Não houve surpresas e a Toyota venceu a 89ª edição das 24h de Le Mans na estreia dos Hypercars em La Sarthe, com o carro # 7 de Mike Conway, Kamui Kobayashi e José Maria Lopez a cruzar finalmente a linha de meta em primeiro, quebrando um enguiço que já durava há muito. Para os portugueses foi uma prova para esquecer.
A equipa nipónica foi claramente mais forte que a concorrência, especialmente o carro #7 que fez uma prova imaculada, liderando praticamente toda a corrida, sem grandes problemas técnicos, evidenciando uma fiabilidade notável para um carro novo. Também a Alpine e a Glickenhaus fizeram provas muito positivas, mas o andamento dos Toyota em pista foi superior e não deu hipótese. Em LMP2 a vitória caiu para a WRT, apesar do drama do #41 que parou em pista a dois minutos do fim. Vimos também os azares que prejudicaram os portugueses e que os tiraram da luta pela vitória. Em LMGTE a Ferrari foi o destaque quer nos Pro quer nos AM.
A chuva apimentou a prova no arranque e com a chegada da noite, com as condições de pista a provocarem muitos sustos, saídas de pista e surpresas. Mas apesar dos muitos incidentes nestes períodos de pista molhada, o resto da prova decorreu de forma relativamente tranquila, com 22 horas e vinte minutos de bandeira verde, quatro Full Course Yellow, quatro Safety Car que retiraram pouco mais de 1 hora e quarenta de competição.
LMP1 – Toyota vence com naturalidade
A história em LMP1 é relativamente simples de contar, como tem sido habitual nas últimas edições. A Toyota chegou a Le Mans como clara favorita mas havia a dúvida se os GR010 teria níveis de fiabilidade suficientes para materializar esse favoritismo. O Toyota #7 largou da pole e de lá nunca mais saiu até ao fim da prova. Com um stint de abertura muito forte, Mike Conway abriu uma boa vantagem para o resto da concorrência, beneficiando dos azares dos restantes. O Toyota #8 (Sébastien Buemi / Kazuki Nakajima / Brendon Hartley )levou um toque algo violento do Glickenhaus #708 (Luis Felipe Derani / Franck Mailleux / Olivier Pla) na curva 1, que atirou Sebastien Buemi para a cauda do pelotão. Mais uma série de percalços do suíço complicaram a recuperação nos primeiros minutos, mas aos pouco o #8 foi subindo na tabela, até se instalar no segundo lugar, já na segunda hora.
O Alpine #36 ( André Negrão / Nicolas Lapierre / Matthieu Vaxiviere ) começou nas primeiras voltas a pressionar o #7, mas a chuva que caiu antes da prova, pregou muitas partidas e Nicholas Lapierre não evitou um pião que o fez cair na classificação. Quem beneficiava era a Glickenhaus que se instalava no terceiro e quarto lugar. Mas o decorrer da prova mostrou que os novos Glickenhaus 007 Lmh não-híbridos não tinham andamento para os Toyota e até para o Alpine e foram caindo na classificação no primeiro terço da corrida.
Uma das grandes surpresas foi a capacidade da Alpine em fazer stints de 12 voltas, apenas menos uma volta que os Toyota, o que teoricamente colocava a equipa francesa em boa posição para desafiar os nipónicos, mas o desenrolar da prova mostrou uma superioridade inatingível dos Toyota, que estiveram sempre na frente.
Nas últimas horas os dois GR010 desenvolveram problemas na bomba de combustível que obrigou a stint mais curtos mas ainda assim a vitória nunca pareceu comprometida com duas voltas de avanço para o A480 da Alpine e cinco voltas para o Glickenhaus #708 que tentava pressionar o Alpine. A vantagem da Toyota era tal que nos últimos dez minutos os dois carros da marca pararam nas boxes para um reabastecimento curto e o carro #8 esperou pelo #7, saindo juntos para a pista, para a fotografia. Vitória para o Toyota #7, seguido do Toyota #8 e do Alpine #36.
Foi uma corrida relativamente tranquila para a Toyota, apesar de pequenos problemas que foram preocupando nos dois carros. A fiabilidade foi muito boa para a primeira vez destes carros em Le Mans e a forma tranquila como se afastaram da concorrência foi a prova de que a máquina nipónica é claramente superior. O Alpine parecia ter argumentos para desafiar os japoneses, e até os responsáveis pareciam confiantes, com o truque (não revelado) que permitiu mais voltas por stint, mas não teve ritmo em pista para igualar os líderes e teve de se contentar com a luta pelo terceiro lugar, que também não foi muito difícil de gerir. Os Glickenhaus fizeram uma boa estreia em Le Mans, não tiveram muitos problemas técnicos e até estiveram menos tempo parados nas boxes que os outros Hypercars, mas a falta de ritmo em pista foi gritante e Jim Glickenhaus queixou-se de um BoP algo injusto e que com estes valores aplicados dificilmente um Hypercar não-hibrido tem hipótese contra os híbridos. Mas a primeira amostra dos Hypercar foi servida sem grandes motivos de destaque, com uma vitória inteiramente justa e merecida da Toyota com o carro #7 que finalmente quebrou o enguiço e venceu em La Sarthe.
LMP2 – Dia não para os portugueses
Se há um ano Le Mans se pintou de verde e vermelho, este ano as cores portuguesas não tiveram a sorte do seu lado. António Félix da Costa e Filipe Albuquerque estavam nos carros favoritos à vitória, mas o seu esforço caiu por terra e as esperanças de um bom resultado esfumaram-se.
Félix da Costa fez um primeiro stint absolutamente soberbo, superando o ritmo de alguns Hypercarros com a pista ainda molhada, de tal forma que chegou a rodar em segundo lugar da geral na primeira hora. A sucessão de voltas rápidas deixou todos de queixou caído, no que terá sido um dos melhores momentos do português no endurance. Félix da Costa cumpriu a sua missão, entregou o carro em primeiro na classe, com mais de um minuto de vantagem para a concorrência, mas Anthony Davidson deitou tudo a perder com um erro que atirou o carro para a caixa de gravilha, o que significou um trambolhão na classificação. Apesar do 19º lugar, a equipa tentou recuperar mas à quinta hora de prova uma fuga de óleo obrigou a uma paragem de mais de meia hora, o que comprometeu definitivamente as hipóteses do #38 JOTA de lutar pela vitória.
Filipe Albuquerque começou a prova no #22 da United, mas não foi um arranque exuberante. O português demorou algum tempo a iniciar a recuperação, mas aos poucos o #22 foi se aproximando da frente e depois dos incidentes do inicio da noite, era terceiro na sua categoria. Tudo estava bem encaminhado para tentar um ataque final, mas a chegada da manhã trouxe más notícias e um problema no alternador do Oreca do português obrigou a uma paragem de mais de uma hora, o que acabou com as esperanças da equipa em revalidar a vitória.
As lutas em LMP2 foi duras, mas desde a saída de pista do #38 da JOTA se entendeu que os carros da WRT estavam com um bom andamento, apesar de pressionados pelo #23 da United (Paul Di Resta / Alex Lynn / Wayne Boyd), com o #26 da G-Drive (Roman Rusinov / Franco Colapinto / Nyck De Vries) também por perto. Mas quando a noite caiu trouxe também mais chuva, o que motivou muitos incidentes. Um deles envolveu o #23 e o #32 da United, num toque violento entre os dois carros a mesma equipa que tirou o #23 da luta pela frente. Também o G-Drive #26 (Colapinto) perdeu o controlo e embateu no #1 da Richard Mille (obrigado a desistir) tornando-se em mais um candidato a cair da luta. O #28 (Sean Gelael / Stoffel Vandoorne / Tom Blomqvist) da JOTA e o #65 da Panis Racing (Julien Canal / Will Stevens / James Allen) tentaram chegar aos lugares da frente mas os carros #31 (Robin Frijns / Ferdinand Habsburg / Charles Milesi) e #41 (Robert Kubica / Louis Delétraz / Yifei Ye) da WRT não deram hipótese e lideraram grande parte da corrida. Mas houve drama nos últimos minutos e o #41 que liderava e se preparava para vencer Le Mans ficou parado em pista o que entregou a vitória ao #31, seguido do #28 da JOTA e do #65 da Panis Racing. António Félix da Costa terminou a prova em oitavo na sua categoria e Filipe Albuquerque teve de se contentar com o 18º.
LMGTE Pro – Ninguém parou a Ferrari
Também em LMGTE Pro a sorte não sorriu às cores lusas. Álvaro Parente no Porsche #72, não chegou a ver a bandeira de xadrez, com a desistência do Porsche da HubAuto durante a manhã. A equipa sabia que ia ser uma corrida complicada, sem conseguir encontrar a afinação ideal, com um carro muito nervoso em curva e com pouca velocidade de ponta. Apesar da brilhante pole conquistada por Dries Vanthoor, seria difícil chegar a um bom resultado e o carro andou sempre nas últimas posições da sua categoria até desistir.
Nos primeiros lugares desta categoria, a Ferrari destacou-se e nas primeiras horas os Ferrari #51 (Alessandro Pier Guidi / James Calado / Côme Ledogar ) e #52 (Daniel Serra / Miguel Molina / Sam Bird ) mantiveram-se sempre na frente da corrida, apesar de pressionados pelo Corvette #63 (Antonio Garcia / Jordan Taylor / Nicky Catsburg). Os Porsche nunca pareceram ter andamento suficiente para se baterem com as máquinas italianas e teve de ver ao longe a luta entre os Ferrari e o Corvette. Na 15ª hora de prova o Ferrari #52 sofreu uma falha na suspensão traseira esquerda, que obrigou uma paragem de meia hora que os tirou da luta. O Ferrari #51 manteve a toada e apesar da pressão do #63 com os Porsche #92 (Kevin Estre / Neel Jani / Michael Christensen) e #91 (Gianmaria Bruni / Richard Lietz / Frederic Makowiecki)a lutar pelo último lugar do pódio, com vantagem para o #92. Com uma prova praticamente perfeita, o Ferrari #51 venceu a prova na sua categoria, com a companhia do Corvette #63, primeiro pódio do C8.R na sua estreia em Le Mans e o Porsche #92 ficou com ó último lugar do pódio.
LMGTE AM – Língua portuguesa no pódio
A força dos Ferrari ficou clara logo nas primeiras horas também nos AM. Apesar da pole feita pelo Porsche da Dempsey Proton #88 (Julien Andlauer / Dominique Bastien / Lance Arnold), o Ferrari #83 da AF Corse (François Perrodo / Nicklas Nielsen / Alessio Rovera) cedo passou para frente, dividindo as despesas da liderança com o Aston Martin #33 da TF Sport (Ben Keating / Dylan Pereira / Felipe Fraga), com a companhia do Aston Martin #98 (Paul Dalla Lana / Nicki Thiim / Marcos Gomes) da Aston Martin Racing, o #47 da Cetilar (Roberto Lacorte / Giorgio Sernagiotto / Antonio Fuoco )e o #80 da Iron Lynx (Matteo Cressoni / Rino Mastronardi / B Callum Ilott).
O #98 terminou a prova mais cedo com uma saída de pista violenta que motivou um dos quatro períodos de Safety Car ficando fora de prova. Apesar das várias trocas na liderança, desta luta saiam o #83 e o #33 para o confronto final, com vantagem para o Ferrari #83. A luta prolongou-se até ao fim da prova mas foi mesmo o Ferrari da AF Corse a vencer, seguido do Aston Martin #33 com Dylan Pereira, um luso-luxemburguês que fez uma grande prova, no pódio e em terceiro lugar ficou o Ferrari #80 da Iron Lynx.
Destaque também para o Oreca #84 (Takuma Aoki / Nigel Bailly / Matthieu Lahaye), carro que correu a convite, com um carro adaptado a dois pilotos com mobilidade reduzida que terminou a prova num honroso 32º lugar.
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