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Sébastien Loeb: Razão ou coração?

José Luis Abreu by José Luis Abreu
24 Dezembro, 2013
in Ralis
A A
Sébastien Loeb: Razão ou coração?

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Pela primeira vez desde 1999, nove títulos mundiais depois e quase oitenta vitórias em provas do Campeonato do Mundo, Sébastien Loeb não vai estar presente no Mundial de Ralis. Este ano, nas quatro aparições que fez, venceu em Monte Carlo e na Argentina, foi segundo na Suécia e terminou a sua carreira nos ralis de rodas para o ar em França.

Assim sendo, a questão que se impõe é se serão os feitos do francês suficientes para que os adeptos o coloquem no Olimpo, onde constam nomes como McRae, Vatanen ou Toivonen? O que distingue um piloto de excelência de uma lenda dos ralis?

A segunda passagem por Silves, encerrava a primeira etapa do Rali de Portugal 2010. O gancho à direita após a passagem sob a auto-estrada A2 é um dos locais de eleição para assistir à prova, já que os mais rápidos “varrem” literalmente o terreno para negociar aquela curva apertada em escassos segundos. O vale que se ergue a partir dali, serve de anfiteatro natural a milhares de adeptos, que aguardam ansiosamente o recital da orquestra do WRC.

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O helicóptero da organização sobrevoava o local, deixando antever que o primeiro carro estaria prestes a passar. Instantes depois, surge Sébastien Loeb, que, num ápice, faz a aproximação ao gancho, levanta uma nuvem de pó e terra e inicia a subida. Os olhares atentos dos que acompanham a trajetória do Citroen revelam um misto de respeito pelo currículo do senhor que o conduz, mas ao mesmo tempo, uma certa desconfiança: que homem será aquele que não erra, que controla o seu andamento e o dos outros e em momento algum exterioriza o seu estado emocional? Será de carne e osso ou antes uma máquina concebida para vencer ralis?

Poucos minutos depois, surge o Ford de Jari-Matti Latvala. No público batem-se palmas e grita-se o seu nome. É incomparavelmente maior a exaltação manifestada à passagem deste jovem finlandês, que embora tenha no seu pecúlio menos de uma mão cheia de vitórias, parece ter conquistado o coração dos adeptos. Passam depois Hirvonen e Ogier e quem assiste, exclama com entusiasmo: “Agora é o Petter Solberg”. Uns de pé, outros sentados no chão, parecem agora mais impacientes. Quando o C4 amarelo surge no horizonte, ouvem-se gritos e a sua passagem no gancho salda-se por um misto de terra levantada e centenas de braços no ar empolgando e aplaudindo o espectáculo que acaba de ser proporcionado. Naquela famosa curva, pouco ou nada se viu do Citroen, mas tal não impediu que surgissem de imediato vozes dizendo “isto sim, é piloto!”, “que espectáculo!”, ou “és o maior Solberg!”

Por que razão cativará muito mais o estilo de Latvala, conhecido por exceder com frequência os seus limites e deixar o Focus “mal tratado”, ou ainda o de Solberg, cuja última vitória em provas do mundial aconteceu há cinco anos, em detrimento do de Loeb, cujos feitos serão dificilmente igualável pelas gerações vindouras? A resposta está na palavra carisma…

As qualidades do nove vezes campeão do mundo são indiscutíveis. Olhando para trás, dificilmente encontraremos pilotos com uma performance semelhante em todos os tipos de piso. Muitos dirão que nunca teve adversários à altura, outros lembrarão que não provou a sua superioridade conduzindo para outras marcas, mas é pouco crível que, num contexto competitivo mais exigente, o seu estilo sofresse alterações. Impermeável à pressão, o seu rosto testemunha a mesma tranquilidade, quer esteja a arriscar a vida fazendo um tempo canhão nas classificativas da região do Mosel, na Alemanha, ou sentado no sofá da sua casa na Suíça, a brincar com a filha. De Loeb ficamos com a sensação que os seus resultados acontecem sem esforço, não necessitando de atingir os seus próprios limites para ser mais rápido que os outros. Nele, tudo parece programado. Ataca apenas quando o planeou, não arrisca, muito menos erra e quando subia ao capot do seu Citroën para celebrar mais uma vitória, não manifesta qualquer regozijo, ficando no ar a ideia de que tudo aquilo estava previsto.

Falta ao francês o lado emocional do ser humano, bem vincado no comportamento de Latvala ou Solberg. Estes pertencem à estirpe dos que partem para um troço como se fosse o último das suas carreiras, dispostos a desafiar a vida em troca de um décimo de segundo. E quando retiram o capacete, o seu rosto é o reflexo do que lhes vai na alma. A história demonstra que o público sempre teve preferência por este tipo de personalidade e por isso vale a pena recordar alguns dos que mais contribuíram para despertar a paixão pelos ralis, tornando-se ídolos de milhões de adeptos nos quatro cantos do mundo.

Escola finlandesa

Impõe-se uma primeira referência aos pilotos nórdicos. Desde os idos anos 60, a Escandinávia, e mais propriamente a Finlândia tem produzido gerações de pilotos de eleição. De Aaltonen a Grönholm, ou de Mäkinen (Timo) a Mäkinen (Tommi), sem esquecer Mikkola ou Kankkunen, várias foram as estrelas a trazer encanto à competição. Graças a técnicas inovadoras como travar com o pé esquerdo, o ‘ponta tacão’ ou o ‘pêndulo’, estes homens superiorizavam-se aos seus pares desde as estradas geladas do Monte Carlo às longas picadas quenianas, ganhando a alcunha de ‘Finlandeses voadores’.

Deste naipe, destacamos os nomes de Ari Vatanen e Markku Alen. O primeiro, fazia dos ralis um desafio onde se andava a fundo do primeiro ao último metro. A sua impetuosidade custou-lhe vários acidentes, um dos quais quase mortal, na Argentina em 1985, mas para o homem que imortalizou o Ford Escort RS 1.8 ou o Peugeot 205 T16, só assim, a competição fazia sentido.

Markku Alen era um caso particular. Fruto da sua ligação de 25 anos ao grupo Fiat, sofreu uma curiosa aculturação, tornando-se no mais latino de todos os finlandeses. Com a rapidez característica do país de origem, Alen tinha no entanto um temperamento impulsivo que se refletia dentro e fora dos Fiat e Lancia. Talvez por isso, Alen sempre foi acarinhado pelos latinos, sentindo-se em casa em Itália ou Portugal, onde ainda hoje detém o recorde de 5 vitórias.

Furor latino

O sucesso deste desporto ficará também a dever-se a figuras incontornáveis do sul da Europa. Jean Luc Thérier, um dos mais prodigiosos pilotos do seu tempo detestava treinar, usando muitas vezes as notas dos seus colegas e amigos. No entanto, a pureza da condução do francês e a capacidade de improviso faziam-nos duvidar se os reconhecimentos seriam realmente necessários. Dificilmente esqueceremos a agilidade que evidenciava ao volante do Alpine A110 ou a astúcia com que dominava a rebeldia do Porsche 911.

E que dizer do seu compatriota Jean Ragnotti? Nas suas mãos, os Renault 5, 11 e mais tarde o Clio, pareciam brinquedos, embora muitas vezes, os adversários com carros bem mais potentes e com quatro rodas motrizes, não achassem muita piada à brincadeira…
Curiosa é o mínimo que se pode dizer da personalidade de Carlos Sainz. Fora do carro, o espanhol era sereno, analítico e calculista. Mas mal recebia ordem de partida, o cantar das notas de Luís Moya despertava em si o lado mais latino e a combatividade que lhe valeu a alcunha de ‘El Matador’. Só com um instinto matador lhe terá sido possível levar a Toyota aos triunfos numa era em que a Lancia passeava a sua hegemonia.

Os outros

Mas nem só de nórdicos e latinos se alimentou a fama dos ralis do campeonato do mundo. Colin McRae não era “carne nem peixe”, mas reunia virtudes das duas faces da moeda. Com técnica apurada e uma aparente tranquilidade imune a qualquer pressão, era na bacquet que o escocês mostrava de que fibra era feito. Excecionalmente rápido, aproveitava toda a ‘pista’ para expressar a sua arte e quem o via cortar uma curva, ficava com a sensação que dificilmente se poderia retirar mais partido do Impreza ou do Focus. Se as leis da física o impediram muitas vezes de chegar ao fim das provas, quando McRae estava em ‘dia sim’, era simplesmente imbatível.

Muitos poderão estranhar a inclusão de Walter Röhrl neste rol, já que será porventura aquele que mais semelhanças partilha com Sébastien Loeb. O seu lado frio, ponderado e cerebral justifica o difícil relacionamento com Markku Alen, companheiro de equipa nos anos da Fiat e Lancia. No entanto, os primeiros anos da década de 80 trataram de colocar o gigante alemão no topo das preferências dos adeptos. Nesta altura, a poderosa Audi impunha sem piedade a superioridade técnica do Quattro, mas o dotado Röhrl, conduzindo máquinas inferiores como o Opel Ascona 400 ou o Lancia Rally 037 conseguiu contrariar o favoritismo da marca alemã. A opinião pública rendeu-se a este duelo de ‘David contra Golias’ e, se no início da sua carreira, Rohrl apenas encontrava nas classificativas cartazes dos seus compatriotas com o célebre texto “Servus Walter”, depois dos anos de ouro da Opel e da Lancia conquistara tudo e todos. Quando se mudou para a Audi, em 1984, Röhrl tinha toda a comunidade dos ralis a seus pés, incluindo os directores das equipas adversárias.

O fenómeno Toivonen

Muitos outros pilotos haveria para recordar. Björn Waldegard, Armin Schwarz ou Gigi Galli são igualmente exemplos de uma condução genuína, mas não poderíamos terminar sem fazer referência àquele que se tornou no mais emblemático de todos os tempos: Henri Toivonen. Não restam dúvidas de que o filho do ex-campeão europeu dos anos 60, Pauli Toivonen, tinha no seu código genético a palavra Rally. Se a isto juntarmos o facto de ter nascido em Jyväskylä, uma das grandes capitais da modalidade, então, a probabilidade de Henri vir a seguir as pisadas do pai, era enorme.

Toivonen era um sobredotado. Aliava uma capacidade invulgar para colocar o carro na trajetória perfeita sem fazer grandes correções, a uma rapidez extraordinária. De trato humilde e afável, era no entanto atrás do volante que mostrava o seu verdadeiro carácter: um lutador destemido, obcecado por ser mais rápido que todos os outros e superar-se a si mesmo. O despiste em Sintra, quando liderava o rali de Portugal em 1984, com a prova ainda no início, batendo recorde atrás de recorde, é apenas um exemplo da forma como encarava a competição. Como esta, muitas ocasiões houve em que a sua impulsividade terá ido longe demais. No dia 2 de Maio de 1986, despistou-se quando comandava a Volta a Córsega. Toivonen e o seu navegador Sérgio Cresto não conseguiram libertar-se do cockpit em chamas do Lancia Delta S4 e a tragédia aconteceu. Deixava-nos o homem, nascia o mito…

Dificilmente, Loeb atingirá o nível de popularidade de Toivonen. Sendo ‘vítima’ das suas próprias qualidades, o francês não necessita de correr riscos ou abandonar o lado racional para atingir o seu propósito. Talvez por isso, a marca que deixará nas estatísticas do WRC, será sempre maior do que aquela que perdurará no coração dos adeptos…

Por Nuno Branco

Tags: Sébastien Loeb
José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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