Há edições que se contam pelos resultados; outras, raras, sobrevivem pelo som que deixaram no ar. O Rali Vinho da Madeira de 1986 foi assim. Num arquipélago onde o asfalto se agarra à montanha e o público se encosta à estrada como quem participa, a presença de máquinas do Grupo B — no auge e à beira do fim — deu à prova organizada pelo Clube Sports da Madeira um peso histórico difícil de repetir. Foi o tempo em que a potência se media em excesso e coragem, e em que cada troço parecia uma arena.
O contexto de um fim anunciado
1986 foi o último capítulo pleno do Grupo B, meses antes de a era terminar sob o peso dos seus próprios excessos. Na Madeira, esse mundo chegou inteiro: mais de uma centena de equipas à partida e um lote de carros onde conviviam o brutal Lancia Delta S4, os ágeis Lancia 037 e o irreverente Renault 5 Maxi Turbo. A ilha oferecia o cenário perfeito: troços sinuosos, variações de altitude, aderência traiçoeira e uma multidão conhecedora, colada às bermas.
Fabrizio Tabaton aterrou com o argumento mais convincente de todos: um S4 que, em potência, não tinha rival no pelotão. “Sabíamos que tínhamos um carro para ganhar, mas a Madeira não perdoa distrações”, recordaria mais tarde, numa síntese que explica o equilíbrio delicado entre superioridade técnica e sobrevivência.
Tabaton, o domínio e as pequenas falhas
Desde o primeiro troço, Tabaton instalou-se na frente e nunca mais a largou ao longo das 25 classificativas. O Lancia trabalhou com a precisão de um relógio, ainda que não imune aos caprichos da prova: no terceiro troço, a servo-assistência da direção cedeu; na segunda etapa, um furo obrigou a gerir uma vantagem que já era confortável. Nada que beliscasse o essencial — a sensação de controlo permanente sobre a corrida.
Atrás, Carlos Sainz surgia como o opositor mais próximo. O espanhol, então em afirmação, tinha nas mãos um Renault 5 Maxi Turbo com menos cerca de 100 cv do que o S4. A diferença de números acabaria por traduzir-se em estrada. “Fizemos o que era possível”, diria Sainz anos depois, sublinhando a inevitabilidade de um desfecho em que o talento não bastava para anular a disparidade mecânica.
A luta pelo pódio e o gesto que ficou
A segunda etapa trouxe sobressaltos que redesenharam o pódio. Problemas de injeção e um furo atrasaram Sainz, permitindo a ascensão de Gianfranco Cunico, em Lancia 037, ao segundo lugar. Mas a Madeira cobra sempre mais uma fatura: no troço mais longo, tanto Tabaton como Cunico furaram e tiveram de parar. O líder perdeu apenas terreno; Cunico, esse, cairia na classificação, ultrapassado por Sainz e por Patrick Snijers, também em 037.
Na derradeira etapa, quando Sainz parecia conformado com o segundo posto, a prova ofereceu um dos seus momentos mais humanos. Uma rotura no escape do Maxi Turbo transformou o compartimento do motor num foco de incêndio. O sistema automático não chegou. Foi Snijers quem parou e entregou um extintor ao espanhol, evitando a destruição total do Renault. “Naquele momento, não havia posições, só havia um colega em apuros”, confessaria o belga. O gesto não lhe custou o resultado: Snijers acabaria por assegurar o segundo lugar e vencer o Troféu 037, entre sete Lancia presentes.
Portugueses entre a bravura e a frustração
Entre os nacionais, Carlos Bica destacou-se como o melhor português, terminando em quinto absoluto. Depois de uma luta intensa com Mauro Pregliasco no seio do “pelotão 037”, Bica impôs o seu ritmo na fase final, capitalizando a consistência num rali de desgaste. “Aqui, chegar já é meio caminho”, comentou, numa frase que resume a exigência da prova.
Menos feliz foi Joaquim Santos, ao volante do Ford RS200 da Diabolique. Houve lampejos — incluindo a vitória num troço — mas a mecânica não acompanhou: furo, caixa de velocidades, travões, suspensão e, por fim, um tubo do intercooler que deixou o carro sem turbo. O nono lugar soube a pouco. “Tínhamos andamento para mais”, lamentaria, ecoando uma frustração partilhada pela equipa.
As outras batalhas: Turismo e Produção
Fora da geral, travaram-se duelos que também fazem a memória da edição. Nos Turismo, Yves Loubet dominou com um Alfa 75 atmosférico desde cedo, deixando a luta pelo segundo lugar em aberto entre Peugeot e Toyota. O desfecho foi imprevisível: despistes e abandonos baralharam as contas, com Manuel Acosta a assegurar o segundo posto e o madeirense Vasco Silva a fechar o pódio da categoria, a larga distância.
Na Produção, César Baroni impôs o Ford Escort RS Turbo da Ford France, destacando-se logo no arranque. A presença do Troféu Peugeot francês trouxe à ilha um lote competitivo de 205 GTI, que animaram a prova com um espetáculo intenso. Entre os portugueses, Manuel Rolo chegou a discutir posições até dois piões culminarem numa violenta pancada e posterior abandono. António Segurado também viu a sorte virar, com problemas de travões e transmissão a resultarem em penalizações pesadas. No fim, Jacques Dubert capitalizou os azares alheios para ser segundo, enquanto Abel Spínola foi o melhor madeirense, sexto da Produção, mantendo a honra da casa.
O eco que permanece
O Rallye Vinho da Madeira de 1986 permanece como um retrato fiel de uma era irrepetível. Não apenas pelo triunfo claro de Tabaton e do seu Delta S4, mas pela soma de episódios que definem o desporto automóvel: a superioridade técnica que se impõe, a mecânica que trai, o risco que espreita em cada curva e, sobretudo, o gesto de fair-play que sobrevive ao tempo.
Hoje, quando o rali se escreve com outras regras e outros limites, regressar a 1986 é ouvir de novo o rugido do Grupo B a ecoar nas encostas da ilha. E perceber que, por mais que o cronómetro dite vencedores, são estas histórias — feitas de homens, máquinas e decisões em frações de segundo — que verdadeiramente ficam.
FOTO Facebook Rali da Madeira








