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Entrevista Toto Wolff: “Existem muitas razões para a F1 estar a perder audiências”

José Luis Abreu by José Luis Abreu
30 Dezembro, 2016
in F1, FÓRMULA 1, Newsletter
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Entrevista Toto Wolff: “Existem muitas razões para a F1 estar a perder audiências”

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Na ressaca de uma temporada complicada, Toto Wolff conversou com o AutoSport relativamente a vários assuntos, ainda antes da ‘bomba’ Nico Rosberg. As expetativas da Mercedes, os desafios da Fórmula 1 e algumas das decisões mais controversas que teve de tomar enquanto líder da equipa. Por exemplo, Spa 2014.

Sente-se aliviado por ter trazido sucesso para a equipa ou mais pressionado para manter a senda de conquistas?
Quando eu assumi estas funções em 2013, o objetivo era vencer corridas e sermos percecionados como uma das equipas da frente. Vencemos três provas e esse propósito foi atingido, fazendo com que a ambição para o ano seguinte passasse a ser vencer um campeonato do mundo. Conseguimo-lo em 2014 e depois novamente em 2015 e 2016, provando que não tinha sido um acaso. Estes eram os principais objetivos, e a pressão era certamente muito mais elevada em 2013 e 2014 para entregá-los. Agora é mais sobre como desenvolver a organização, e garantir sucesso a longo prazo.

Como planeia fazê-lo?
Garantindo que não estamos dependentes de uma única pessoa, porque se retirou, porque foi para outro lado ou porque simplesmente se aborreceu. Temos grandes talentos a subir que serão capazes de preencher essas vagas. Estamos a investir em programas universitários e recém-licenciados com muitas universidades de topo, e esta tem sido uma das coisas que eu mais tenho gostado de implementar. Quero lidar com uma organização que pode entregar sucesso por muitos anos. Daqui a vinte ou trinta anos, gostaria que as pessoas pudessem dizer que a Mercedes está sempre ali, à espreita de títulos ou de vitórias. É claro que não iremos ganhar todos os campeonatos ou vencer corridas todos os anos. Isso não seria bom nem para nós, nem para a Fórmula 1. Mas gostaria que fôssemos uma equipa que é uma grande parte deste desporto, e que está continuamente a entregar sucesso para a marca Mercedes-Benz. De modo a consegui-lo temos de inovar e garantir que temos as pessoas corretas na nossa organização.

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Se tivesse que selecionar uma decisão desde que se encontra à frente da equipa de Fórmula 1 da Mercedes, qual seria?
Existiam muitas pessoas de altíssimo nível antes de eu chegar. Acho que houve uma mudança fundamental em 2012 quando se adicionaram à organização indivíduos que de certa forma a tornaram mais completa. Se me pedes para escolher uma única decisão, diria que é o facto de a Daimler ter confiado em nós no queríamos fazer em investigação e desenvolvimento. Quando eu cheguei havia um número no papel e nós gastámos o triplo. A Daimler confiou em nós e isto teve um papel fundamental. Se não tiveres dinheiro não podes vencer. Mas este não te garante o sucesso, porque podes gastá-lo no sítio errado, falhar no impacto das regras ou criar a inovação errada. No entanto, penso que essa foi a razão mais importante do nosso sucesso.

Acredita que a era híbrida da F1 e o domínio da Mercedes é um dos motivos para a disciplina estar a perder adeptos?
Não acreditamos que seja a principal razão. Mas penso que devemos discutir se os motores são suficientemente ruidosos, e que temos de encontrar uma solução para que a Red Bull não fique sem um motor. Isso também é justo. No entanto, acredito que o processo é bastante robusto, e que esta história dos construtores de motores terem todo o poder é apenas uma coisa que está a ser assinalada. É muito fácil apontar para apenas um alvo e responsabilizá-lo por isso. Existem muitas razões para estarmos a perder audiências: temos um processo de decisão errático, em termos de regulamentos estamos a deparámos-nos com um ambiente informativo totalmente distinto, em que o conteúdo digital, e as redes sociais, estão a ser muitos mais acolhidas pelas gerações mais novas, e penso que estamos a ter um problema com a televisão e com os média tradicionais, a imprensa e a televisão. Depois, estar sentado às 14h à frente de uma televisão num domingo à tarde, no verão, é o horário correto? Não acredito que seja. E depois obviamente se uma equipa é dominante e não existe muita ação em pista isso também não ajuda. Portanto, eu poderia nomear 20 ou mais razões para que a Fórmula 1 e muitos outros desportos e conteúdos tenham hoje um problema.

Mas o Toto Wolff adepto do desporto automóvel, o antigo piloto, pensa que a Mercedes deveria ganhar menos para atrair mais pessoas?
Sim. Mas não sei como mudar isso. Penso que deveriam de haver mais luta em pista, mais equipas capazes de vencer corridas. O ‘underdog’ capaz de vencer a prova ocasional ou de conseguir o resultado impossível. Acredito que isso seria muito bom para o desporto. Mas não tenho a solução, até porque estou a pensar na “estrela” enquanto digo isto.

Acredita que todos têm os seus próprios interesses e que isso nem sempre conduz às decisões corretas?
Sim, claro. Por vezes cada equipa tenta virar o jogo mais para o seu lado. Mas, novamente, a minha opinião fundamental é que se, por exemplo, continuarmos a aumentar o peso do carro, em breve teremos um LMP1, protótipos. Nos melhores dias da Fórmula 1 os carros tinham menos de 600 kg – 580 kg. E agora acabamos de mudar as regras para passarmos de 702 para 722 kg. Parece desleixado. E é por isso que nos apresentámos contra estas mudanças.

O Bernie Ecclestone e o Jean Todt têm visões muito distintas acerca do futuro. Acredita que isso é positivo ou que eles deveriam de atuar em uníssono?
Penso que todos deveríamos estar mais unidos na forma como, em primeiro lugar, nos dirigimos ao público. Podemos ter muitas divergências, mas penso que não é correto sermos críticos e falarmos mal do desporto à comunicação social.

O que falhou?
Há quatro anos deveríamos ter pensado melhor nas regras e dado as indicações corretas às equipas no que diz respeito ao desenvolvimento dos motores. Agora fechámos a porta e deitámos a chave ao rio. Por isso é tempo de fazer o melhor com o que temos.

Acredita que o som dos motores é realmente uma grande questão para o sucesso da Fórmula 1, ou apenas algo para distrair atenções do essencial, que são as corridas e lutas em pista?
Na minha opinião pessoal, o som tem um impacto. Todos nós gostamos de carros AMG porque eles têm um som agradável. Talvez seja um fenómeno das gerações mais velhas – na qual eu me incluo – de que, quando ouvimos um carro a fazer um enorme barulho, ficamos entusiasmados. Mas não tenho a certeza de que os nossos filhos estejam interessados no barulho ou que irão estar no futuro. No entanto, hoje, se perguntarmos a uma criança como soa um carro, ele vai-te dizer “bruum, bruum”. Portanto penso que o barulho desempenha um papel, em termos da perceção da velocidade, e isso não foi considerado atempadamente quando desenvolvemos estes motores. Mas quero realçar que não existe barulho porque os gases de escape estão a ser reconvertidos em energia. E é para aqui onde vai o futuro e de onde extraímos mais potência. A consequência é que os carros não soam como no passado, emitindo um ruído muito alto. Penso que existem formas de aumentar o barulho. Mas isso iria provavelmente ter um impacto na nossa performance e é por isso que não te posso dizer quais.

Como foi possível gerir dois pilotos como Nico Rosberg e Lewis Hamilton?
Em determinada altura mudei a minha abordagem porque aceitei que existia uma rivalidade intensa. Eles estão sentados no mesmo carro e têm como objetivo serem campeões – não podemos esperar que sejam os melhores amigos. O que tivemos de evitar era grandes oscilações. Eles tiveram de compreender que existe uma equipa por trás. Nós também ficámos mais relaxados. Sabes, eu era inexperiente quando vim para este cargo e a pressão era enorme para entregar sucesso. E depois fomos para 2014, estávamos quase a vencer o campeonato, e eles do nada têm uma colisão em Spa. E de repente tu tens aquela visão de teres perdido o campeonato porque és um idiota. E é por isso que talvez a forma como entrámos e controlámos a situação foi um pouco dura. Depois passou a haver maior ligeireza no que fizemos. Conhecemos-nos muito melhor, existiu respeito e comunicámos. E por causa disso foi mais fácil lidar com a situação. Mas não tenho qualquer dúvida de que existirão sempre momentos difíceis à conta da rivalidade, sejam quais forem os pilotos e não há qualquer problema com isso, pois no mínimo devemos isso à F1.

O que nos pode dizer de Pascal Wehrlein e Esteban Ocon?
Estamos muito contentes com eles. Eu tenho uma grande consideração pelo Pascal, enquanto piloto e pessoa. Penso que fez um trabalho muito bom para nós enquanto piloto de testes, e venceu o DTM – o que prova que ele não só tem a velocidade, mas também a inteligência para vencer campeonatos, sendo que o DTM é um dos mais disputados do mundo. Agora espero que continue o seu processo de aprendizagem, lentamente. Ele foi atirado a águas totalmente distintas: a Manor é uma entidade muito mais pequena, mas com ótimas pessoas e grandes objetivos, e penso que o Pascal tem de continuar a provar que pode ser um piloto número 1. Se o conseguir penso que ele terá um futuro brilhante pela frente. O Pascal e o Esteban [Ocon] são o futuro da Fórmula 1. O Esteban venceu muitos campeonatos de fórmulas. É um grande talento e provavelmente era o ano passado o melhor piloto disponível no que respeita ao currículo. É também um bom miúdo e tem uma boa personalidade, que encaixa na marca Mercedes…”

Tags: Toto Wolff
José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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