Efeito solo. Uma expressão que tem sido muito repetida ao longo das últimas semanas, quando se fala dos novos carros. Uma expressão que começou a ser usada nos anos 70 e que agora regressa em força. Mas será que esta nova filosofia trará algo de muito diferente à F1?
A chegada dos carros com Efeito Solo à F1 é atribuída ao genial Colin Chapman. Conta a história, que Chapman terá tido uma epifania em 1975 e colocou Peter Wright a trabalhar, pondo em marcha o projeto que acabaria por se tornar o primeiro carro com efeito de solo na Fórmula 1: o lendário Lotus 78, desenvolvido em 1977 e pilotado, por exemplo, por Mario Andretti, uma ideia que o próprio Andretti desmistificou recentemente.
O famoso Efeito Solo acontece graças a um princípio da física de fluídos chamado de Efeito Venturi. Aplicado aos carros, este princípio diz-nos que se o ar passar numa secção reduzida, a sua velocidade irá aumentar após passar por essa secção. Esse aumento de velocidade é compensado por um abaixamento da pressão, o que nos carros resulta numa força descendente. Ou seja, o ar que passa por baixo do carro é acelerado assim que se expande e isso leva à diminuição da pressão debaixo do carro e, por conseguinte, a um aumento da força descendente, que cola o carro ao chão. Este princípio começou a ser usado de forma mais vincada pela Lotus, que usava “saias” nas laterais do carro para garantir que o ar se mantinha na secção certa e era acelerado, pois sem as “saias” o ar podia escapar nas laterais, perdendo-se a força do efeito desejado. Ora isto criava quantidades assinaláveis de apoio aerodinâmico mas havia um problema… quando os carros, por algum motivo, deixavam de ter o fundo selado pelas “saias”, a diminuição da força descendente era abrupta e por vezes catastrófica. Por isso, os carros com o Efeito Solo foram banidos. Mas este truque passou a ser usado pelas equipas desde então.

Desde 1983 (ano em que as saias para o efeito solo foi banido) até à atualidade, os fundos planos passaram a ser a realidade da F1, mas as equipas sempre tentaram usá-los de forma a maximizar o Efeito Solo. Por isso as equipas muitas vezes colocavam os escapes dos motores apontados para o fundo plano, para acelerar o ar ( e com isso diminuir a pressão naquela zona, ganhando mais força descendente) e, além disso, tinham muito cuidado com os famosos difusores (ou extratores de ar) traseiros. Os regulamentos foram sendo alterados ao longo dos anos, mas as regras dos difusores manteve-se mais ou menos as mesmas de 1994 a 2009, ano do aparecimento da Brawn GP e do famoso difusor duplo que foi banido em 2010.

As equipas têm muito trabalho para ganhar vantagem (força descendente) nos fundos planos, pois é a forma mais limpa de o fazer, ganhando-se apoio aerodinâmico sem arrasto, o que significa um carro rápido em reta e com aderência em curva. A polémica das traseiras elevadas de 2021 é um exemplo desse trabalho. Em 2020 a Red Bull e a grande maioria das equipas usavam uma traseira elevada para ganhar mais apoio aerodinâmico. Com a traseira elevada, a expansão do ar e consequente aceleração do mesmo acontece mais cedo. O problema está em selar o fundo plano, o que era feito graças à criação de vórtices nas laterais, um trabalho árduo e nem sempre fácil. Em 2021, com a redução da área dos fundos planos, perdeu-se algum apoio aerodinâmico, exatamente por uma diminuição da força do Efeito Solo. No entanto, a configuração de traseira elevada passou a ser a melhor.
The old flat floor (yellow) with the short diffuser (blue) is switched. For a tunnel set up with long inlet leading to a curved floor (not totally flat) and longer diffuser section.
— Craig Scarborough (@ScarbsTech) December 23, 2021
This creates more downforce and is less sensitive behind another car pic.twitter.com/L23VPiuoe4
O que veremos este ano nos carros não difere muito do que já é feito. Não regressamos aos anos 70/80 e não teremos um efeito solo tão pronunciado como na época. O que teremos sim, serão fundos planos mais agressivos, que criarão um pouco mais de apoio aerodinâmico, mas a ideia de que fundo plano ganha um peso muito superior ao que tinha, é algo errada. Continua a ser o componente que cria a maior percentagem de apoio aerodinâmico, mas talvez não vá ser o elemento diferenciador que muitos poderiam pensar.
Claro que as entradas de ar por baixo do carro, serão parte importante do desenvolvimento dos novos carros, pois é a partir daí que o ar começará a ser trabalhado por baixo do carro e quanto mais evoluídas as soluções, mais apoio se poderá criar, tal como no difusor traseiro, que agora é maior e mais eficiente. O fundo plano será parte fundamental do equilíbrio do carro, mas as asas dianteiras e traseiras mantêm a sua enorme importância e o seu desenvolvimento continuará a ser fundamental. Há quem afirme que os novos regulamentos poderiam ter ido mais longe no aproveitamento do efeito solo e que a nova F1 prometeu muito mas poderá dar pouco pois se os carros são mais eficientes no ar sujo, o diferencial de velocidade para termos uma ultrapassagens continuará difícil de atingir. Tratam-se apenas de suposições que serão confirmadas, ou não, dentro de poucas semanas. Dizer que o Efeito Solo é o grande truque desta regulamentação pode não ser o mais certo, pois esse truque já é usado há muito e foi apenas realçado para esta nova era. O quão realçado? Teremos de esperar para ver.











