Hoje, a Baja Espanha Aragon já faz parte da memória longa do todo-o-terreno, mas a vitória de Carlos Sousa continua a ter um peso próprio: foi o primeiro triunfo português “fora de portas” numa prova da Taça do Mundo e surgiu após anos de insistência, dois segundos lugares e uma relação quase obstinada com a prova de Saragoça. Vinte e dois anos depois, o feito mantém intacta a sua dimensão: não foi apenas uma vitória, foi a confirmação de que um português podia impor-se num dos palcos mais exigentes da disciplina.
Sousa foi no ano passado secundado por João Ferreira, que com Filipe Palmeiro ao lado e na sua Toyota Hilux, voltou a inscrever um nome português no lugar mais apetecível, o primeiro.

A corrida que faltava ganhar
Carlos Sousa venceu ao volante de um Mitsubishi Pajero Evolution oficial, depois de um duelo com Khalifa Al Mutaiwei e de uma gestão de corrida que misturou velocidade, contenção e resistência. A vantagem chegou a ser confortável, mas um pneu dianteiro começou a inchar com o calor e obrigou o português a parar em plena especial para o substituir, perdendo tempo e acabando por percorrer os derradeiros quilómetros no pó do BMW X5 do adversário. Ainda assim, segurou o comando até ao fim e fechou a prova em 10h10m03s, com 1m37s de margem sobre o emiradense.

No final, Sousa explicou que não esperava um desfecho tão exigente. “Durante toda a prova controlei o andamento”, recordou, acrescentando que o problema do pneu o obrigou a uma paragem improvável em plena especial. “Não quis tentar a ultrapassagem, que era desnecessária, mas fiquei na dúvida se ele estava a preparar-se para atacar em qualquer altura”, disse, sobre os quilómetros finais em ritmo de contenção.
O peso do contexto
A vitória teve ainda mais significado porque chegou num período em que o futuro do piloto na Mitsubishi era discutido no paddock, com rumores sobre a eventual entrada de Luc Alphand a lançar incerteza sobre a sua presença no próximo Dakar. Ao mesmo tempo, a corrida mostrou a profundidade da armada portuguesa: Luís Costa impressionou logo no prólogo e voltou a destacar-se antes de abandonar por um problema mecânico; Filipe Campos protagonizou uma recuperação notável depois de um despiste; Madalena Antas e Carlos Oliveira também deixaram marca na prova.
Um triunfo com legado
O resultado final deu a Sousa mais do que um troféu. Deu-lhe estatuto, projeção internacional e uma prova clara de maturidade competitiva. Com três vitórias e um terceiro lugar em quatro presenças ao volante do Pajero oficial, o português consolidou uma relação de sucesso com a máquina e com a prova. Duas décadas depois, a imagem que fica é a de um piloto que venceu com inteligência, resistência e uma frieza raramente visível no calor de uma Baja.
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