Na sede da FIA, em Paris, há uma sala de reuniões que parece ter sido desenhada por um arquiteto com alergia à felicidade. Não há janelas, o ar é reciclado desde os tempos dos Grupos B e a única coisa que circula com liberdade são as dores de cabeça. É aqui que se decide o futuro do WRC 2027 — ou, mais rigorosamente, é aqui que se adia o inevitável.
À cabeceira da mesa, a FIA tenta manter uma expressão neutra, como um árbitro que perdeu o apito e a autoridade ao mesmo tempo. Bom, mas ainda bem que há VAR, podemos sempre ir ao Reddit ver o que dizem os adeptos…
— Senhores, precisamos de consenso.
Do lado esquerdo, a Toyota chega com um PowerPoint que parece ter sido produzido pela NASA depois de uma noite mal dormida.
— O carro tem de ser… aspiracional — diz o representante, apontando para um ‘render’ com uma asa traseira do tamanho de um T2 em Fátima. — Queremos algo que faça uma criança olhar e pensar: “Isto não é um carro, é o Faísca McQueen.”
— Isso parece caro — murmura a FIA, já a fazer contas com um lápis que treme.
— Caro é relativo. Prestígio é absoluto.
Do outro lado da mesa, a Škoda mastiga a ideia como quem prova um prato gourmet e encontra ketchup.
— Nós queremos vender carros — dizem, com a calma de quem sabe quanto custa cada parafuso. — Muitos.
A privados. A jovens pilotos. Se começamos a falar de aerodinâmica ativa e asas que fazem sombra própria, cada para-choques passa a custar o PIB de um pequeno país báltico.
— Mas a imagem! — insiste a Toyota.
— A imagem paga-se com resultados e faturas que não assustam — responde a Škoda. — O nosso cliente não quer uma nave espacial. Quer acabar um rali com quatro rodas e uma hipoteca intacta.
Num canto, a Hyundai observa tudo como quem está num jantar de família a pensar se deixou o fogão ligado… em Le Mans.
— Nós… estamos a avaliar opções — diz, encolhendo os ombros. — Talvez um modelo cliente. Talvez… nada. Depende. Gosto muito de resistência, sabem? Esta semana não quero saber nada dos ralis, só tenho olhos para La Sarthe…
A FIA engole em seco. Tira da gaveta o seu plano: o “Rally2 Plus”. Um ‘Frankenstein’ regulamentar com a elegância de um bitoque coberto com caviar.
— E se pegarmos num Rally2… e adicionarmos… um kit aerodinâmico? — arrisca, como quem sugere karaoke num velório.
Silêncio.
— Um kit? — pergunta a Škoda. — E quem define o kit?
— Nós… — responde a FIA, sem convicção.
— E quem impede a Toyota de gastar milhões em túnel de vento para ganhar três décimas por quilómetro? — continua a Škoda.
— Ninguém impede a excelência — sorri a Toyota.
— Pois — suspira a Hyundai. — Eu vou ver o calendário do WEC…
A reunião entra na sua terceira hora e quinta versão do regulamento. A cada alteração, um comissário ganha uma nova enxaqueca e um engenheiro perde a vontade de viver.
— Precisamos de uma decisão final — insiste a FIA, já a olhar para a porta como quem considera uma carreira em padel.
— Fácil — diz a Toyota. — Fazemos o carro mais espetacular do planeta.
— Fácil — diz a Škoda. — Fazemos o carro mais simples do planeta.
— Fácil — diz a Hyundai. — Nós talvez façamos alguma coisa…
— Fui para o Dakar e para Le Mans — diz finalmente a Ford, estou farto disto…
A FIA fecha o dossier. Lá fora, o mundo continua. Cá dentro, o WRC 2027 continua a ser um conceito abstrato, como dieta em dezembro ou promessas de regulamentos estáveis.
No fim, ninguém ganha a discussão. Mas todos ganham uma coisa: a certeza de que, neste campeonato, a especial mais difícil não é na terra, na neve ou no asfalto.
A pergunta que fica, na verdade, nem é sobre uma asa traseira mais ou menos aerodinâmica. É mais funda, mais desconfortável: O WRC já não discute peças; discute a sua própria identidade.
Quer ser um laboratório futurista de marketing sobre rodas, mas muito exclusivo, ou um campeonato vivo, acessível e cheio de gente nas listas de inscritos?
No meio deste ruído, a asa traseira ou o Kit são apenas o espelho onde o campeonato vê a sua crise refletida — grande, exagerada e impossível de ignorar…









