O enorme desafio televisivo do WRC: há muito espetáculo, mas falta tudo o resto…
Carlos Sainz Jr, identificou há dias – CLIQUE AQUI PARA SABER MAIS – um problema estrutural que afeta o crescimento global do WRC: a falta de um formato televisivo atraente e acessível. Recuperamos muito do que ouvimos e escrevemos sobre o tema, sendo perfeitamente possível identificar causas claras e potenciais soluções vindas de um pouco de todo o lado, especialistas, adeptos e promotores do desporto. Tudo o que achamos, está nas próximas linhas…

As principais causas do problema
1 – Complexidade inerente da cobertura
Ao contrário da Fórmula 1, onde 20 carros competem simultaneamente num circuito fechado durante duas horas, os ralis estendem-se por três dias, com cerca de 20 troços cronometrados dispersos por centenas de quilómetros em locais remotos. Isto torna realisticamente impossível cobrir tudo em direto para audiências generalistas.
Logicamente, é muito dispendioso e monetariamente inviável manter equipas de ‘cameramen’, helicópteros e aviões em múltiplas localizações.
Logo, os ralis são difíceis de seguir para espetadores casuais que não compreendem tempos intermédios, diferenças acumuladas ou mesmo o sistema de pontuação.

2 – Falta de narrativa e Storytelling
Um dos problemas mais citados pelos fãs é a ausência de histórias humanas convincentes. Enquanto séries como “Drive to Survive” (F1) transformaram pilotos em personagens com jornadas emocionais, o WRC oferece cobertura técnica mas pouca ou nenhuma profundidade sobre os pilotos.
Não explora rivalidades, desafios pessoais ou bastidores das equipas, falha em criar ligação emocional com audiências que não conhecem os protagonistas.
Basicamente, tudo o que a Netflix fez em Drive to Survive, com os resultados que se conhecem.
O recente More than a Machine, documentário sobre o WRC, surge muito tarde, mas ainda assim a primeira série já ganhou prémios. É um começo, tardio, mas já é alguma coisa.

3 – Acesso limitado e Paywall problemático
Desde 2018, o WRC adotou um modelo baseado em subscrição (Rally.TV), eliminando grande parte da cobertura gratuita que existia em canais como Eurosport. As consequências não se fizeram esperar com a perda de espectadores casuais, que não pagam subscrições mensais de desportos que veem muito de vez em quando.
Com isso, passou a haver a impossibilidade de atrair novos fãs, que no passado descobririam o desporto por acaso na TV aberta.
O exemplo de Portugal com o programa Rotações nos anos 80 e com as transmissões de ‘fio a pavio’ do Rali de Portugal levaram muita gente a apaixonar-se pelos ralis, o que em Portugal continua a suceder. Existe verdadeira paixão.
Fosse Portugal a bitola do WRC em termos mundiais, e a modalidade não estaria como está. Bem longe disso…
Mais há mais: frustração com a plataforma: problemas técnicos, spoilers inevitáveis, conteúdo eliminado rapidamente. É frustrante haver uma história incrível do passado do WRC e isso existir muito pouco na Rally.TV.
É verdade que o WRC é transmitido e bem em Portugal pela Sport TV, mas mais uma vez, Portugal não é, nunca foi e provavelmente nunca será um problema de falta de espetadores/adeptos para o Mundial de Ralis.

4 – Formato de ‘Highlights’ inadequado
Os resumos diários no YouTube – mais uma vez, falamos do mundo todo e não só de Portugal – têm menos de 2-3 minutos por dia de competição, enquanto o Red Bull TV oferece episódios de cerca de 50 minutos por rali. Isto é insuficiente porque, não permite compreender a evolução da prova, só vendo os “Day Highlights” de seguida e isso é para quem sabe que eles existem e não para o adepto casual que lhe aparece um ‘highlight’ de vez em quando.
Não contextualiza estratégias, problemas mecânicos ou reviravoltas, e a audiência sente sempre que “perderam a história e o contexto”.
5 – Ausência de cobertura em TV Aberta
Contrariamente à F1, que mantém acordos com canais gratuitos em mercados-chave (mesmo com Sky/Canal+ dominantes), o WRC praticamente desapareceu da televisão generalista. Resultado: Invisibilidade para o grande público, incapacidade de recrutar novos adeptos jovens, e com isso a espiral só pode ser descendente: menos audiência → menos patrocínios → menos investimento em promoção…
Soluções propostas: melhorar a plataforma digital e reduzir barreiras
Vamos a propostas concretas:
Baixar significativamente o preço do Rally.TV. Mais uma vez, em Portugal, o pacote da Sport TV é atrativo.
Melhorar o conteúdo disponível da Rally TV. recuperando muito do passado dos ralis, nem que seja ter esse conteúdo somente durante alguns dias, por exemplo. Por fim, melhorar a estabilidade técnica (buffering constante, crashes da app) é ‘mato’.
Criar conteúdo gratuito estratégico na TV e YouTube
Por exemplo transmitir gratuitamente o primeiro troço do dia e o Power Stage final no YouTube, resumos diários de 15-30 minutos em bons horários, com narrativa envolvente e contexto.
Programa semanal de highlights de 1-2 horas, disponível gratuitamente dias após o rali.
Usar conteúdo gratuito como ‘funil’ para converter espectadores casuais em subscritores pagantes ou pelo menos tornarem-se mais assíduos da modalidade.

Investir muito Storytelling e conteúdo documental
Exemplos de sucesso, como já referimos, o ‘More Than Machine’ (série documental WRC) que ganhou prémios internacionais ao focar histórias humanas, bastidores e emoção.
Modelo “Drive to Survive”: Criar série episódica que acompanhe pilotos, equipas, mecânicos, mostrando dramas, falhanços, sucessos
Quanto aos elementos essenciais, por exemplo, mostrar reparações de última hora após acidentes, captar muito mais reações emocionais de pilotos e famílias, explorar rivalidades e amizades entre concorrentes, humanizar os protagonistas através de entrevistas informais, como faz e muito bem o DirtFish.
Revolucionar a apresentação de dados em direto
Inovações tecnológicas sugeridas: mostrar o “carro fantasma” do mais rápido sobreposto ao carro atual, permitindo comparar desempenhos em tempo real. Há sistemas, o Georacing por exemplo, que já permite isto, mas não é explorado suficientemente
Gráficos de tempos muito melhorados
Hoje em dia há cada vez mais gente com televisões muito grandes, portanto a informação que pode surgir no ecrã – se não quiserem ir para o sistema multi-câmaras – é muito maior. Por exemplo uma barra lateral permanente com ícones de todos os carros, mostrando tempos intermédios atualizados constantemente, em tempo real.
Mapa interativo sincronizado com posição GPS de cada carro na especial, Split times destacados de forma mais proeminente (atualmente aparecem em texto pequeno).
Sistemas como o RallySafe já oferecem tracking GPS em tempo real com precisão ao décimo de segundo, a integração de telemetria (velocidade, RPM, ângulo de direção) visível para espectadores premium.
E a tecnologia já permite muito mais…
Talvez seja necessário reformular fortemente o formato dos eventos, se isso for absolutamente necessário para uma melhor TV. É muito ‘engraçado’ haver tanta nostalgia com as provas em linha do passado, face aos mais recentes parque de assistência e percurso em trevo, ou eventualmente ir mesmo mais longe nos formatos.
Uma das coisas que não temos dúvidas é que as provas terem todas os mesmos formatos, é errado, devia haver variedade, em 14 ralis, podia haver provas “fora da caixa”, com novas ideias, para diferenciar.
Um Rali Safari com 5 dias, um Rali de Monte Carlo mais extenso que permitisse ter asfalto junto ao mar e neve e gelo na certo nos Alpes mais profundos e altos, por exemplo.
Por outro lado, se calhar, podia também haver ralis com formato ‘Rally Sprint’, criar eventos mais curtos e condensados. Variedade!
E porque não uma Taça das Nações em que cada federação interessada nomeava um piloto para representar o País de origem, com as diversas categorias a terem um ‘coeficiente’ para as classificações conjuntas.
Mas há mais…
Por exemplo democratizar o conteúdo gerado por equipas, libertar as equipas para criar conteúdo próprio nas redes sociais (atualmente muito restrito). Transmitir onboards ao vivo de todos os carros (modelo WEC – World Endurance Championship).
Há hoje em dia a possibilidade de ‘crowdsourcing’ de vídeos de adeptos, por exemplo o StoryStream, de
conteúdo gerado por fãs (fotos, vídeos) que os integra em websites, canais sociais e aplicações.
É perfeitamente possível o WRC permitir aos adeptos submeter vídeos ‘trackside’, bastidores, pit lane, e esses clips serem selecionados e publicados no Rally.TV, YouTube e redes sociais com os devidos créditos.
Outra, a MASV (Media Shuttle), uma plataforma de transferência e gestão de vídeo UGC em grande escala para desportos, os adeptos carregam vídeos através de aplicação/website, o sistema valida direitos de autor, e o conteúdo é distribuído em múltiplos canais.
Imaginem as vantagens para os ralis com tanta gente na estrada a captar conteúdo.
Podiam fazer-se passatempos com prémios, para as melhores captações – super balizadas pela segurança das pessoas nessas captações, deixando sempre claro que os riscos de segurança nunca seriam ‘premiados’, mas sim, eventualmente, castigados.
São precisas ideias e há modelos implementados noutros desportos que são interessantes. Por exemplo, a NBA adotou a abordagem mais liberal: permite clips de jogos serem partilhados por fãs no Instagram, TikTok, Twitter sem remoções automáticas, mas colocam watermarks discretos e permitem monetização através de parcerias. Como resultado há um alcance viral massivo, especialmente entre audiências jovens.
Lembra-se do que fez a Volkswagen com o Rally the World em 2015? Equipas no terreno capturavam onsite footage em telemóvel durante os ralis, criavam conteúdo em tempo real (sketches, behind-the-scenes, momentos humorísticos), publicavam em 5 plataformas sociais com timing rápido e os resultados eram épicos: temos guardados os dados da altura e isto foi há 10 anos: 365 milhões de impressões de página numa temporada; 60 milhões de visualizações de vídeo; 40% de alcance orgânico (sem publicidade paga); Crescimento de 3x em ‘engagement’.
A lição-chave disto tudo é que não precisam de ser clips profissionais pois o valor está no acesso exclusivo e no timing real da publicação.
A NASCAR nos EUA tam a ‘Fan Cam’, um sistema que permite que adeptos no circuito transmitam em direto via aplicação da NBC, os clips dos adeptos são selecionados e integrados na transmissão oficial, isto aumentou engagement em 40%+ entre audiências jovens.
Como poderia ser uma aplicação oficial ‘WRC Fan Video’? O adepto filma → aplicação wrc → metadados auto-preenchidos → upload rápido → revisão (direitos, qualidade) → aprovação manual, carregamento até 1 hora após a especial terminar, resolução mínima: 720p (smartphone moderno), duração: 15s a 2min (otimizado para redes sociais), geolocalização automática (já que o WRC tem GPS dos troços), Metatags automáticas (piloto, rali, especial)
Mas isto tudo com compensação e incentivos, por exemplo com pontos de fidelidade, por cada vídeo aceite, convertíveis em merchandising, tickets, subscrições, etc. Para muitos, o reconhecimento, ter o seu nome no vídeo (“vídeo por @username”) chegava. Podíamos ficar aqui o dia inteiro com sugestões.
Vai haver um novo Promotor, novas regras para o WRC27, talvez seja o ponto de partida para um novo começo. Um conselho, não olhem para o passado. Esse já não volta. Olhem para o que pode trazer o futuro…
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