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Ayrton Senna, 30 anos: Do karting até à Toleman

José Luis Abreu by José Luis Abreu
11 Abril, 2024
in F1, FÓRMULA 1, Newsletter, Sapo
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Ayrton Senna, 30 anos: Do karting até à Toleman

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As memórias que Ayrton Senna tem de fazer corridas são antigas. Antes de ir para a escola, já sabia que queria ser piloto, e assim que começou a correr a sério, decidiu também que um dia ia ser campeão do mundo, a qualquer custo

Oficialmente, Ayrton Senna da Silva começou a competir em karts aos 13 anos, idade mínima obrigatória para tirar uma licença no Brasil. Na verdade, o jovem Ayrton ainda era conhecido em casa como Beco (a alcunha da família) quando conheceu a sensação de andar a alta velocidade.

Alta velocidade… mas não tanta assim. Ayrton recebeu o seu primeiro kart, um presente do seu pai, aos 4 anos de idade. Era de construção artesanal e tinha apenas 1 cv de potência, mas serviu para o futuro campeão se familiarizar com o conceito de conduzir. Como criança que era, foi aprendendo alguns truques, mas estes só se manifestaram anos mais tarde quando entrou em competições oficiais. Claro que, antes disso, Senna já tinha começado a correr. Aos 8 anos recebeu um kart verdadeiro e participou numa prova particular. Com metade da idade e metade do peso dos seus adversários, tinha uma grande vantagem em relação aos outros, tanto que os deixou irritados, ao ponto de um deles o colocar para fora da pista. Para Senna, na altura foi apenas um fim de semana. Apenas uma curiosidade: a grelha de partida foi tirada por sorteio e a Ayrton calhou a pole position, a primeira da sua carreira.

Campeão caseiro
A estreia em provas oficiais foi a 1 de julho de 1973, em Interlagos. O pai de Ayrton, Milton da Silva, não gostava de coisas feitas pela metade. Se era para competir, seria com as devidas condições, e o preparador Tchê Gascon é convidado para cuidar dos karts do jovem Senna. Os dois continuaram a trabalhar duram oito anos, saltando das pistas brasileiras para os palcos internacionais. Senna e Tchê passavam todo o tempo possível juntos, para aprender todos os pormenores de afinação de um kart, onde uma alteração mínima pode fazer uma grande diferença em termos de velocidade. Ayrton tinha aprendido com o pai esta dedicação ao trabalho, e sabia que a atenção ao pormenor era necessária para o seu único objetivo em cada corrida: ganhar.
Os títulos não demoraram a surgir. Depois dos campeonatos de inverno em 1973, Senna venceu o Paulista na categoria junior pela primeira vez em 1974. Nas pistas, encontrou o seu primeiro grande adversário, Maurizio Sandro Sala. Em 1977, finalmente, participou numa competição internacional, o Campeonato Sul-Americano de 100 cm3. Não conseguiu correr com o seu sortudo número 42, mas isso não o impediu de vencer com facilidade. Ao contrário dos seus adversários, Senna conhecia realmente os limites de um kart, na travagem e nas curvas.
Apenas o título mundial falhou a Senna. O brasileiro tentou cinco vezes, entre 1978 e 1982. Esteve mais perto em 1979, no Estoril, quando venceu a final. Senna festejou como campeão, mas a organização decidiu atribuir o título ao holandês Peter Koene, pois ambos terminaram a prova com o mesmo número de pontos, mas com a justificação que este foi melhor nas eliminatórias.

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Conselho de amigo
Em 1981, passou finalmente para os automóveis. Senna seguiu o conselho de Chico Serra e mudou-se para Inglaterra. Pela influência de Serra, garantiu um lugar na equipa oficial da Van Diemen. Logo no ano de estreia na Fórmula Ford 1600, participou em 20 corridas, ganhou 12 delas (a primeira das quais à chuva) e venceu dois campeonatos (um patrocinador pela TownsendThoresen e outro pelo RAC).
Mas o mais importante foi a impressão que deixou no seu chefe de equipa, Ralph Firman. Ao contrário de outros pilotos, Senna passava muito depressa da aprendizagem à aplicação, estabelecendo logo uma boa relação de trabalho com o seu mecânico de corrida. Senna ‘queria’ coisas. As peças eram afinadas conforme as suas necessidades, e ele sabia logo onde ia dar mais resultado.
Foi também nesta época que Senna conheceu o fotógrafo Keith Sutton. Pode-se dizer que ambos descobriram um ao outro, e Sutton passou a fazer as fotos de imprensa do piloto brasileiro, que já com 21 anos demonstrava uma grande preocupação com a imagem.
No final de 1981, sem patrocínios, Senna considerou seriamente parar de correr, e o pai colocou-o a trabalhar numa empresa. Mas acabou por ter mais apoios do que esperava para voltar. Maurizio Sandro Sala, seu adversário das pistas e amigo fora dela, MauricioGugelmin, que conheceu nos karts e que se tornou seu protegido, mesmo Ralph Firman, que insistia todos os dias para ele voltar, e até da sua família. Senna negociou um contrato baratíssimo para correr na Fórmula Ford 2000, de apenas dez mil libras, e pagou a aposta vencendo o título britânico com 14 vitórias em 19 corridas, além de vitórias ocasionais no Campeonato Europeu.

Aprender autocontrolo
Com o título no bolso, Senna foi cortejado pela Toleman e pela McLaren, que o queriam colocar como piloto de testes da equipa de F1, mas recusou ambas as propostas e fez uma corrida extra-campeonato de Fórmula 3 no final de 1982 pela West SurreyRacing. A vitória garantiu-lhe um lugar na equipa gerida por DickBennetts, que na altura era a melhor do paddock.
A primeira metade da temporada de 1983 na F3 Britânica foi completamente dominada por Senna, de um modo que nunca antes tinha sido visto, vencendo as primeiras nove corridas. Até que, finalmente, numa corrida em Silverstone, o seu grande adversário Martin Brundle conseguiu finalmente batê-lo. A resposta de Senna foi pouco característica. Nervoso por não estar em primeiro lugar, começou a cometer exageros e a ter acidentes. Um deles, em Snetterton, foi quando Senna tentava ultrapassar o piloto inglês, resultando numa colisão entre os dois. O mesmo voltou a acontecer noutra prova em OultonPark. Brundle estava a recuperar terreno no campeonato e Bennetts demorou algum tempo a convencer Senna que um segundo lugar era melhor que uma desistência. Assim, Senna teve que esperar até à última prova para ser campeão. No final do ano, acrescentou mais um título ao do seu pecúlio: o Grande Prémio do Macau, que ganhou na estreia. O seu carro era patrocinado por alguém com talento para descobrir campeões, o lendário TeddyYip.

Um pé dentro da porta
Para chegar à F1, Ayrton Senna testou com a Williams e a McLaren, mas não tinha qualquer hipótese de integrar estas equipas, todas ocupadas com pilotos veteranos e ganhadores. Ainda tentou ingressar na Brabham, onde os rumores disseram que foi bloqueado por Nelson Piquet, mas a verdade é que o patrocinador Parmalat exigia um italiano. Assim, entrou para a Toleman, uma equipa que na F1 andava mais tempo na cauda do pelotão.
O começo da temporada, com pneus Pirelli, foi terrível e até deu direito a uma não-qualificação. No Mónaco, finalmente a Toleman estreou o TG184 desenhado por Rory Byrne e recebeu os mais competitivos pneus Michelin e, com a chuva torrencial, Senna brilhou até conseguir ultrapassar Alain Prost, precisamente na volta em que JackyIckx interrompeu a corrida. Voltou a subir ao pódio em BrandsHatch e no Estoril, mas no final do ano a sua relação com o diretor Alex Hawkridge já tinha esfriado, desde que a Lotus tinha anunciado literalmente que tinha assinado um contrato de três anos com Senna.

José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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