Martin Prokop prepara-se para a sua 11ª participação consecutiva no Dakar, uma década após a sua estreia em 2016, quando terminou como segundo melhor estreante. O piloto checo, aos 43 anos, abandonou depois de dez anos o seu projecto privado com a Ford Raptor ‘Shrek’ preparado pela sua equipa MP-Sports, assinando um acordo inédito com a Ford e a M-Sport para 2026.
Apesar de manter o estatuto de piloto privado, Prokop terá agora ao seu comando a Ford Raptor T1+ de fábrica, o mesmo modelo que Mattias Ekström conduziu ao terceiro lugar absoluto no Dakar 2025.

Uma carreira notável de consistência
A trajetória de Prokop no Dakar é marcada por uma fiabilidade invulgar. Em dez participações, o checo nunca falhou uma única edição, conquistando seis top-10 e atingindo uma posição máxima de quinto lugar em 2024.
Antes de se dedicar plenamente aos rally raid, Prokop distinguiu-se no WRC. Natural de Jihlava, venceu o Campeonato Junior WRC em 2009 e realizou a sua estreia absoluta no WRC, no Rali de Monte Carlo em 2005, acumulando aproximadamente 150 participações em provas do campeonato mundial.
Em 2025, o checo terminou ligeiramente fora do top-10 no Rali da Itália Sardenha e no Rali da Acrópole. Paralelamente, apresenta uma carreira exemplar no Abu Dhabi Desert Challenge, onde terminou como vice por três ocasiões (2017, 2022, 2023).
A transição para a Ford Raptor T1+ de fábrica
Desde que o acordo com a Ford e a M-Sport foi anunciado em junho, Prokop e o navegador Viktor Chytka testaram o novo carro em três provas: Baja de Aragon (6º lugar), Baja do Qatar (2º lugar) e Baja de Dubai (4º lugar).
A mudança de um projecto privado para um carro de fábrica representa uma transformação fundamental na filosofia de trabalho de Prokop, marcado anteriormente pela autonomia mas também por limitações técnicas.
Prokop, numa análise profunda sobre a nova máquina, identifica um paradoxo central: o carro é tão bom que exige um reajuste mental completo do piloto: “Temos um carro novo, a versão original da Ford Raptor T1+,” explicou. “Toda a gente pensa que se tiver o melhor carro do mercado, vai à mesma velocidade que Mattias Ekström, que o conduziu no ano passado. Mas o carro não vai rápido por si próprio. É preciso ‘empurrá-lo’ e ele fica feliz.
A grande diferença entre o carro que tive nos últimos dez anos e este novo projecto é que se pode forçar muito mais o andamento. Mas se queres ter boa velocidade, tens que ir realmente além dos teus limites, e isso é um problema para a minha cabeça!”
Esta confissão revela a dificuldade psicológica de maximizar uma máquina superior. Prokop destaca a importância do equilíbrio estratégico, particularmente num evento de catorze dias como o Dakar, onde o excesso de agressividade pode resultar em erros: “Tem que se encontrar o equilíbrio, especialmente numa corrida de 14 dias como o Dakar. Não quer forçar demasiado, mas também não pode estar demasiado relaxado. O problema é que o Raptor é tão bom de conduzir que mesmo quando está a rodar devagar, andamos bem,” acrescentou.

Os benefícios da estrutura de fábrica
A mudança para uma estrutura de fábrica oferece a Prokop um recurso previamente indisponível: acesso a dados e conhecimento de pilotos de elite: “É realmente uma grande motivação para mim,” reconheceu. “É incrível ter o seu próprio projeto caseiro e construir o seu próprio carro de corrida do zero. Mas sempre tivemos alguns problemas técnicos ou estávamos atrasados no desenvolvimento. Não se pode lutar com equipas de fábrica que têm cinco ou dez pilotos. Eu estava sempre sozinho, era apenas a minha opinião nas decisões técnicas e de setup. Agora estou num carro de fábrica conduzido pelos melhores do mundo. Portanto, pode discutir as afinações, o estilo de condução, ver os dados dos melhores pilotos.”
Esta mudança paradigmática coloca Prokop numa posição privilegiada de aprendizagem contínua, beneficiando da experiência coletiva de um programa de fábrica.
Ambições realistas para 2026
Prokop mantém as ambições elevadas sem perder o sentido de realidade. “Fomos quintos no Dakar 2024 e o pódio não ficou longe. Ao longo dos anos a competição tornou-se muito mais forte, e a lista de partida agora é incrível.
Não é fácil, mas as minhas ambições não mudaram. Fomos quintos antes, por isso agora gostaríamos de estar no top quatro, vamos ver se nos deixam!,” afirmou com ironia.
O piloto reconhece que até ao final da segunda semana de prova, a incerteza permanece absoluta. “Até ao final da segunda semana, não tem ideia de onde pode terminar. Pode sonhar com algo, mas a linha de chegada mostra-lhe a realidade.”
Viktor Chytka: Sete Dakar consecutivos como navegador
Viktor Chytka, aos 41 anos, prepara-se para a sua sétima participação consecutiva como navegador de Prokop e a sua décima no total. Membro da família de ‘Rallymen’ de destaque da Europa de Leste, o seu pai Marek foi uma figura central no desenvolvimento dos ralis de todo-o-terreno na Europa de Leste.
Chytka iniciou a sua carreira como piloto em 1989, fazendo o seu primeiro Dakar em 2009 como navegador oficial de Jiri Janecek, embora acabasse por conduzir durante a maior parte da prova. O seu pai acompanhou-o ao Dakar em 2009 e 2010 como membro da equipa de media.
Chytka reconhece que a transição para o novo carro exige um período de adaptação substancial, apesar da sua vasta experiência: “Estamos apenas a aprender,” admitiu o navegador. “Fizemos três provas no carro novo: Baja Espanha foi tudo ao máximo, Qatar foi muito bom para treino de navegação, e Dubai foi para aprender o carro nas pequenas dunas e capim de camelo. Está a funcionar muito bem, mas ainda estamos lentos. Temos que empurrar muito mais, muito mais forte. Porque como vimos, os outros miúdos estão tudo ao máximo o tempo inteiro.”
Apesar desta humildade, Chytka identifica o progresso marginal necessário. “O carro ainda é muito mais rápido do que nós, por isso precisamos de dar um verdadeiro salto em frente. Em 2024 atingimos a quinta posição, e conseguimos outro top-10 no ano passado com o nosso carro antigo, tínhamos que estar bastante felizes com isso. Mas agora temos um carro de fábrica, por isso temos que ser ainda melhores!”










