Como se antevia, a organização do rali Dakar informou as equipas e participantes de que a 49ª edição da prova vai realizar-se em África, abandonando temporariamente a Arábia Saudita devido aos acontecimentos recentes que afetam a segurança no território. A prova decorrerá entre 9 e 22 de janeiro e contará com um prólogo e uma etapa inicial em solo europeu – em Espanha ou Portugal – antes de rumar ao deserto africano.
O anúncio foi formalizado pela ASO junto dos concorrentes, definindo um percurso com um total de 12 etapas além do prólogo e uma distância estimada em 4.300 quilómetros contra o cronómetro. O plano inicial previa 5.300 quilómetros, mas a proposta final aumentou os dias de prova face a um traçado inicialmente considerado descafeinado, aproximando a quilometragem das exigências planeadas.
O percurso e o regresso a Marrocos
Após as tiradas inaugurais na Europa, o rali prossegue em Marrocos, tendo como base principal o deserto de Merzouga. O programa da prova prevê um dia de descanso a 16 de janeiro e inclui uma etapa maratona.
O calendário logístico sofreu modificações profundas na sequência da alteração de planos. O embarque de material para a Arábia Saudita, inicialmente agendado para 29 de novembro, foi cancelado, ficando estabelecido que as verificações técnicas decorrerão a 6 de janeiro no ponto de partida que for escolhido.
As cidades de origem e chegada da 49ª edição continuam por definir. Espanha e Portugal surgem como os países candidatos a acolher o prólogo e o início da prova, recuperando a tradição de partidas ibéricas registadas em anos anteriores com locais como Lisboa, Granada e Barcelona. A decisão final sobre a partida oficial será anunciada pela organização nos próximos dias. Talvez seja desta que o Lisboa-Dakar de 2008 será ‘vingado’…
Dakar 2027: o que se sabe e como chegámos aqui
Maio: o plano saudita
Em 5 de maio, David Castera apresentou em Paris um Dakar de 1 a 15 de janeiro de 2027, com partida e chegada na King Abdullah Economic City, junto ao mar Vermelho. A organização anunciou 5320 km contra o cronómetro, o maior valor desde a instalação da prova na Arábia Saudita, em 2020.
Setembro: manter a prova
Em 15 de setembro, a ASO revelou publicamente que os rumores de cancelamento eram infundados e que a preparação continuava com os parceiros sauditas. Essa comunicação documentava a posição transmitida nessa altura: manter a organização da prova, acompanhando a evolução da situação.
Em 23 de setembro, citando a Marca, a Arábia Saudita continuava a ser a solução defendida pela ASO, embora Marrocos já fosse mencionado como possibilidade de recurso.
Início de outubro: dois cenários
Durante o Rali de Marrocos, a organização reuniu-se com as equipas em Zagora e apresentou duas alternativas, segundo a Marca e o Mundo Deportivo.
Plano A — permanecer na Arábia Saudita: concentrar o percurso a norte, afastando-o da fronteira com o Iémen, e reduzir as mudanças de acampamento; a intenção era preservar as datas e uma extensão próxima da prevista.
Plano B — correr em Marrocos: organizar uma versão mais curta, de cerca de oito etapas, com início depois de 6 de janeiro; circularam as designações provisórias “Rally Merzouga by Dakar” e, posteriormente, “Dakar Series”.
A transferência para África não começou, portanto, como uma escolha de expansão ou de regresso às origens: surgiu como alternativa de contingência à realização em território saudita.
As equipas condicionaram a solução
O problema não se limitava a obter garantias locais para o percurso. Jorge Viegas, presidente da FIM, explicou ao AS que as políticas empresariais de segurança podiam impedir equipas oficiais de deslocarem pilotos e trabalhadores para um país em conflito.
O mesmo artigo apontava reservas nas estruturas oficiais de Toyota e KTM, mas não uma posição uniforme do pelotão: Carlos Sainz mostrava preocupação, Nasser Al-Attiyah defendia a realização na Arábia Saudita e Matt Wilson, da Ford, manifestava inicialmente pouca abertura à opção marroquina. É, por isso, mais rigoroso falar em pressão e preocupação de parte das equipas, e não numa exigência unânime de transferência.
As dúvidas sobre cobertura de seguros também circulavam no bivouac, mas o AS apresentava esse ponto como rumor; não está demonstrado, mas talvez tenha existido uma recusa generalizada das seguradoras.
10–11 de outubro: o agravamento
A Reuters noticiou ataques ao aeroporto internacional Rei Khalid, em Riade, nos dias 10 e 11 de outubro, com vítimas mortais, centenas de feridos e suspensão das operações aeroportuárias. Os ataques reivindicados pelos houthis atingiam, assim, uma infraestrutura essencial às deslocações internacionais, além de agravarem o contexto de segurança.
Na cobertura desportiva, estes acontecimentos foram apresentados como o fator que acelerou a passagem do cenário saudita para a alternativa marroquina. Em 14 de outubro, o AS já indicava que os responsáveis pelos roadbooks estavam a trabalhar em Marrocos, embora ainda não houvesse anúncio público da transferência.
17–19 de outubro: ampliar a alternativa
Em 17 de outubro, a RTVE ainda descrevia um plano com prólogo na Península Ibérica a 8 de janeiro e oito etapas em Marrocos, mantendo em aberto a utilização da designação Dakar.
Dois dias depois, as informações de AS, Marca e ARA apontavam já para 12 etapas mais prólogo, de 9 a 22 de janeiro, e para a manutenção do nome da prova. Esta sequência explica por que circulam notícias com oito e doze etapas, ou com arranque a 8 e a 9 de janeiro: os meios estavam a descrever versões sucessivas da alternativa.
Porquê Marrocos?
O país oferecia experiência organizativa e território conhecido pelas equipas, além da disponibilidade manifestada pelos responsáveis do Rali de Marrocos para facilitar a solução. Pep Vila, ligado à Pro Dunes, afirmou ao Mundo Deportivo que não colocaria obstáculos à realização do Dakar, apesar dos direitos organizativos que a empresa invocava para uma ronda mundialista no país.
Marc Coma também considerou possível desenhar uma prova exigente em Marrocos, mas assinalou limitações de território e de tempo para construir um Dakar com tão pouca antecedência. O alargamento do plano e a componente europeia surgem, nas informações mais recentes, associados à recuperação de um formato mais próximo da duração habitual.
Portugal é hipótese
Portugal está entre as possibilidades apontadas pela imprensa, mas não existe uma cidade portuguesa oficialmente anunciada. O AS coloca Portugal e Espanha na disputa pela componente inicial, outros reproduzem essa possibilidade, sem identificar um acordo fechado. ligação histórica é relevante: Lisboa acolheu a partida de 2007 e deveria ter recebido a de 2008, cancelada por ameaças de segurança em África. Isso não permite, porém, transformar Lisboa — ou qualquer outra localização portuguesa — em sede confirmada para 2027. Mas pode suceder…
Nome e regresso à Arábia
A controvérsia sobre o nome deve ser descrita como uma questão contratual, sem concluir que a Arábia Saudita é por agora proprietária da marca: a documentação oficial dos concorrentes identifica o nome e o logótipo Dakar como propriedade exclusiva do organizador. As notícias sobre negociações para usar a designação fora do território saudita não tornam público o conteúdo do contrato entre as partes.
Também não está confirmado um regresso em 2028: alguns meios apontam essa intenção, dependente da segurança, enquanto o AS apenas caracteriza a mudança como pontual. A formulação prudente é, assim, transferência excecional para 2027, e não abandono definitivo da Arábia Saudita.
O enquadramento histórico
O último Dakar disputado em África foi o de 2007; a edição de 2008 foi cancelada, a prova passou para a América do Sul em 2009 e estreou-se na Arábia Saudita em 2020. Um regresso em janeiro de 2027 aconteceria, portanto, 20 anos depois.
O que falta conhecer
O comunicado público da ASO e o mapa atualizado, substituindo o programa saudita ainda publicado. As cidades de partida e chegada, os países efetivamente envolvidos e a posição das etapas europeias. A extensão oficial dos setores seletivos e das ligações, esclarecendo os valores de 4300 e 4900 km. Esperamos por confirmações oficiais.









