Este fim de semana tem lugar a quarta prova do Campeonato Nacional de Todo-o-Terreno, a Baja TT Proença-a-Nova/Mação/Oleiros, organizada pela Escuderia Castelo Branco. A dupla Nuno Matos/Filipe Serra lidera a competição após a vitória na última prova, a Baja TT Cidade Europeia do Desporto – Loulé. O AutoSport esteve à conversa com Nuno Matos sobre a presente temporada e aproveitou para fazer uma retrospetiva da carreia do piloto de Portalegre.
AutoSport: Nuno, esta foi uma vitória com a qual não contavas?
Nuno Matos: Quando partimos para qualquer prova o nosso objetivo é sempre fazer o melhor possível e obviamente que isso é vencer, mas sabíamos que não éramos, e não somos, a equipa favorita deste campeonato. Independentemente disso, sentimos, ao longo de toda a prova, que estávamos bastante mais competitivos, demos um salto nesse sentido e estamos mais perto dos pilotos da frente. Imiscuímo-nos durante toda a prova na luta pela vitória e no final foi muito bom passado três anos voltarmos a ter um vitória no Campeonato Nacional de Todo-o-Terreno (CNTT).
AS: Esta foi a terceira vitória da tua carreira no T1, mas a segunda foi apenas em termos de campeonato certo?
NM: Sim, é a terceira vitória para o campeonato, sendo que em termos absolutos é a segunda prova. Isto porque na Baja de Tavira, em 2012, ficámos em segundo, atrás de um piloto que veio testar a Portugal para o Dakar. Ele não roubava pontos em termos de campeonato, durante a prova não estivemos muito longe dele mas para nós o que importava eram os pontos para o campeonato e ficámos em segundo lugar em termos absolutos mas vencemos para o campeonato nacional.
AS: Nesta última prova, em Loulé, a partir de que altura é que sentiste que podías realmente vencer a prova?
NM: Na verdade, senti-me bastante bem desde o Prólogo e satisfeito com o tempo que acabámos por realizar, porque encurtámos a distância, no caso, para o Miguel Barbosa e para o João Ramos que têm sido os dois pilotos que têm estado a liderança das provas. Na segunda passagem estávamos com o Hélder Oliveira bastante perto de nós e como estávamos a fazer um tempo provavelmente melhor do que na primeira passagem, decidi levantar um pouco o pé no final, porque pensei que era preferível e assim iamos partir mais atrás. Em boa hora o fiz porque o Hélder acabou por ter problemas e o Miguel também e provavelmente se não o tivéssemos feito teríamos partido para a prova na segunda posição. Mas a maior satisfação veio no final do SS1, numa altura em que que estávamos bastante perto dos homens da frente, a cerca de 1m15s do Miguel, no acumulado com o Prólogo, e a cerca de um minutos do João, depois de cerca de 90 km cronometrados.
Sentimos que estávamos prontos para discutir a prova e que estávamos lá para qualquer deslize que pudesse acontecer e foi isso que se verificou. O SS2, da parte da tarde, foi bastante duro, era mais encadeado e mais técnico e estava muito calor. Fomos sabendo que estávamos perto e a determinada altura começamos a ganhar algum tempo ao Miguel, mas acho que acima de tudo, e disse-o na altura, foi a consistência e um ritmo certo e regular, sem cometer demasiados excessos, mas sempre a andar bem que permitiu o resultado. Fui-me sentindo confiante e as coisas aconteceram.
O Miguel furou e passámos para a frente dele e passados alguns quilómetros vimos o João com um problema mecânico, portanto percebemos logo que tínhamos assumido a liderança. Nessa altura forcei um pouco o andamento porque era importante começarmos o último troço com uma vantagem em relação ao Miguel que fosse superior a dois minutos. Acabámos por o conseguir e depois o último manter o mesmo ritmo e só soubemos no final que o Miguel infelizmente tinha ficado pelo caminho. Seja como for acredito que a vitória já não nos escaparia. O nosso Opel Mokka esteve também ao mais alto nível, foi o melhor Mokka que conduzi desde que o tenho e desde o início do projeto.
AS: Há aqui um dado curioso também. Até aqui tens referido por diversas vezes que tens levantado o pé devido a problemas de refrigeração no teu Opel Mokka, substituíste todo o sistema de refrigeração e, ironia ou não do destino, acabaste por vencer e onde, por exemplo, o Miguel abandonou, devido a um problema na caixa de velocidades do Racing Lancer, o teu Mokka primou pela fiabilidade, além do ritmo consistente que tiveste ao longo da prova.
NM: Há aqui um trabalho que não é só desta prova mas que vimos desenvolvendo desde o início do projeto. No primeiro ano e, principalmente, no início do segundo, sem os resultados que desejávamos e para os quais muito trabalhamos. Foi foi um projeto difícil e que quando o iniciei, sinceramente nunca pensei que pudéssemos ter tantos problemas como aqueles que acabaram por acontecer. Aliás, o Mokka era basicamente uma evolução daquilo que tinha sido o Opel Astra Proto, e a verdade é que durante muito tempo não conseguímos ter com o Mokka a fiabilidade que tínhamos o Astra.
Apesar de ter tido pontualmente alguns problemas, o Astra Proto foi um carro que nos permitiu estar à chegada de muitas provas, e a verdade é que, como disse, este trabalho tem vindo a ser feito e esta é já a quinta prova que conseguimos terminar sem qualquer tipo de problemas. É verdade que em Reguengos voltámos a ter alguns problemas com a refrigeração do carro e com as temperaturas, o que nos obrigou, em várias ocasiões, a levantar um pouco o pé para as controlar.
Agora decidimos arrojar, porque este sistema de refrigeração não é o primeiro nem o segundo, tentámos várias alternativas, e esta funcionou em pleno. Para além das evoluçõies que já tínhamos vindo a fazer com o carro, pela primeira vez acredito que fiz uma prova sem olhar muitas vezes para os manómetros, completamente focado e concentrado, proque o carro estava afinado de uma forma espetacular e o facto de podermos conduzir, olharmos de vez em quando para o manómetro e estar tudo bem, obviamente que também nos transporta, a mim e ao Filipe Serra, para níveis de concentração dentro do carro e para patamares que até aqui não tínhamos conseguido. Sinceramente acredito que foi também fruto de tuto isso que conseguirmos estar mais competitivos e, ao fim ao cabo, vencer a prova.
AS: Acabaste por ter de te focar apenas na condução…
NM: Exatamente. A verdade é que depois de dois anos em que, principalmente no primeiro ano, desistimos passado poucos quilómetros, é normal que a confiança do piloto não esteja no topo. Às vezes ia para as corridas mais preocupado com outras coisas do que propriamente com aquilo que deve ser o meu trabalho dentro do carro que é pilotar. Felizmente quero acreditar, não gosto de deitar foguetes antes do tempo, mas acho que já vai sendo tempo de sentir que efetivamente o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido já nos dá alguma garantia de que podemos confiar no Mokka Proto e que temos um carro que, embora não seja o mais competitivo do campeonato, não deixa de, como ficou provado, na Baja de Loulé, ser um carro extremamente competitivo e era isso que nós, quando criámos este projeto, desejávamos.
AS: Três provas realizadas no CNTT este ano, de repente és líder, como é que encaras tudo isso?
NM: Com franqueza é com alguma surpresa. Desde logo porque só garantimos a presença na primeira prova, a Baja TT Rota do Douro, na semana antes da corrida. Construí a minha carreira, que não é tão grande assim, mas já lá vão alguns anos, com muito trabalho e muito dedicado junto dos nossos patrocinadores e de quem nos apoia. É óbvio que os nossos dois anos iniciais com o Mokka não nos permitiram fazer esse trabalho e, acima de tudo, quando não se conseguem terminar corridas, que é para isso que projeto é definido e idealizado, porque nós nunca junto dos nossos patrocinadores definimos que iriamos ser campeões, mas sim que queríamos estar na luta pelos primeiros lugares, obviamente quando isso não é conseguido e o trabalho no carro é tanto que não nos permite desenvolver determinado tipo de ações que gostamos, é normal que os apoios sejam mais difíceis de encontar e eu entendo e aceito isso com a maior das naturalidades.
Inicialmente tinha mais ou menos garantida a presença em quatro corridas e decidi arriscar. Pensei que não podia ficar, em termos de campeonato, fora da primeira corrida. A Baja TT Rota do Douro não era a prova ideal para nós, até pela distância em termos de custos e retorno junto dos nossos patrocinadores, mas acabei por decidir arriscar e depois se tivesse que parar e não ir a uma outra corrida, daquelas que gosto mais ou que melhor conheço, e que estão mais perto de onde vivemos e dos nossos patrocinadores, não iria.
Arrisquei e hoje não podia estar mais satisfeito com essa decisão porque mostrou-se ser a melhor. Quero também realçar que, por parte da organização da prova, o Gondomar A. S., houve um esforço no sentido de sensibilizar os pilotos para estarem presentes. No primeiro ano as coisas não tinham corrido muito bem em termos de organização e efetivamente eles estão de parabéns porque a prova foi excelente, muito divertida, e das melhores que já fiz e em boa hora decidimos estar lá até porque o resultado acabou por ser muito positivo.
AS: Com três provas realizadas e estando na frente do campeonato, começas, de algo forma, a pensar no título ou pensas prova a prova e depois no final faz-se as contas?
NM: Prefiro nivelar sempre as minhas expetativas por baixo mas, se estou na liderança não posso dizer que quero ficar em segundo, é uma surpresa agradável para toda a equipa e para os nossos patrocinadores e todos aqueles que têm uma ligação mais próxima com o projeto. Se a meio do campeonato estamos na frente, continuamos a não ser a equipa mais forte candidata ao titulo no final do ano, mas seja como for o objetivo vai ser prova a prova. O primeiro objetivo desde já é manter a liderança após a próxima prova, a Baja TT Proença-a-Nova/Mação/Oleiros.
Sei que isto parece discurso meio à de jogador de futebol, mas não deixa de ser verdade. Estou sinceramente muito confiante com o carro, o que não quer dizer que as coisas vão continuar sempre bem, mas a nossa equipa está, neste momento, a trabalhar muito no carro para estar a 100% na próxima prova e para a fazermos à imagem daquilo que fizemos no Algarve, com um bom ritmo, e espero e acredito que possamos discutir os primeiros lugares e porque não a vitória na prova.
AS: Estando tu na liderança do campeonato, vamos aproveitar também para recordar um bocadinho a tua carreira e darmos a conhecer quem é Nuno Matos. Por exemplo, o teu gosto pelo TT, sendo tu de Portalegre, é algo inato ou apareceu em determinado momento na tua vida?
NM: Costumo dizer que sou um piloto descendente da Baja Portalegre, que é essa a verdade. Não tive qualquer tipo de formação enquanto jovem, tive um kart, durante menos de um ano, mas andei muito pouco nele, nem cheguei a fazer competição. A minha formação acabou por ser feita junto à estrada a ver os meus ídolos naquela altura. Hoje felizmente alguns deles meus amigos. A cidade de Portalegre tem uma ligação muito grande à prova, é claramente o acontecimento do ano, as pessoas gostam muito e percebem e existem muitos amantes da modalidade em Portalegre. Há também muitas equipas dali e nós somos mais uma.
Aos 18 anos acabei por ter a felicidade de poder acompanhar o meu irmão naquilo que foi uma aventura no extinto e saudoso Troféu Nissan Terrano II. Mas antes disso lembro-me de ir ver os primeiros ‘portalegres’, a determinada altura já com a minha BMX e depois com a minha bicicleta de montanha. Ia ver o Prólogo, auto dispensava-me das aulas, eu e muita gente, isto não é uma coisa que só acontecia comigo, acontece e continua a acontecer com muita gente.
Em Portalegre a sexta-feira do Prólogo só não é feriado no calendário, mas, na prática, é quase religiosa. Há uma forma muito saudável dos portalegrenses e da região viver a prova porque nem todos são amantes da modalidade, muitos são, mas acaba por ser um dia de convívio em que as pessoas vão para o campo e depois no meio daquele convívio passam ali uns malucos a andar de jipe e eu tenho a sorte de concretizar o sonho de ser um deles.
AS: É engraçado isso que disseste porque, de facto, em Portalegre, por vezes sente-se que ‘por acaso’ há uma prova no meio de todo aquele clima de festa.
NM: Há muitas maneiras de viver a prova. Há muita gente a andar de mota que depois têm os amigos a quem dão assistência, lá está, há as pessoas que gostam de ver os carros e também vem muita gente de fora, mas, da região, há quem vá para ver os carros e há quem aproveite para desfrutar porque é um dia para conviver e acho que a Baja Portalegre acabou por se tornar num excelente cartão de visita e uma boa campanha para o automobilismo.
Obviamente que o Rali de Portugal tem outros argumentos e dimensões, mas talvez a seguir ao Rali de Portugal esta seja a maior romaria e acho que é muito bom para o TT, que é a minha modalidade e aquela que gosto desde sempre. Antes de competir tive um jipe, participava em passeios de TT e ainda fiz parte das Organizações Aventura, portanto tenho esta paixão pelo TT e, como já disse, felizmente tive a sorte e o privilégio de concretizar e acabar por vir a fazer uma carreira na modalidade.
AS: Pegava justamente nesse ponto. Em que altura se dá a passagem do Nuno Matos ‘espetador’ da Baja Portalegre, para o Nuno Matos que entra num carro e vai fazer a sua primeira prova?
NM: Já disse privilegiado algumas vezes mas tenho que o repetir. Fiz a primeira época do Troféu Nissan Terreno II em 1997, com o meu irmão, na altura tinha 18 anoso. Ele decidiu fazer essa aventura e convidar-me para ser seu co-piloto, e hoje dou graças por ter passado por essa experiência porque acredito que acabei por aprender também muito e foi bom estar desse lado. Foram dois anos do Troféu Nissan Terreno II e depois mais um em que fizemos algumas provas, que acredito que também me deram alguma bagagem e sensibilidade para aquilo que também veio a acontecer, meio por acaso, que foi a passagem para o banco do lado esquerdo.
AS: Mas como é que foram esses primeiros anos com o teu irmão, pedia-te que nos falasses um bocadinho acerca disso.
NM: Foram ótimos! Para além de ser meu irmão e o meu melhor amigo havia na equipa um lado relativamente amador na nossa equipa, e que de certa forma ainda hoje se conserva. Mais do que tudo, um espírito de amizade e camaradagem. Em primeira instância os membros da equipa são uma família, somos amigos, e no dia em que isso deixar de acontecer não sei se terei motivação para continuar a competir, que é algo que para mim é efetivamente muito importante e isso também foi adquirido efetivamente nesses primeiros tempos enquanto andei ao lado do meu irmão. Não tivemos grandes resultados até porque, na altura, o troféu era bastante competitivo, salvo erro com 36 carros, todos idênticos, e nós andávamos ali no meio da tabela, chegámos a fazer um quarto lugar ou algo do género. A experiência do meu irmão não era muita a dedicação dele, até por razoes profissionais, também não era total, e a equipa não tinha muita experiência mas foram anos muito bons. O meu primeiro Portalegre foi em 1997, um ano que, para quem é mais atento ao TT, foi quase lendário por ter sido o mais curto. A Baja Portalegre já e característica e mítica pela lama, mas naquele ano, em 1997, foi mesmo um ano terrível. Nós ficámos logo no Prólogo. Lembro-me que na altura, a um mês da prova, praticamente não dormi. Antes de começarmos a prova o meu coração quase não cabia dentro do fato, e a verdade é que fizemos um quilómetro pouco e ficámos plantados, nós e muitos outros pilotos. Acabou ali o sonho da Baja Portalegre para o qual eu tinha preparado tanta coisa, mas é isso que faz do Portalegre a prova mítica que é hoje.
AS: Há uma história engraçada por detrás da tua primeira experiência ao volante enquanto piloto, como é que aconteceu tudo isso?
NM: A minha carreira tem sido construida numa série de felizes acasos. Depois do troféu eu e o meu irmão começámos a fazer as duas provas do Clube Aventura, na altura, a Baja 1000 e a Baja Portalegre porque eram as provas de que mais gostávamos e o nosso carro não era suficientemente competitivo para lutar por nada, era um por diversão, tínhamos o carro e fazíamos aquelas duas provas. O meu irmão, em 2002, por razões profissionais, foi convocado para uma reunião no estrangeiro a cerca de duas/três semanas da prova e eu tenho que lhe agradecer a feliz ideia que ele teve de me dizer, ‘o carro está pronto, a inscrição paga, arranja alguém que vá contigo porque vais fazer a prova’, e lá fui.
Aí passei para o banco do lado esquerdo e foi outra vez a mesma excitação e o mesmo stress e euforia e isso são tempos que jamais esquecerei pelo significado que têm para mim. Apesar de tudo o que já vivi depois disso foram momentos muito importantes e interessantes. O meu colega, que há data fazia equipa comigo nas Organizações Aventuras foi naturalmente o parceiro que escolhi para fazer a prova que acabámos por não terminar porque tínhamos tido um problema no início e ficámos muito cá para trás. Foi uma prova, como sempre, com lama e acabámos por ficar com os radiadores entupidos e ter de desistir a 70/80 km do fim.
O meu ‘bichinho’ ficou lá, o meu irmão percebeu que eu tinha vibrado muito com tudo o que tinha acontecido e a partir daí fiz durante alguns anos os a Baja Portalegre 500. Como na altura os apoios e disponibilidade não eram muitas, acabei por fazer vários anos até com co-pilotos diferentes que eu convidava para virem comigo viver a experiência e o sonho de fazer um Portalegre e que me ajudavam a garantir o orçamento necessário para realizar a prova.
Já o começo da minha carreira tem outra história. Em 2007 faço a minha primeira época completa no campeonato, que também não o era para ser. Nesse o campeonato começou no Algarve e eu tentei ir à prova na altura porque já tinha feito dois bons resultados e achava que era o melhor do mundo e por isso fui bater a todas as portas e portões que havia em Portalegre e mesmos onde não havia portões bati na mesma. Sabemos que é um desporto caro, era difícil, a cidade é pequena e não consegui reunir os apoios necessários para fazer o campeonato, até porque o meu currículo não era tão invejável como eu na altura achava.
AS: Estavas nas nuvens…
NM: Estava e pensava, ‘como é que serão as outras provas, queria muito viver aquilo tudo”. Na altura a A. Matos Car, que o meu irmão lidera, tinha ido para Évora, e o José Prego, da Sociedade Artística Reguenguense, tinha feito um acordo para ele patrocinar a prova e pronto, voltei a estar novamente muito perto da prova. O José Prego pediu ao meu irmão mais alguns carros que eram necessários e no meio de tudo aquilo o meu irmão lembrou-se de dizer, ‘tudo bem mas tem que dar aí um ‘jeitinho’ na inscrição do meu irmão que tem lá um carro parado, para ele ir’. O José Prego, tal como o conhecemos ainda hoje, obviamente disse que sim, ele que é também um amante da modalidade e está sempre pronto a ajudar e a que se juntem mais pessoas, e tenho que lhe agradecer por nos ter ajudado com esse gesto e praticamente não pagámos inscrição ou pagámos apenas algo simbólico.
Então acabei por ir para a primeira não Baja Portalegre e voltei a ter a sorte do meu lado. As coisas correram bem, ficámos em segundo e na altura T8 tinha cerca de 18 carros, era uma época em que o TT tinha muita quantidade de carros em todos os agrupamentos. Acabámos por fazer um bom resultado e se na altura já tinha sido difícil não ir à primeira prova, depois disso tudo fiz para estar na prova a seguir que foi a Baja TT Serras do Norte. Consegui reunir algum dinheiro e raspar todos os mealheiros que havia em casa para fazer a prova. Voltámos a ser segundos classificados e aí sim, já consegui um primeiro apoio da Cetelem, o qual felizmente se mantém ainda hoje e está comigo desde essa altura. Deu-nos um apoio para fazermos aquilo que na altura era a Baja 1000 e na altura a prova tinha três dias e valia três pontuações, que não ganhámos. Fui campeão no meu primeiro ano sem ganhar nenhuma corrida mas com alguma regularidade saímos da Baja 1000 na liderança do campeonato e já não a perdemos mais. Depois já não era capaz de não ir às restantes provas do campeonato e conseguimos concretizar o objetivo.
Lembro-me nessa altura, porque era para mim marcante, de ter um quadradinho no AutoSport a dizer ‘Nuno Matos foi campeão de T8’, revista essa que guardo religiosamente em casa. Aí percebi que para eu poder continuar a correr não podiam ser só as pessoas em minha casa e vizinhos mais próximos a saberem que fui campeão, percebi que tinha que haver um trabalho de comunicação. Não estou a dizer isto para bajular, é mesmo verdade, na altura o AutoSport foi sensível a esses argumentos, e sendo o T8 a categoria de iniciação, de dar mais visibilidade, e acho que em conjunto conseguimos criar essa onda positiva em relação ao T8 que felizmente hoje é uma categoria respeitada e na altura não era tanto assim. Mas percebi que tínhamos que fazer comunicação e trabalhar essa parte de outra forma e para 2008 já montei um projeto, não profissional, mas com as coisas levadas mais a sério. Conseguimos reunir apoios para comprar um carro mais competitivo, na mesma um Nissan Terrano II mas já uma motorização a diesel, com suspensões, mais evoluído e competitivo naquela época. Felizmente no segundo ano voltei a ser campeão de T8 e aí já venci cinco das oito provas e isto nunca mais parou.
AS: Em 2009 dás o teu passo para o T2 que também foi bem-sucedido.
NM: Sim, na altura o Rui Sousa tinha sido campeão da Taça FIA de Bajas, em 2008, e chegámos a acordo para ficar com a sua Isuzu. Estreei-me com ela nas 24 Horas TT Vila de Fronteira, com a equipa do Rui Sousa. Já não cheguei a andar porque a carrinha desistiu antes, não sei se vou cometer um inconfidência mas acho que não. Eles estavam todos muito entusiasmados e com vontade de ganhar a corrida e como sabia que a carrinha a seguir vinha para as minhas mãos, talvez fosse o que fiquei menos chateado de, prematuramente, por volta das sete horas, termos abandonado quando estávamos no primeiro lugar, mas isto é só um à parte. Ficámos com a Isuzu e demos o passo natural de ir para o T2, uma categoria e mais uma vez a sorte, e acho que já com algum mérito da minha parte e da equipa, e voltei a ser campeão. No primeiro ano como T2 cheguei a pensar mesmo que devia ser alguma ‘coisa de jeito’ como piloto porque ao terceiro ano foi o terceiro título. Em 2010 veio o desafio da Taça FIA de Bajas e até hoje foi o ano mais memorável da minha carreira, não só pelo título que acabámos por conquistar no final da época, mas porque foi um ano, quer em termos de experiência e de pilotagem, que pessoalmente se revelou o concretizar de um sonho. Montámos uma estrutura ainda mais profissional e o resultado foi o melhor que podíamos almejar que foi o de ganharmos a Taça FIA de Bajas em T2.
AS: Deu-te outra bagagem essa participação e claro a vitória na Taça FIA de Bajas?
NM: Sem dúvida. a categoria T2 a nível internacional não é a mais competitiva mas houve muitas provas, nomeadamente em Espanha, que o campeonato a nível de T2 é competitivo, conseguimos vencer a Baja Aragón no primeiro ano em que participámos.
Em Itália fizemos um terceiro lugar, ganhámos na Hungria, na Rússia fizemos novamente terceiro e estávamos em segundo até ao último troço quando tivemos um problema numa saída em que ficámos bloqueados. Foi logo a primeira prova e fizemos 5000 km até perto de S. Petersburgo. Desde logo foi uma aventura para nós e para uma equipa de amigos que tinha começado há tão pouco tempo e em que ninguém da estrutura se dedica em exclusivo ou a tempo inteiro à competição.
Na altura adquiri um camião ao Jorge Plácido, que ainda é o que temos hoje e lá enviámos a nossa Isuzu até S. Petersburgo. Foram muitos dias de viagem nós em Portalegre a acompanhar para ver se tudo corria bem. Não consegui verificar o Prólogo porque o nosso camião ficou atacado num monte na neve porque o carro não estava preparado para aquelas circunstâncias.
Foi realmente um ano fantástico em termos de aprendizagem e maturidade, de perceber que as corridas muitas vezes para se ganharem primeiro temos que chegar ao final e foi uma experiência fque gostava muito de um dia repetir.
AS: Em 2011 e depois de quatro anos e quatro títulos dás novo salto, nessa altura para o T1, aparece o Opel Astra, alcançaste também a tua primeira vitória… como é que foi esse período?
NM: Foi igualmente bom, lá está, tínhamos feitos dois anos em T8, dois em T2 e depois de ter ganho a Taça FIA de Bajas em T2 teríamos de saltar naturalmente para um projeto mais ambicioso, foi isso que fizemos na altura. Pensámos muito e acabamos por também garantir a ajuda muito importante, a Fedima, para além da maior parte dos patrocinadores que tenho a sorte de estarem comigo desde o início.
Na altura a Opel Portugal obviamente contribuiu para que pudéssemos dar esse salto, que significa um investimento muito forte. Acreditámos também na estrutura da DePieres do Fernando Santos, que àquela data ainda não tinha tido resultados tão relevantes mas em testes que fizemos com o carro dele, comparando com outros carros percebemos que para a nossa realidade provavelmente seria uma aposta que faria todo o sentido. E a verdade é que logo no primeiro ano tive a sorte de conseguir a minha primeira vitória à geral na prova de Idanha.
Na prova anterior tinha feito o meu primeiro pódio portanto aconteceu tudo muito depressa na minha carreira nesses anos. O Astra era um bom carro mas, lá está, algumas vezes tivemos problemas de fiabilidade. Fizemos ainda um segundo ano e acontece essa segunda vitória para o campeonato, na prova do Algarve (ndr, ganha por Christian Lavieille, que não pontuava para o CNTT). Depois tivemos algumas desistências e acabámos por avançar para o projeto do Mokka, que está agora no terceiro ano e felizmente com os resultados que nos queríamos ter conseguido mais cedo.
AS: E há alguma prova que te tenha marcado particularmente por alguma história engraçada, alguma situação de corrida que queiras recordar?
NM: A prova mais fantástica e com mais histórias para contar foi obviamente a Baja da Rússia em T2 e depois nesse ano fiz também o Estoril-Marraquexe que não pertencia ao campeonato de Cross Country. São aquelas provas que mais me marcaram, pela diferença que existe em relação ao que conhecemos do TT em Portugal. São bajas com desafios muito diferentes, quer na Rússia onde temos de correr com pregos e na DMax o ponto menos forte eram os travões.
Mas lá aquilo trabalhava e era fantástico, não aquecia, o carro era maravilhoso, diverti-me imenso. Fomos muito bem acolhidos, a organização fez um esforço na altura para estarmos presentes e tenho que dizer que o campeonato português lá fora é muitíssimo respeitado. Em contraponto, no polo oposto, do muito frio para o muito quente, o Estoril-Marraquexe foi aúnica experiência que tive até hoje em termos de etapas no deserto. Também foi um desafio fantástico e foi muito difícil, costumo dizer que é quase outra modalidade.
AS: Para terminar, sendo de Portalegre viste muitos pilotos a correr à tua ‘porta’ ao longo da tua vida. Quais são as referências em termos de pilotos que tens?
NM: Eu gosto e admiro muito o Nasser pelo piloto, figura e homem que é, fora e dentro das pistas. Será provavelmente o meu ídolo, ainda que as minhas características como piloto são muito diferentes. A nível nacional são vários os pilotos que admiro, até porque felizmente podemos orgulhar-nos de ter vários pilotos de grande nível. Tenho que destacar o Filipe Campos, porque em miúdo lembrome perfeitamente de o ver passar, tal como o Santinho Mendes. O Carlos Sousa tem também um percurso notável, o Miguel Barbosa, o João Ramos, o Ricardo Porém… Felizmente, existem grandes pilotos no nosso país.










