O calor do título passou. E honestamente o que vi no pódio de Abu Dhabi pareceu-me genuíno. Hamilton sabia que tinha dado tudo para revalidar o troféu em Abu Dhabi. Mas também sabia que era tricampeão e que o triunfo de Rosberg não tinha hipotecado esse seu legado. Sabia, até, que, aos olhos da opinião pública, continuava a ser o número 1. “The best of the rest”. Havia desapontamento, mas não como em 2007, como explicou no pódio. Que tinha feito tudo o que estava ao seu alcance. Mas talvez o tenha feito tarde demais, como diz Jacques Villeneuve.
As sete corridas que Rosberg venceu de forma consecutiva não podem ser explicadas pelos azares de Lewis Hamilton. Nem as nove vitórias de 2016. Nem o facto de se ter levantado novamente quando, antes do GP de Spa, em agosto, Lewis recuperou dos 43 pontos de desvantagem que chegou a ter para o colega de equipa e transformou-os num avanço de 19 pontos.
Ambos travaram um jogo psicológico, do qual o alemão saiu vencedor por ter aproveitado as suas oportunidades. Hamilton pode queixar-se da fiabilidade do seu carro, mas também houve outros pilotos que passaram pelo mesmo na história da Fórmula 1, como Kimi Raikkonen, em 2003 ou 2005. O inglês continua a ser mais rápido do que o seu colega de equipa? Poucos o duvidam. Mas o título não é atribuído ao piloto mais rápido e sim ao mais consistente.
Mesmo sem os azares mecânicos, a verdade é que, desta vez, Rosberg foi melhor nesse capítulo e por isso um justo campeão do mundo, apesar de ter vencido menos vezes (9-10), feito menos pole-positions (8-12) e subido menos vezes ao pódio (15-7). Para mim, a diferença esteve aqui: enquanto o alemão venceu seis das oito vezes em que partiu da pole (um aproveitamento de 75%), Hamilton apenas triunfou em sete das 12 vezes que partiu do primeiro lugar da grelha (um aproveitamento de 58,33%, que ‘melhora’ para 66% se lhe atribuirmos ficticiamente o triunfo na Malásia – a tal prova que muitos defendem que definiu o título, incuindo o patrão da equipa, Toto Wollf, esquecendo-se que, em Espanha, Rosberg também poderia ter vencido essa corrida e ‘embalar’ para cinco triunfos consecutivos).
Quer mais um exemplo de consistência? Que tal a percentagem de voltas (75%) que Rosberg cumpriu dentro dos três primeiros classificados em 2016 (957 voltas em 1268).
Como diz Filipe Albuquerque, não existem campeões injustos. Para se vencer teve que se conquistar o maior número de pontos e aproveitar as oportunidades. Foi o que Nico Rosberg fez aos 31 anos, por apenas cinco pontos (385 vs 380), contra o pior adversário que poderia ter.
André Bettencourt Rodrigues
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