O Rali de Portugal e os portugueses: uma história de amor com cicatrizes…

Por a 22 Abril 2026 15:32

O tempo em que o Rali de Portugal era o ponto alto do ano, e quando ser o melhor português valia o mesmo do vencedor à geral, na atenção dos adeptos. Uma ligação que o tempo foi desgastando…

Ser o melhor português no Rali de Portugal já não tem o mesmo peso de outrora. Continua a ser um objetivo com valor simbólico real, mas a distância para o que representava nas décadas de ouro é enorme — e qualquer piloto da geração que viveu essa época sabe disso melhor do que ninguém.

Houve um tempo em que essa distinção quase rivalizava, em termos de atenção mediática e popular, com a luta pela vitória absoluta. O público português seguia a hierarquia nacional com o mesmo fervor com que acompanhava os nomes do topo mundial — e fazia-o com conhecimento de causa, sem ingenuidade.

O afeto pelos pilotos nacionais ganhava uma dimensão adicional precisamente porque o contexto tornava as suas prestações ainda mais notáveis: equipamentos a anos-luz dos concorrentes oficiais, uma semana de prova que valia por várias rondas do campeonato nacional, e a consciência coletiva de que estavam ali, naquele palco, por pura determinação.

Para muitos desses pilotos, o Rali de Portugal era o único evento internacional do calendário pessoal. Para os mais ambiciosos, era o ponto alto do ano. Nem um nem outro recuavam perante a diferença de meios — era precisamente nesse desequilíbrio que residia parte do romantismo da participação.

Essa lógica manteve-se até à deslocação da prova para o Algarve. Nos primeiros anos algarvios, em 2005 e 2006, ainda havia participações nacionais com peso e visibilidade, mas o regresso ao WRC, em 2007, combinado com as mudanças profundas que o automobilismo português sofreu durante os cinco anos de ausência do Mundial, foi alterando gradualmente o papel dos pilotos nacionais.

Primeiro, foram sendo empurrados para a margem da competição ligada ao WRC. Depois, com a saída do Campeonato de Portugal de Ralis da prova portuguesa do Mundial, o cordão umbilical entre a prova e a principal competição nacional foi (quase) definitivamente cortado.

Essa terá sido a ruptura mais difícil de superar. Os pilotos lusos nunca abandonaram por completo a participação na prova, e o título de melhor português continua a ter mérito — mas a sua ressonância não é comparável à de há 30 ou 40 anos.

O regresso do Rali de Portugal ao Campeonato de Portugal devolveu alguma da importância perdida a essa disputa interna. A cobertura mediática voltou a refletir esse peso: o AutoSport, por exemplo, dedica hoje à prova do CPR inserida no Rali de Portugal a mesma atenção do que a todas os outros eventos do CPR, mas ainda faz mais, e continua a dar importância ao vencedor português… no domingo.

E os pilotos nacionais não ficam alheios a esse sinal. “Se lutamos para ter visibilidade, como podemos ficar de fora da prova mais mediática do ano?”, questiona um dos concorrentes, numa frase que resume bem o dilema — e a inevitabilidade — de continuar a aparecer.

COMO TUDO COMEÇOU

O 1º Rallye TAP, disputado em 1967, marcou a primeira internacionalização da prova portuguesa e com a sua integração no Europeu de Ralis, em 1970, o evento passou a ter cada vez mais estrangeiros a participar, e por isso os triunfos de 1967 (Carpinteiro Albino) e (1969) Francisco Romãozinho se tornaram exceções, ainda mais com a entrada no Mundial de Ralis, em 1973.

Por isso, e apesar do ‘título’ de melhor português ter passado para uma posição subalterna, essa luta entre os pilotos lusos foi ganhando cada mais importância, na direta proporcionalidade da fama que o Rali de Portugal ganhava além fronteiras. Depois disso, só em situações muito excecionais, como foi o caso do Rali de Portugal de 1986, quando Joaquim Moutinho e Edgar Fortes levaram o Renault 5 Turbo à vitória, devido ao acidente de Sintra e à ‘greve’ dos pilotos de fábrica, que deixaram o evento com pouco mais do que os concorrentes portugueses.

Ou em 1996, quando no Mundial de Ralis se procedia à rotatividade entre as provas do campeonato e nesse ano o Rali de Portugal contou apenas para a F2, campeonato de duas rodas motrizes, ficando fora a competição principal. Rui Madeira e Nuno Rodrigues da Silva aproveitaram da melhor forma a oportunidade e venceram à geral, depois de grande luta com Freddy Loix e Fernando Peres.

A prova saiu do WRC depois de 2001, e nos anos seguintes Armindo Araújo aproveitou da melhor forma um Rali de Portugal quase totalmente ‘nacional’ para triunfar diversas vezes, em 2003 e 2004, em Trás-os-Montes, e em 2006, no ano da candidatura ao WRC, numa prova ganha com grande brilhantismo.

A luta pelo ‘titulo’ de melhor português no Rali de Portugal foi sempre um espetáculo dentro do próprio espetáculo, e provas houve com grandes lutas, como por exemplo em 1972, quando António Borges realizou uma fabulosa atuação, andando pelas posições cimeiras do rali até desistir, cedendo o título de melhor português a Giovanni Salvi, que levou o Porsche 911S ao sexto lugar da classificação geral.

Anos depois, em 1978, Carlos Torres, em Ford Escort iniciava uma série de triunfos consecutivos, sempre com grandes exibições, a última delas, em 1982, quase a ‘tocar’ no pódio, terminando atrás do Audi Quattro de Franz Wittman.

Joaquim Santos obteve em 1983 o seu primeiro de três triunfos, curiosamente, sempre com carros diferentes, e Carlos Bica iniciou em 1989 uma série de três vitórias consecutivas na luta pelo melhor concorrente luso, sendo que no ano seguinte foi o quinto de cinco Lancia no topo da classificação geral, com um carro de treinos cedido pela equipa de fábrica.

O clã Bica deu continuidade às famílias triunfantes nos ralis nacionais – por exemplo MeQePê e PeQePê – com o triunfo de Jorge Bica em 1993. Mas foi a partir de 1995 que se iniciaram os triunfos dos dois mais vitoriosos pilotos entre os portugueses no Rali de Portugal. Rui Madeira venceu a prova de 1995, no ano em que venceu a Taça FIA de Grupo N, e desde aí acrescentou mais quatro vitórias, só não somando a quinta porque foi desclassificado em 2007, devido a um detalhe em que não teve culpa nenhuma, facto que o deixou muito agastado.

Mas o piloto que mais vezes foi o melhor português no Rali de Portugal, e no caso, também ele tem três triunfos à geral, é Armindo Araújo, depois de ser o melhor entre 2003 e 2006, mais duas durante o seu ‘reinado’ de Campeão do Mundo do PWRC e finalmente com o MINI JCW WRC. Atualmente, a luta pela posição de melhor português no Rali de Portugal perdeu elan, ainda mais porque o Rali de Portugal deixou de pertencer – durante algum tempo – ao Nacional de Ralis, voltando depois. Eram muitos os pilotos a dizerem que isso não fazia qualquer sentido, e que alguma solução tinha que se encontrada. Numa prova em que a atenção do público e dos media estão completamente no auge, o Nacional de Ralis primava pela ausência. Não faz mesmo qualquer sentido. Percebe-se a questão dos custos, do andar lá atrás, dos carros que ficam mais destruídos, mas no passado havia quem olhasse para a prova como o ponto alto do ano.

Ainda assim, alguns dos pilotos do então CNR não perdiam a oportunidade de marcar presença no Rali de Portugal, pois no fim, o que fica para a história são os nomes que ficaram melhor classificados. Houve outros factos a assinalar, que não tendo sido triunfos, deixaram marcas na memória. Por exemplo, as prestações de António Rodrigues na primeira etapa de 1984 ou as vitórias de Rui Madeira em troços à geral.

O MELHOR DO MEU ‘CANTINHO’

Ser o melhor português no Rali de Portugal só em sete vezes significou também vencer o rali à geral. Isso sucedeu logo na 1ª Edição do Rallye Internacional TAP, em 1967, com Carpinteiro Albino e Silva Pereira (Renault 8 Gordini), dois anos depois com Francisco Romãozinho/’Jocames’ (Citroën DS Proto), a complicada edição de 1986, com Joaquim Moutinho/Edgar Fortes (Renault 5 Turbo), em 1996, quando a prova não contou para o Mundial de Ralis e simplesmente para a F2, por Rui Madeira/Nuno Rodrigues da Silva (Toyota Celica GT Four) e finalmente em três edições em que a prova foi essencialmente para consumo interno, em 2003, 2004 e 2006, as duas primeiras em Trás-os-Montes e a última já no Algarve, que culminou com uma fantástica exibição de Armindo Araújo e Miguel Ramalho, os tri vencedores. Nos dois primeiros anos em Citroën Saxo Kit Car, no último, num Mitsubishi Lancer Evo IV.

Em todas as restantes edições, os portugueses terminaram noutras posições da geral, que não o primeiro. Por exemplo, em 1968, António Peixinho foi ao pódio e a ele se seguiram Francisco Romãozinho e Carpinteiro Albino.

Em 1971, o melhor concorrente luso já só surgia em oitavo, Gomes Pereira, em Opel 1904 SR. O pódio voltou a sorrir em ano da estreia ‘Mundial’, 1973, com o ‘oficial’ Francisco Romãozinho, a colocar o DS 21 no pódio, o que só voltou a suceder em 1976, por MeQePê, que também levou o Opel Kadett à vitória no Grupo 1. Por lá perto ficou Carlos Torres, em 1982, quando foi quarto.

Com a crescente valorização do plantel do Mundial de Ralis, as classificações dos pilotos portugueses foram-se refletindo disso, mas ainda assim, em 1985, José Miguel Leite Faria (Ford Escort RS1800) ainda foi sexto classificado. Mas por exemplo, já em 1987, no primeiro ano dos Grupo A, Joaquim Santos (Ford Sierra RS Cosworth) foi ‘apenas’ nono. Depois disso, houve mais algumas classificações muito meritórias, como por exemplo 1989, quando Carlos Bica (Lancia Delta HF 4WD) foi sexto ou ainda mais no ano seguinte, em que pilotou um carro de treinos da Lancia, com Bica (Lancia Delta HF Integrale 16v) a ser quinto classificado.

Quatro anos depois, 1994, Fernando Peres (Ford Escort RS Cosworth) realizou uma portentosa exibição e foi também ele quinto classificado. No ano seguinte, Rui Madeira, em Mitsubishi Lancer, foi o melhor dos lusos, mas a isso juntou a vitória no Grupo N e esse facto, para além de ter contribuído para o seu triunfo na Taça FIA de Grupo N no final desse ano, tornou-o num nome que passou a ser visto com outros olhos.

Rui Madeira voltaria a ser o melhor português mais quatro vezes, em 96, 98, 99 e 2001. Em 1997, Adruzilo Lopes (Peugeot 306 Maxi) foi o melhor português, mas também Rui Madeira brilhou, com vários melhores tempos à geral. Em 2000, o triunfo foi para Adruzilo Lopes (Peugeot 206 WRC), mas o destaque foi também para Miguel Campos, que assegurou o seu segundo triunfo consecutivo no agrupamento, novamente com o Mitsubishi Carisma GT Evo VI.

Depois de 2001, o rali entrou na sua ‘fase nacional’: em 2006, Armindo Araújo bateu-se muito bem contra pilotos de grande valia com carros semelhantes. 2007 foi o ano da estreia do piloto de Santo Tirso com um Mitsubishi Lancer WRC, mas desistiu perto do fim, enquanto Rui Madeira foi desclassificado por irregularidades no turbo do Mitsubishi Lancer, algo a que foi completamente alheio. Um regresso agridoce!

Nesta altura, o ‘título’ de melhor português ainda tinha grande vigor, por exemplo, em 2009, Armindo Araújo deu em Portugal um grande passo rumo ao título no PWRC, em 2011, Bruno Magalhães (Peugeot 207 S2000) bateu os favoritos Armindo Araújo e Bernardo Sousa, em 2012, voltámos a ter um piloto português em ‘full time’ na alta roda do WRC, embora, como se sabia as coisas não tenha corrido bem. Ainda assim, Armindo Araújo foi o melhor português em 2012, mas daí para cá o ‘título’ perdeu força, pelas razões atrás mencionadas.

Com a chegada de uma nova regulamentação em 2017 no WRC, o fosso entre os melhores portugueses que correm de R5, é enorme e o que aconteceu no passado, por exemplo nos tempos do Grupo A não é possível repetir.

Em 2017, depois da prova portuguesa do WRC regressar ao Campeonato de Portugal de Ralis, o melhor português nesse ano foi Miguel Campos, que terminou no 16º lugar, em 2018, Armindo Araújo (Hyundai i20 R5) venceu a prova do CPR, foi 14º da geral e em 2019, 2021 2022, 2023, 2024 e 2024, voltou a ser Armindo Araújo a vencer.

Seja como for, continua a ser um resultado muito importante para qualquer palmarés, ser o melhor português no Rali de Portugal.

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