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F1: Um novo reinado começa | AutoSport

F1: Um novo reinado começa

Por a 4 Dezembro 2022 19:00

2022 foi o ano do arranque de uma nova era. Uma nova filosofia que foi finalmente implementada e que nos deu um novo tabuleiro em que o xadrez da F1 foi jogado com novas regras, novos jogadores… e com um novo rei.

A nova era chegou! Depois de indefinições, adiamentos e muito trabalho, o novo capítulo da F1 iniciou-se. A primeira era 100% orquestrada e definida pela Liberty Media, depois de um longo trabalho de investigação, em que os novos regulamentos técnicos foram criados como nunca antes, a F1 deu finalmente o passo desejado. A popularidade do Grande Circo foi aumentando desde a entrada da Liberty, que abriu o espetáculo a todos os fãs, mas faltavam as lutas em pista, com a Mercedes a dominar de forma inquestionável a competição. Oito épocas de um reinado em que ninguém teve a astúcia para destronar os Flechas de Prata do lugar mais alto. Sete épocas em que o vencedor era quase definido à partida e uma última época de despedida em que a luta Red Bull vs Mercedes atingiu uma intensidade que nem nos chamados “tempos de ouro” vimos. Enquanto esse reinado era testemunhado por todos, Ross Brawn criou uma espécie de equipa de competição da F1, com engenheiros da sua confiança ao leme (Pat Symonds como figura de proa) com a missão de criar um carro que permitisse melhores corridas, com custos controlados. Se até aqui os regulamentos eram definidos com a contribuição dos engenheiros das equipas e da FIA, numa mescla que resultava invariavelmente em carros interessantes do ponto de vista técnico, mas pouco capazes de darem bons espetáculos, a ideia para 2021, entretanto adiado para 2022 (Pandemia oblige) era que os engenheiros das equipas recebessem um regulamento técnico feito pela F1, em que os interesses da competição fossem colocados acima dos interesses dos engenheiros e das respetivas equipas.

Uma nova era olhada de lado

O entusiasmo da nova era foi regularmente refreado com opiniões menos positivas. Falou-se em regulamentos demasiados restritivos, com carros mais lentos e com um aspeto demasiado semelhante, numa espécie de downgrade encarado com desconfiança depois da espetacular época 2021. Mas a Liberty e a equipa de Ross Brawn continuou a trabalhar diligentemente para limar arestas e apresentar um regulamento cujo objetivo era diminuir custos da competição, restringindo de forma severa o desenvolvimento em certas áreas dos carros, com um conceito aerodinâmico diferente e inspirado nos anos 80 em que o fundo dos carros tinha o papel primordial na geração de apoio aerodinâmico, reduzindo a problemática do ar sujo, que obrigava os pilotos a manter distâncias para o carro que perseguiam, para não estragarem irremediavelmente os pneus, devido à diminuição dos níveis de apoio aerodinâmico. Mais lutas roda com roda, perseguições mais intensas e, por conseguinte, mais duelos em pista.

As interpretações das equipas foram reveladas no início de março e para surpresa geral, vimos em pista 10 propostas diferentes de dez equipas que interpretaram o regulamento à sua maneira. Os carros eram mais pesados, menos ágeis e menos elegantes, mas permitiam que os pilotos pudessem seguir-se de muito mais perto. Eram carros que também saltitavam muito mais, com o efeito porpoising, que entrou no léxico dos fãs da F1 e que deu dores de cabeça às equipas menos preparadas para minimizar o efeito.

Novo ano, nova ordem

Depois dos testes de pré-temporada a opinião era unânime. A F1 tinha baralhado e voltado a dar e o resultado era uma ordem competitiva diferente. Ferrari e Red Bull assumiram-se desde cedo como as favoritas, a Mercedes caiu na tabela, a braços com o problema do porpoising, motivado por um monolugar radicalmente diferente, sem flancos. O duelo Ferrari vs Red Bull iria animar o ano, com a Mercedes a tentar recuperar o lugar no topo. No segundo pelotão, a Alpine apresentou-se competitiva, a McLaren penava com problemas de travões, a Haas e a Alfa Romeo surpreendiam com carros muito bem nascidos, a Aston Martin falhou completamente a sua abordagem e teve de começar quase do zero, a Alpha Tauri parecia ter potencial e a Williams estava destinada a manter-se nos últimos lugares.

O excesso de peso dos carros (todos muito acima do mínimo exigido), a gestão do porpoising e a fiabilidade, com novos motores que usam agora uma percentagem maior de etanol, eram os pontos fulcrais do desenvolvimento das equipas. Quem conseguiu acertar nestas equações de forma mais eficiente deu um salto na tabela classificativa. E a Red Bull foi a equipa que melhor conseguiu resolver os desafios do início do ano.

Declínio da Ferrari, Red Bul imparável

A Ferrari começou muito forte, com boa fiabilidade e com um ritmo muito forte enquanto a Red Bull penava para terminar corridas. Parecia que finalmente este seria o ano da Ferrari, com Mattia Binotto sob pressão. Começou a desenhar-se um duelo Max Verstappen vs Charles Leclerc que animou a primeira metade do ano. Leclerc liderou o campeonato nas primeiras cinco provas do ano, mas perdeu o lugar no trono para Verstappen no GP de Espanha. Desde então, o campeão neerlandês de 2021 iniciou uma caminhada imparável até ao título. A Ferrari começou a mostrar fragilidades, especialmente ao nível da fiabilidade e começou a perder terreno para os Bulls. Leclerc tentou o melhor que pôde manter-se na luta, mas a pausa de verão fez mal à Ferrari com a introdução de uma nova diretiva técnica que regulava de forma mais apertada a flexibilidade dos fundos, para evitar o porpoising que foi tema central nas primeiras 11 corridas, com a integridade física dos pilotos a ser potencialmente colocada em causa, o que obrigou a FIA e a tomar medidas. A Ferrari perdeu competitividade e a Red Bull lançou-se para a conquista do bicampeonato de Verstappen, com quatro corridas para o fim da época e o campeonato de construtores na corrida seguinte. Verstappen tornou-se campeão, quebrou o recorde de vitórias numa época e terá dado início a uma era de domínio da Red Bull, a fazer lembrar o período de 2010 a 2013. A Ferrari foi-se afundando e o que era antes uma luta pelo título, transformou-se numa luta pelo segundo lugar (pouco para o potencial demonstrado, o que ditou mais uma crise na equipa, com a saída de Mattia Binotto no final da época), com a Mercedes a regressar aos primeiros lugares. No campeonato de pilotos a luta mais interessante passou a ser pelo segundo lugar, entre um frustrado Leclerc e um Sergio Pérez, que pediu ajuda a Verstappen no GP do Brasil para ganhar mais pontos, pedido que não foi aceite. Leclerc acabou como vice-campeão e Pérez contentou-se com o terceiro. Mesmo com a ajuda de Verstappen, não teria conseguido o segundo lugar, mas a relação entre os pilotos poderá ter ficado beliscada.

Na Mercedes, Lewis Hamilton e George Russell tentaram de tudo para ajudar a equipa e fizeram um trabalho tremendo, mas não foi o suficiente para se aproximarem do segundo posto, que ficou para a Ferrari. Russell conseguiu a sua primeira vitória na F1, o coroar de uma bela época em que Hamilton, já sem coroa, não venceu uma corrida sequer, algo que nunca tinha acontecido na sua carreira na F1.

As lutas do segundo pelotão

Nas lutas do segundo pelotão, o confronto Alpine vs McLaren foi o mais intenso. A Alpine com dois pilotos em forma, mas com uma fiabilidade horrível (que levou Fernando Alonso a assinar com a Aston Martin para 2023), contra uma McLaren em apuros com o seu carro, mas com uma regularidade tremenda. A Alpine ficou com o “título do segundo pelotão” (quarto lugar), mas a distância para a McLaren foi apenas de 14 pontos. Se Daniel Ricciardo tivesse tido uma época decente, a McLaren teria ficado na frente (e Ricciardo não teria sido trocado por Oscar Piastri, que motivou uma das novelas da época).

A Alfa Romeo viveu dos lucros da primeira metade da época (era o carro mais leve daquela altura) e conseguiu aguentar o sexto lugar, ameaçado por uma Aston Martin que melhorou muito com uma nova versão do seu monolugar (inspirada no RB18 da Red Bull), naquela que foi a última época de Sebastian Vettel na F1, com o tetracampeão a despedir-se da F1 e a deixar um vazio difícil de preencher.

A luta pelo oitavo lugar foi entre a Haas e a Alpha Tauri, e quem levou a melhor foi a Haas, que teve um arranque de época duro, com a saída polémica de Nikita Mazepin para a entrada de Kevin Magnussen, que consegui dar bons pontos à equipa e uma inusitada pole position no Brasil, a primeira da sua carreira e da Haas. A Williams contentou-se com o último lugar, mas ganhou um bom piloto para o futuro, com Alex Albon a revelar-se muito importante para a equipa.

Assistimos às saídas de Mick Schumacher, Nicholas Latifi e Daniel Ricciardo das suas equipas, para a entrada em 2023 de Nico Hulkenberg, Logan Sargeant e Nyck de Vries, três entradas surpreendentes, além da ida de Pierre Gasly para a Alpine.

Foi uma época apaixonante, com polémica à mistura, como foi o caso do limite orçamental da Red Bull, que fez correr muita tinta. Mas foi uma época interessante de seguir, com excelentes corridas e com a certeza que esta nova regulamentação cumpriu com os objetivos propostos e que nos deu (e poderá dar ainda mais) corridas de qualidade. A F1 está bem e recomenda-se.

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