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Sébastien Loeb: A primeira entrevista depois do 1º (2004) de nove títulos no WRC

José Luis Abreu by José Luis Abreu
19 Junho, 2024
in Autosport Exclusivo, AutoSport Histórico, Newsletter, pv2, Ralis, WRC
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Sébastien Loeb: A primeira entrevista depois do 1º (2004) de nove títulos no WRC

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A primeira grande entrevista de Sebastien Loeb após o título mundial

“Tenho muito orgulho naquilo que consegui!”

O ano era 2004, Sebastien Loeb tinha acabado de se sagrar Campeão do Mundo de Ralis pela primeira vez. A este acrescentou mais oito títulos, mas esta foi a entrevista após o primeiro. Feita pelo saudoso Martin Holmes.

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Em apenas cinco anos, o francês tinha conquistado o topo da pirâmide e arrasou todos os adversários. Na mochila, uma capacidade estratégica invulgar, alguns “quilos” de maturidade e, claro está, um dote especial para manobrar o volante e os pedais. No fim de contas, “xeque-mate”!

A hora é de recordar: “Antes do Rali Sanremo de 2001, enviei diversas mensagens a marcas como a Subaru, Mitsubishi e Skoda para tentar guiar um World Rally Car. Amavelmente, todas me responderam o mesmo, dizendo que se lembrariam de mim se precisassem de um segundo piloto e que então me contactariam. Algo que nunca aconteceu!”.

No presente, não deve haver uma única marca que não esteja arrependida de ter negado às suas fileiras um prodígio como Sebastien Loeb. Tê-lo na equipa, como ficou agora provado, é meio caminho para o êxito no Campeonato do Mundo de Ralis, a diferença entre chegar ao título de Pilotos e de Marcas e poder obter um retorno mediático capaz de ultrapassar todo o investimento feito num ano. Para dizer a verdade, a Citroen foi a única a visionar esta “mensagem”, quando Guy Fréquelin estendeu uma caneta ao novo Campeão do Mundo para que este assinasse um contrato válido por dois anos. Um contrato que chegou na forma de título, três anos mais tarde.

Aprender com o passado
Loeb soube esperar a sua hora. Após lhe ser negada a possibilidade de lutar até ao final pelo título de Pilotos em 2003, o alsaciano voltou a investir tudo o que sabia esta temporada, mas com uma mais-valia importante: o diagnóstico dos seus erros passados.
Começa aqui a história do título que para sempre lhe preencherá uma boa parte da memória: “comecei o ano com o meu pensamento ainda fresco no competição do ano passado e no magro ponto que me fez perder o campeonato para o Petter Solberg. Com a definição das regras de pontuação, o objetivo passou a ser claro este ano: somar pontos em todas as provas e ganhar quando possível; ou se a vitória fosse demasiado arriscada, aliviar o ritmo para garantir que o carro chegasse ao fim, ao invés de cometer qualquer erro infantil. E olhando para trás, nomeadamente para o campeonato de 2003, foi desde logo possível identificar os ralis onde perdemos para o Petter, o que, grosso modo, nos ajudou a fazer a diferença em 2004. Além disso, estivemos aptos a fazer jogadas menos arriscadas, prestando igualmente um maior cuidado nas escolhas de pneus”, recorda Loeb.
A estratégia acabou por ser, por estas e por outras razões, uma parte importante na trajetória do cetro e, desta vez, nem sempre foi a Citroen a delineá-la, já que o piloto teve muito mais margem de manobra do que no ano transato: “Sempre guiei e guio de acordo com as circunstâncias. O meu estilo é avaliar bem o que estou e o que posso fazer e, em princípio, atacar no início do rali para ver onde me situo e a partir de aí adotar o ritmo mais adequado”.
Com um arranque de campeonato pleno de garra, onde venceu o Rali de Monte Carlo e Suécia, a que juntou, mais tarde, as vitórias no Chipre, Turquia e Alemanha, o antigo ginasta mostrou uma flexibilidade impressionante, conseguindo gerir a contabilidade do campeonato da forma que mais lhe conveio: “Comecei por conseguir muitas vitórias e depois tive que me contentar em acumular segundos lugares. À medida que a temporada avançava, o Petter foi cada vez mais rápido e consciencializámo-nos que seria muito difícil batê-lo, pelo que optamos por não correr demasiados riscos”.

Xsara foi um trunfo
Quando em 14 provas disputadas se ganham cinco e apenas se desiste numa, então outros factores entram em jogo. O Citroen Xsara WRC é, claramente, a outra parte do título que Loeb guarda agora na algibeira, como o próprio piloto o reconhece: “Quando me perguntam qual foi o segredo deste título, tenho que responder que esteve indubitavelmente na fiabilidade do Xsara. O carro nem sempre foi rápido, tendo algumas dificuldades de competitividade tanto na Nova Zelândia como na Finlândia, mas foi um dos mais robustos, como o provam os recordes de fiabilidade que conseguimos. Acho que este foi, verdadeiramente, o fator singular que mais contribuiu para a minha consagração e para o segundo sucesso da Citroen. Mas evidentemente que somos também uma equipa e cada um fez a sua parte!”.
E Loeb sem dúvida que fez particularmente bem a sua. Razão mais do que suficiente para aos 30 anos “realizar a ambição de qualquer piloto que corra no Campeonato do Mundo de Ralis” e assumir, sem qualquer tipo de preconceito ou falsa modéstia, que “com este título estou orgulhoso daquilo que fiz, embora espere não ter que mudar nenhum aspecto da minha vida só porque conquistei este patamar!”. Nas palavras, como na estrada, este francês tem fibra de Campeão…

O ginasta que sonhava chegar longe: Uma história de sucesso
Para Loeb, a paixão pelos automóveis não foi inata. Aliás, quase surgiu por acaso quando depois de se ter consagrado na ginástica e em corridas de bicicletas descobriu que a verdadeira adrenalina estava na velocidade: “Agora são a pilotagem e a competição que me apaixonam. Mas a minha carreira desportiva começou com a ginástica. Fui campeão de Bas-Rhin, da Alsácia e da Zona Este. Participei depois no campeonato francês, mas não consegui melhor que o décimo lugar. Assim, a ginástica perdeu o interesse a partir do momento em que percebi que nunca mais seria Campeão do Mundo. Sempre quis ser o melhor no que fazia!”. Arrumadas no baú as recordações dos trampolins e das argolas, foi a altura de saltar para as duas rodas e experimentar as sensações das “mobylette”, mas também aqui os resultados ficaram aquém do esperado: “Nunca ganhei nada de especial. Com a ‘mobylette’ que preparávamos em casa ainda fia algumas voltas mais rápidas na corrida mais importante que fiz, conseguindo, nesse momento, rivalizar com alguns concorrentes que participavam no Campeonato de França, mas acabei por cair. De resto, fui por diversas vezes o mais rápido, mas nunca cheguei longe”. Não admira! O destino tinha escrito que o seu futuro estava nos Ralis! Tudo o resto era uma perda de tempo…

Daniel Elena é o copiloto perfeito: “Pensamos da mesma forma”
Apesar de ter conquistado individualmente o Campeonato de Pilotos, o título de Loeb não faz muito sentido se dissociado do cetro “Mundial” de Navegadores, conquistado por Daniel Elena. Uma equipa de ralis só funciona em conjunto e se por vezes a harmonia dentro do carro não é o “prato forte”, no caso desta dupla dificilmente as coisas poderiam correr melhor: “Já andamos juntos há seis anos e o Daniel sempre me ajudou muito. Nesta altura, acho que não nos podíamos conhecer melhor. Tenho absoluta confiança nele porque não comete erros a tirar as notas, tão pouco a lê-las e muito menos a verificar as horas nos controles”, faz questão de mencionar o piloto francês, quando confrontado com o papel do seu navegador na conquista deste título. Além disso, Loeb também não tem dúvidas de que “o segredo do nosso sucesso está no facto de pensarmos exatamente da mesma maneira, o que acaba por nos aliviar o ‘stress’”, confirma o francês, pouco depois de assistir emocionado às declarações de Elena na sala de imprensa do Rali de França/Córsega, que se dividiam entre a alegria de ter sido o primeiro monegasco a ganhar um título, fora do universo dos circuitos, e a tristeza de não ver o seu nome nem bandeira colados no vidro lateral do Xsara WRC ao longo do ano!

Os bons conselhos de Sainz
Apesar de ser atualmente o “número um” da equipa Citroen e de Fréquelin não esconder sequer a sua preferência pelo francês, Loeb sempre lidou com esse facto com a normalidade e humilde que se impõem. De resto, quando se tem um companheiro de equipa como Carlos Sainz, que é só o piloto do “Mundial” há mais tempo em atividade, qualquer outra postura de heroísmo poderia ser prejudicial à evolução, pelo que Loeb cedo aprendeu que só teria a ganhar se tivesse um relacionamento saudável com o espanhol. E, efetivamente, nesta altura, a empatia entre os dois dificilmente poderia ser mais forte: “Desde que o Carlos foi para a Citroen que trabalhamos muito bem juntos. Ele dá-me muitos conselhos e deixa-me partilhar as vantagens da sua experiência, nomeadamente a que adquiriu nos testes de desenvolvimento do carro”. E para dar uma ideia de como pode ser canalizada a experiência de Sainz, Loeb não se inibe de contar na primeira pessoa um episódio curioso: “Uma vez disse ao Carlos que o meu sonho era ganhar a Córsega. Ele de imediato me disse que não era boa ideia pensar nisso. Contou-me que uma vez chegou à Córsega no comando do campeonato e, tal como eu, queria vencer o rali. Disse-me que tinha então saído da estrada quando liderava, atirando dez pontos fora. E como nos ralis seguintes teve problemas mecânicos acabou por perder o campeonato. Antes mesmo do rali deste ano começar, lembrou-me que era mais importante vencer o campeonato do que o rali, reforçando que ninguém se lembra quem vence os ralis, mas sim quem é o Campeão. O certo é que durante todo o rali da Córsega lembrei-me disto e acabei por ser Campeão, mesmo ficando em segundo, também um pouco graças a ele”. Sem dúvida, uma importante lição!

Bilhete de Identidade (em 2004)
Data de Nascimento: 26 de fevereiro de 1974
Naturalidade: Hagenau (Bas-Rhin)
Estado Civil: Solteiro
Altura: 1,71m
Peso: 69 kg
Tempos livres: Esqui e escalada
Primeiro carro: Peugeot 106 (1995)
Estreia no “Mundial”: Rali da Córsega (1999)
Provas no “Mundial”: 40
Vitórias no “Mundial”: 9

Palmarés
2004
Campeão do Mundo de Ralis (Citroen Xsara WRC)
2003
Vice-Campeão do Mundo de Ralis (Citroen Xsara WRC)
2002
10º lugar no Campeonato do Mundo de Ralis (Citroen Xsara WRC)
2001
Campeão do Mundo Júnior (Citroen Saxo Kit Car e S1600)
2001
Campeão Nacional de França (Citroen Xsara Kit Car)
2000
Participação no Campeonato do Mundo de Ralis (Toyota Corolla WRC e Citroen Saxo Kit Car)
Campeão de França de 2 Litros
1999
Participação no Campeonato do Mundo de Ralis (Citroen Saxo Kit Car)
1º no Troféu Citroen Saxo Kit Car (França)
1998
6º no Troféu Citroen Saxo Kit Car (França)
1997
Eleito Piloto Esperança “Echappement”
1996
Vencedor do Troféu “Volante Rallye Jeune”
1995
Finalista do Troféu “Volante Rallye Jeune”

Tags: Sebastien Loeb
José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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