F1, Red Bull: Fim de ciclo na pior altura

Por a 11 Julho 2025 13:22

A saída, pouco surpreendente, mas, ainda assim, chocante de Christian Horner, coloca a Red Bull numa situação delicada. A saída do seu líder de sempre poderá desnortear ainda mais uma estrutura que há quase dois anos procura estabilidade, sem o conseguir.

O que aconteceu?

Christian Horner foi despedido da Red Bull Racing após quase 20 anos como chefe de equipa, numa decisão que refletiu meses de tensão interna, escândalos abafados e perda de apoio político. A sua saída foi precipitada por uma mudança na estrutura acionista: o acionista maioritário tailandês (Chalerm Yoovidhya) vendeu parte das suas ações, permitindo à “ala” austríaca ( avançar com a demissão, numa realção que se deteriorou severamente desde a morte de Dietrich Mateschitz.

Entre os fatores que contribuíram para o afastamento estão acusações de comportamento impróprio, que se tornaram num escândalo que quase levava à queda de Horner, alegadas conversas com outras equipas (como Alpine e Ferrari), a deterioração da relação com Adrian Newey (que também saiu da equipa) e dúvidas sobre o futuro técnico, especialmente o projeto de 2026 com a Red Bull Powertrains.

A saída de Horner ocorre num momento delicado, com o futuro incerto para a equipa e para Max Verstappen, que ainda não se pronunciou definitivamente sobre 2026. A nomeação rápida de Laurent Mekies como sucessor foi criticada, e há divisões no paddock entre os que lamentam a saída e os que veem uma oportunidade de renovação.

Como fica a Red Bull?

Numa palavra: desmembrada. O triunvirato que elevou a Red Bull ao topo da F1 desfez-se: Newey está na Aston Martin, Horner foi “despachado” e sobra Marko cujo papel irá ser cada vez menor, dada a sua idade. O que fez da Red Bull uma estrutura forte foi a estabilidade e esse conceito tornou-se estranho em Milton Keynes. A liderança foi obliterada pela guerra interna e a Red Bull encontra-se no seu maior momento de fragilidade.

A saída de Adrian Newey foi um golpe, mas do referido triunvirato, era a peça que mais facilmente poderia ser substituída. A Red Bull ensaiou várias vezes a possibilidade de Newey sair, sempre sem sucesso diga-se, mas apesar de ser uma área delicada, há muito talento na F1 que pode fazer um trabalho semelhante ao de Newey. Mas desde o escândalo Horner, que foi apenas um dos pontos altos da instabilidade interna, outros nomes importantes saíram: Jonathan Wheatley, que agora lidera a Sauber (Audi em 2026), Rob Marshall (que ajudou a tornar a McLaren na equipa mais forte da atualidade), Will Courtenay (que também se mudou para a McLaren) tiraram demasiada força à estrutura. Mas havia ainda um farol… Horner.

Mais do que a saída de um líder

Amado por uns, odiado por outros, Horner tornou-se numa referência na F1. Liderou a transformação de uma equipa de meio de tabela para uma das estruturas técnicas e desportivas mais fortes. Horner era inteligente, feroz na defesa dos seus interesses, um animal político que, em confronto direto com outros diretores de equipa, levava quase sempre a melhor. A Red Bull fez-se forte, graças aos pontos fortes de Horner, que nunca fugiu às polémicas e até se destacava na pressão mediática. A Red Bull perdeu o homem do leme que, apesar de questionado por muitos, ainda tinha uma boa base de apoio do staff da equipa. E, no mundo do desporto, é normal que a seguir a um “longo reinado” se siga um período de tormentas. Horner nunca foi nem nunca será consensual. Mas tornou-se num dos grandes chefes de equipa da F1 com a sua visão, astúcia e determinação. A liderança de Horner estava fragilizada e seria muito difícil voltar a ter o apoio para dar a volta ao texto. Mas com a ajuda certa, teria provavelmente conseguido.

Talvez Horner tenha sido vítima do seu sucesso, achando-se intocável, mesmo em escândalos como o das mensagens. Mas ainda parecia ser a melhor aposta da equipa para um regresso ao topo a breve trecho.

O que está em jogo?

Além das dificuldades técnicas evidenciadas na falta de competitividade do monolugar deste ano, a equipa enfrenta problemas operacionais. Desde a saída de Jonathan Wheatley, erros de pitstop têm sido mais frequentes. A estratégia também perdeu a consistência de outros anos, com algumas decisões questionáveis. O ambiente interno deteriorou-se, com lutas de poder e frustrações acumuladas.

A equipa está agora profundamente dependente de Max Verstappen, que continua a ser o único piloto capaz de extrair performance do carro. Isso criou um ciclo vicioso: como apenas Verstappen entrega resultados, o carro evolui com base no seu feedback, tornando-se ainda mais difícil para qualquer outro piloto ser competitivo. A eventual saída de Verstappen forçaria a Red Bull a repensar toda a sua filosofia técnica e de desenvolvimento.

Outro grande desafio é o projeto do novo motor em parceria com a Ford. Embora promissor e pensado como um investimento de longo prazo, os primeiros anos — especialmente 2026 — serão um teste exigente. A Red Bull quer tornar-se completamente independente, evitando problemas como os enfrentados no passado com Renault e Honda, mas admite que bater fabricantes experientes desde o início será muito difícil. Basta relembrara o regresso da Honda, penoso e difícil, com vários anos de falhas sucessivas até chegar a uma fórmula vencedora. É preciso tempo e a Red Bull acabou de perder a estabilidade que traz paciência.

Em resumo, apesar de haver talento na área técnica, a Red Bull não consegue fazer um carro verdadeiramente competitivo, dependendo de Verstappen para ter sucesso. Toda a atenção se virou para Verstappen e o pai, Jos, foi sempre um acérrimo defensor da saída de Horner. Parece que, mais uma vez, o clã Verstappen levou a melhor. Mas se Max ficar na equipa, estando aparentemente reunidas agora mais condições para ele ficar, 2026 vai ser um ano crucial. Se a unidade motriz Ford ficar abaixo das expetativas, não será difícil outra equipa de topo convencer o prodígio neerlandês a mudar-se. E se isso acontecer, a Red Bull, fica sem a sua estrela, com uma liderança enfraquecida, uma unidade motriz em início de vida, num momento delicado. Não nos podemos esquecer que a Red Bull sobreviveu à “fase Renault” no início da era híbrida graças ao tal triunvirato que agora não existe.

O novo líder

O novo chefe de equipa, Laurent Mekies, herda um cenário complexo e ingrato. Mais do que resultados imediatos, a sua missão é restaurar a estabilidade, resolver os conflitos internos e reconstruir a cultura da equipa. O momento atual é comparável ao que a McLaren viveu há alguns anos: um fundo do poço que pode dar origem a um novo ciclo de sucesso. Mas nessa fase, nomes como Éric Boulier e Jost Capito e que foi preciso Zak Brown, com toda a sua força e determinação, tomar as decisões certas.

Ora a Red Bull não parece ter, neste momento, o seu “Zak Brown” para operar a reestruturação. Mekies não parece ter os argumentos que Horner tinha e a sua herança é pesada… talvez demasiado até.

A Red Bull entra, assim, numa fase de transição profunda. O futuro passa por reconstruir, a partir das lições de 2025, apostar no projeto de motor próprio e definir se Max Verstappen fará parte da próxima era de sucesso — ou se será necessário recomeçar quase do zero, sem Horner e, eventualmente, sem o seu piloto estrela.

Caro leitor, esta é uma mensagem importante.
O Autosport já não existe em versão papel, apenas na versão online.
E por essa razão, não é mais possível o Autosport continuar a disponibilizar todos os seus artigos gratuitamente.
Para que os leitores possam contribuir para a existência e evolução da qualidade do seu site preferido, criámos o Clube Autosport com inúmeras vantagens e descontos que permitirá a cada membro aceder a todos os artigos do site Autosport e ainda recuperar (varias vezes) o custo de ser membro.
Os membros do Clube Autosport receberão um cartão de membro com validade de 1 ano, que apresentarão junto das empresas parceiras como identificação.
Lista de Vantagens:
-Acesso a todos os conteúdos no site Autosport sem ter que ver a publicidade
-Desconto nos combustíveis Repsol
-Acesso a seguros especialmente desenvolvidos pela Vitorinos seguros a preços imbatíveis
-Descontos em oficinas, lojas e serviços auto
-Acesso exclusivo a eventos especialmente organizados para membros
Saiba mais AQUI

Deixe aqui o seu comentário

últimas FÓRMULA 1
últimas Autosport
formula1
últimas Automais
formula1
Ativar notificações? Sim Não, obrigado