é de fazer as coisas como deve ser e depois o que será, será – porque, como dizes e bem, o Dakar é uma caixinha de surpresas. Tanto pode correr muito bem como o contrário. É ir desfrutando e tentar fazer o melhor possível, claro.
“É muito isso. Acho que a única pressão que deve existir é fazer as coisas bem…
Fazer as coisas bem é não errar. Não é fazer as coisas bem de acelerar e andar na frente e ganhar, não.
Acho que é uma corrida muito longa e ela começa a falar por si e depois vamos‑nos adaptando.”

Depois de conquistares o Mundial, que objectivos traças para a tua carreira? Ao fim e ao cabo a tua carreira ainda é curta, ainda tens muitos anos pela frente.
“Bom, o meu objectivo neste momento… isto vai mudando, não é! Eu não sabia que hoje ia estar onde estou e começamos a pensar as coisas de outra forma. De momento, o que temos num futuro próximo – o próximo ano – é o Dakar de que temos estado a falar, e o resto do campeonato. Claro que vamos trabalhar para revalidar o título, mas, num futuro, o meu objectivo passaria por talvez chegar à categoria Ultimate e tornar‑me piloto oficial de alguma marca, um piloto de fábrica, e conseguir viver mais deste desporto.”

Acho que fazes muito bem. Estás a dar os passos certos para isso. Nenhum de nós sabe qual é o futuro, mas pelo menos estás a fazer tudo o que tens que fazer...
“Exactamente. Dentro das possibilidades que vão surgindo, que me foram aparecendo e que a equipa também tem. A equipa tem estado muito comigo, por isso menciono‑a muitas vezes e agradeço muito, assim como a todas as pessoas que me apoiam. Dentro da possibilidade geral de tudo isto, acho que temos feito o que podemos – mas temos feito bem – e vou continuar focado em fazer isso para conseguir chegar mais alto.”

Algumas palavras finais que tenhas deixado por dizer…
“Gostava de dizer que tenho muito amor pelo que faço, porque é o mais importante em tudo: seja no que querem ser, no que têm, no que querem ter. O amor não é só entre marido e mulher ou em família; o amor é tudo na vida. Tenho sentido isso muito, agora ainda esta semana na gala da FIA, e fiquei a olhar para quem eu era ‘ontem’, basicamente – a minha carreira é curtinha – e onde estou hoje, e percebo que foi com muito amor também que cheguei aqui.
Todas as outras circunstâncias têm de estar alinhadas, tem de haver estabilidade para estar ao volante, tem de haver uma equipa, tem de haver orçamento, tem de haver tudo. Mas temos de acreditar muito e ter muito amor também.”

Tags: Alexandre PintoBernardo OliveiraOld Friends Rally Team
José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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