Sete corridas, 1 ponto, oito abandonos, sete por motivos técnicos. O resumo da época da Aston Martin reflete apenas parte das dificuldades e dos desafios que a equipa tem enfrentando neste arranque da nova era da F1. A nova parceria com a Honda revelou fragilidades gritantes e mesmo o chassis não evidencia o génio de Adrian Newey, que continua à procura de soluções para o AMR26. E as soluções poderão chegar apenas depois do verão.
A Aston Martin está a preparar um pacote de atualizações profundas, descrito internamente como uma versão “B” do AMR26, que poderá representar praticamente um novo carro para a segunda metade da temporada. A expectativa é que este conjunto de evoluções permita à equipa aproximar-se das posições pontuáveis. Mas se até há pouco tempo se esperava que as melhorias pudessem chegar ainda antes da pausa de verão, parece que agora se abre a possibilidade delas acontecerem apenas depois. Pedro de la Rosa, embaixador da equipa, reconheceu publicamente que as melhorias poderão surgir apenas depois da pausa de verão e Fernando Alonso admitiu que a situação atual se manterá “nas próximas cinco corridas”, ou seja, até ao GP dos Países Baixos, agendado para o final de agosto.
Mike Krack reforçou a confiança total na liderança de Newey e na estratégia definida, sublinhando que, apesar das dificuldades, a equipa acredita que este período até à pausa de verão será determinante para dar um salto competitivo.
“Temos um líder forte [Newey], e essa decisão foi tomada em relação às atualizações. Estamos comprometidos com as decisões dele, mesmo que sejam difíceis. O nosso trabalho é manter-nos motivados, aprender o máximo possível e saber que há muito espaço para melhorar. O mais fácil seria não fazer nada, mas muitos problemas continuariam a existir, e cada oportunidade dá-nos uma hipótese de melhorar.”
O que está mal no AMR26?
A questão mais simples seria a contrária… o que está bem. O AMR26 nasceu mal, com muito problemas colocando em causa todas as ambições da equipa. A equipa de Silverstone chegou aos testes do Bahrein severamente limitada por problemas de fiabilidade da nova unidade motriz Honda, que gerou vibrações anómalas capazes de danificar as baterias e de se transmitir até às mãos dos pilotos A escolha de desenvolver internamente a caixa de velocidades, pela primeira vez em muitos anos, revelou-se igualmente problemática: Fernando Alonso descreveu o carro como “impossível de conduzir” no GP de Miami após falhas de sincronização da caixa, enquanto Lance Stroll reportou o mesmo problema no Mónaco. A estes fatores soma-se um défice aerodinâmico e de chassis significativo, fruto de um atraso de quatro meses no arranque do programa de túnel de vento, consequência direta da entrada tardia de Newey na equipa, em março de 2024. Dados de GPS analisados pela BBC Sport indicam que mais de metade da diferença de desempenho face ao top 10 é atribuível ao chassis, uma leitura corroborada por Pedro de la Rosa, que admitiu que o carro “se comporta mal tanto nas curvas de alta velocidade como nas lentas” e que a equipa necessita de o redesenhar.
Assim, quando a Aston diz que procura apresentar um carro totalmente novo, tem bons motivos para isso. Até quando a equipa britânica vai sofrer? Essa é a questão que falta responder. A que se devem os atrasos e adiamentos? Falta de soluções? Atrasos nos upgrades da Honda? Ou um caminho mais entusiasmante que a equipa quer desenvolver de forma mais aprofundada para dar bases sólidas para a próxima temporada?
A cadeia de atrasos tem origens concretas e interligadas: as vibrações da unidade motrizes Honda, paralisaram todo o programa de atualizações do AMR26, uma vez que introduzir melhorias de chassis num carro com um problema base não resolvido seria tecnicamente inútil. A este fator acrescenta-se o design deliberadamente arrojado de Adrian Newey, que causou falhas repetidas nos crash tests da FIA e atrasos na produção, e ainda irregularidades identificadas pelo próprio Newey nos dados do túnel de vento e dos simuladores, que obrigaram a recalibrações antes de qualquer evolução poder avançar. No entanto, há uma componente estratégica nesta aparente imobilidade: a Aston Martin tomou conscientemente a decisão de não seguir os rivais no caminho dos upgrades, sugerindo que a equipa prefere sacrificar 2026 para construir bases técnicas mais sólidas que sustentem um projeto competitivo a médio prazo. Se esta é uma escolha genuinamente estratégica ou, em parte, uma necessidade ditada pelas circunstâncias, é a questão que a segunda metade da temporada terá de responder.
Foto: Philippe Nanchino /MPSA











