A edição de 2015 do Dakar representou a quarta presença na mítica maratona para o navegador português Vítor de Jesus, que a seu lado teve um piloto que considera “ter muito para dar em relação a provas longas como o Dakar”, o argentino Nazareno Lopez, estreante na competição.
Para enfrentarem os mais de 9000 km, divididos por 14 dias de competição, a dupla teve em mãos uma Toyota Hilux da South Racing, num evento que partiram com o objetivo de “fazer o nosso melhor e vendo dia a dia onde é que poderíamos chegar”, explicou o português.
Porém, logo ao segundo dia as aspirações a um bom resultado seriam goradas, devido a um problema mecânico na Hilux, que acabaria por vir a comprometer todo o rali. No final, a Hilux nº 341 terminaria na 48ª posição, tendo no 15º lugar da oitava etapa, o seu melhor desempenho em especiais.
Para Vítor de Jesus, “relativamente à experiência que tenho dos Dakar, este foi o mais duro até agora, e era uma opinião geral, estávamos a espera que assim fosse até ao dia de descanso e depois que a dureza dos setores viesse a abrandar um pouco, o que acabou por não se verificar”.
O ‘fatídico’ segundo dia
Apenas com um dia de competição na ‘bagagem’, os pilotos da Toyota Hilux iriam enfrentar no segundo dia de competição, em que teve lugar a maior especial de toda a prova, com 518 km cronometrados, o seu dia mais duro da edição de 2015. Como conta Vítor de Jesus: “Ficámos a dormir na especial e tivemos uma penalização que adveio disso mesmo, o que nos obrigou a fazer uma corrida de trás para a frente, mas em que conseguimos atingir a meta.
No segundo dia ficámos a 20 km do final da etapa sem tração da frente, numa zona de areia muito macia, com temperaturas elevadíssimas. Para conseguirmos tirar o carro da areia e para podermos mudar o semieixo, tivemos que desmontar as proteções, mas os macacos hidráulicos avariaram. Como a areia era super macia, só com tração atrás e mesmo com o bloqueio a uma das rodas da frente, tivemos desde as duas da tarde, atá às sete horas a cavar com temperaturas de 55º graus ao Sol, o que nos levou à exaustão física. Tivemos a sorte de ter a ajuda do nosso colega de equipa que parou lá e acabou por ficar ao pé de nós com um problema. Conseguimos resolver tudo e chegámos ao bivouac. Com isso tivemos uma penalização de cerca de seis horas e meia”, lembrou.
A solidariedade do Dakar
Por outro lado, nesta prova, “realmente existe grande solidariedade que existe em todos os concorrentes, sem duvida quanto mais para trás mais ela se torna notória. Infelizmente nós, devido a todas as condicionantes, com muitas etapas a sairmos na cauda do pelotão, com a condicionante do pó e as ultrapassagens aos concorrentes mais atrasados, levavam precisamente a sentir essa ponderável da entreajuda. Isso notava-se também quando estávamos parados, havia concorrentes que paravam para perguntar se era necessário ajuda”, lembra Vítor de Jesus.
A ‘nova’ Toyota Hilux
Apesar do triunfo de Nasser Al-Attiyah nos Autos, quarto consecutivo da MINI no Dakar, a Toyota provou ter feito um bom ‘trabalho de casa’, beneficiando, para isso, também das alterações dos regulamentos (ndr. redução do peso em 60 kg e possibilidade de dispor de um restritor de maiores dimensões), dando uma boa réplica e mostrando que a hegemonia da MINI poderá estar perto de ter os dias contados…
Mas quais foram as mudanças nesta ‘nova’ Hilux? Vítor de Jesus explica-as: “Tirando todas as mudanças dos regulamentos, o novo chassis da Toyota é bastante mais equilibrado e tem o centro de gravidade mais baixo. Isto porque os pneus sobressalentes foram colocados por baixo do carro e atrás, nas portas traseiras, o que permitiu o rebaixamento do centro de gravidade.
Assim como também o motor de injeção direta ajuda, com o novo restritor e a suspensão independente atrás, quer em termos do carro poder pôr toda a potência no chão, quer ao nível do comportamento dinâmico.
Na versão anterior da Toyota, algumas já tinham suspensão independente, mas esta era baseada nos chassis anteriores, em que o centro de gravidade, não só no habitáculo, como no motor e nas rodas, era bastante mais elevado do que nesta última versão. Este ano o chassis foi feito de raiz com suspensão independente. No final, são todos estes pequenos grandes fatores que interferem nos resultados e no desempenho do próprio carro.
A ‘questão’ MINI…
Em novo ano MINI, Vítor de Jesus admite que “há alguma diferença que é notória, este ano lógicamente que a superioridade da X-Raid, relativamente à concorrência, não foi manifestamente tão visível quanto o ano passado, mas não nos podemos esquecer do excelente piloto que é o Nasser Al-Attiyah que, independentemente do carro que utiliza, tira tudo o que o automóvel pode ter para dar.
Este ano foi isso que se passou, com o Nasser a manifestar desde o início a sua superioridade. Agora, mesmo já em testes com o MINI, além da fiabilidade que tem, nós conhecemos porque temos informação estudada em relação à concorrência, talvez um dos aspetos que também o favorece, quer queiramos quer não, é o facto de muitas etapas serem feitas em altitudes muito elevadas. Um carro turbo comprimido, em termos de rendimento de motor, talvez seja menos afetado do que os atmsoféricos. Agora, em tudo o resto, sem dúvida que é um dos melhores carros”, concluiu.
Auto VS Camião
Depois do participação do ano passado em camião, Vítor de Jesus voltou ao habitáculo de um auto para disputar a maratona sul-americana. O português, que conta com quatro presenças na prova (2002; 2006; 2014; 2015;), falou-nos das diferenças de ambas as situações e apresentou-nos a sua preferência:
“São situações completamente díspares. No camião temos um outro à-vontade, tudo acontece mais devagar, em termos de navegação por exemplo, mas há um fator negativo, que se trata do número de horas que passamos no interior do camião, que são muitas, muito mais do que no carro, e nos leva a chegar todos os dias bivouac muito mais tarde, tendo sempre que fazer o ‘trabalho de casa para o dia seguinte.
Enquanto no carro chegamos quase sempre cedo cedo ao bivouac, implica uma concentração muito maior em termos de navegação, porque tudo se passa muito mais rápido, em termos de reação, têm que ser tomadas decisões muito mais rapidamente, e isso permite-nos ao mesmo tempo, independentemente do cansaço, ter muito mais descanso, não havendo azares durante o dia, chegamos ainda de dia ao bivoauc, permite-nos fazer as refeições, o ‘trabalho de casa’, e descansar mais cedo, do que se fosse de camião”. Quanto à opção, Vítor de Jesus não tem dúvidas, “adorei a experiencia do camião no ano passado, mas a minha preferência sempre foi, e continua a ser, os automóveis”.
Com 2015 ainda no seu início, Vítor de Jesus tem já garantida a presença no Campeonato Nacional de Todo-o-Terreno, ao lado de João Ramos, também numa Toyota Hilux, estando ainda em stand-by a possibilidade de realizar algumas provas da Taça do Mundo de TT com Nazareno Lopez, ou, até mesmo, um novo Dakar.










