Por Fábio Mendes e Pedro André Mendes
Podíamos falar da McLaren, que voltou a ter uma corrida para esquecer, ou até mesmo a Ferrari, que voltou a ficar aquém do esperado, denotando fragilidades evidentes. Podíamos falar do mau fim de semana de Lando Norris, ou da má corrida de Valtteri Bottas. Mas tudo isto ficou ofuscado por mais uma confusão da FIA.
A Federação Internacional do Automóvel, o órgão dirigente do desporto automóvel, pode e deve evitar erros como os que vimos na corrida da Arábia Saudita.
Primeiro, a entrada do Safety Car, quando o Aston Martin de Lance Stroll estava numa zona em que justificava apenas o VSC. Com tantas câmaras, com comissários de pista por perto, e com todos os espetadores pela TV a entenderam rapidamente que o carro esteva numa zona de fácil extração, foi acionado o Safety Car. Para quê? É certo que a Liberty é americana, mas não nos lembramos de ver assumida uma mudança de postura quanto ao uso dos SC. Uma interrupção desnecessária e que vem deteriorar mais a confiança de todos nas decisões, algo que piorou consideravelmente desde o final da época 2021.
Mas esse foi o menor dos problemas. A penalização de Fernando Alonso é de levar as mãos à cabeça. O espanhol parou na volta 18 e já havia suspeitas de uma ilegalidade, com a equipa a tocar no monolugar nos cinco segundos de penalização, pois a Mercedes avisou George Russell que Alonso poderia ser penalizado. Foi preciso esperar pelo fim da cerimónia do pódio para termos uma decisão. Inaceitável desportivamente e para o espetáculo, que fica manchado, pois um piloto foi ao pódio, perde o lugar e outro piloto não foi ao pódio apesar de ser terceiro na classificação final. Mas o cenário havia de piorar. Após a taça já ter sido entregue a George Russell e de o britânico e a equipa terem “festejado” o pódio, a FIA volta atrás e diz que afinal a penalização foi mal aplicada.
A justificação deixa-nos de queixo caído, falando-se em exceções à regra, acordos entre equipas e de uma penalização que no decorrer da prova foi descartada para depois ser reavaliada no fim. Os comissários sublinharam que tinha sido previamente acordado numa reunião do Comité Consultivo Desportivo que “nenhuma parte do carro poderia ser tocada enquanto uma penalização fosse cumprida, uma vez que isso constituiria trabalhar no carro”. Mas com exemplos anteriores de não serem emitidas penalizações por ações idênticas por parte dos mecânicos, os comissários devolveram o resultado do pódio a Aston Martin. No entanto, as exceções falam do macaco dianteiro, que quase sempre toca nos carros quando chegam à box, sendo elemento importante para “guiar” os pilotos na paragem. O macaco traseiro não é usado para isso.
Isto mostra uma desorganização tremenda, além de se levantarem questões sobre o Race Control virtual, colocado em Genebra, que não tem minimizado este tipo de situação (O RCV deu o OK e afirmou que a penalização foi bem cumprida, para depois afirmar no fim da corrida que afinal havia dúvidas quanto à legalidade da paragem da Aston Martin).
Já não é a primeira vez que além dos regulamentos, há acordos ou decisões anteriores que fazem “jurisprudência” quando, de facto, parece que as regras têm de ser revistas de uma ponta à outra e incluir os acordos e outras decisões que vão contra o regulamento em vigor, se for o caso. Tentar retirar qualquer dúvida na interpretação e criar um conjunto de pessoas, para serem comissários a tempo inteiro, com um fio condutor nas suas decisões.
Neste caso, em resumo, há um acordo para que qualquer toque no carro seja considerado trabalho (e por isso ilegal no cumprimento de uma penalização) mas esse acordo é esquecido porque há precedentes anteriores. E onde fica a regra aqui? A regra usa o termo “trabalho” demasiado lato e dado a interpretações para o que se pretende. Um desporto como a F1 não se pode reger por acordos e precedentes. Tem de haver um conjunto de regras claras, simples e concisas. Só assim poderemos evitar estas vergonhas.
E o que fica no final? Uma festa estragada e o ridículo de vermos uma taça de mão em mão. Num desporto que é de topo, com investimentos milionários, com pessoal de topo, os melhores na sua área, este tipo de situação não pode acontecer. E se a relação F1 – FIA não é a melhor, estes episódios não ajudam.









