Por José Caetano
Este fim de semana, em Le Mans, a Peugeot comemora 100 anos de participações nas 24 Horas de Le Mans. Desde a estreia, em 1926, com o 174 S, a marca do leão esteve em 44 edições da corrida de resistência mais importante e mediática do desporto automóvel, entre presenças oficiais, associações a equipas privadas ou “apenas” na condição de fornecedora de motores. E soma três vitórias absolutas, em 1992 (905), 1993 (905 Evo 1B) e 2009 (908 HDi FAP). Este ano, na 94.ª edição da maratona, 9X8 nas posições 16 (#93) e 18 (#94) da grelha de partida, na categoria de topo Hypercar. Depois de qualificação tão dececionante, a ambição é recuperar muitos lugares e terminar a clássica entre os primeiros classificados.

A história da Peugeot em Le Mans não é sempre de sucesso, mas tem capítulos bem definidos de aprendizagem, afirmação e domínio. Em 1926, ainda numa fase embrionária de corrida realizada pela primeira vez em 1923, e nas primeiras participações, a marca não conseguiu classificações de destaque, mas esteve nas 24 Horas para desenvolver elemento fundamental no ADN da marca: a fiabilidade. Nas décadas de 1930, 1940 e 1950, mão cheia de presenças pontuais, sempre com máquinas derivadas de carros de produção em série, com diversas classificações honrosas, mas nunca com a vitória debaixo de olho. Neste período, prioridade à consolidação do progresso técnica, não ao desempenho competitivo.

A época dourada do 905 e a primeira vitória
Depois, período longo fora de cena, fase que terminou apenas no início da década de 1990, na era dos protótipos modernos. Em 1991, introdução do 905, que teve início difícil: os dois carros inscritos demonstraram potencial, mas abandonaram a corrida. Em 1992, reação contundente: primeira vitória absoluta (Derek Warwick, Yannick Dalmas e Mark Blundell), num carro que tinha o português Carlos Barros como chefe da equipa de mecânicos – o segundo carro da marca (Mauro Baldi, Philippe Alliot e Jean-Pierre Jabouille) também terminou no pódio, na terceira posição. Um ano depois, em 1993, a Peugeot protagonizou um dos resultados mais dominadoras da história de Le Mans, com três 905 no pódio: ganhou o carro de Geoff Brabham, Christophe Bouchut e Éric Hélary, à frente do de Thierry Boutsen, Yannick Dalmas e Teo Fabi, e do de Philippe Alliot, Mauro Baldi e Jean-Pierre Jabouille. O 905 tinha motor V10 3.5 atmosférico, mecânica que chegaria à Fórmula 1, e uma aerodinâmica de topo (para a época…).

908 HDi FAP no regresso ao protagonismo
Na ressaca da embriaguez do sucesso, a marca decidiu sair de cena outra vez. Indiretamente, no início dos anos 2000, regressou ao Circuito de la Sarthe em parceria com equipas privadas como a Courage e a Pescarolo. Estes projetos, que também não conseguiram resultados de topo, garantiram, todavia, a manutenção da atualização técnica e da consistência competitiva, como demonstram as presenças regulares no “top-10”.

O regresso ao protagonismo aconteceu em 2007, com o 908 HDi FAP. Então, as mecânicas a gasóleo encontravam-se no topo da procura no mercado europeu e o Peugeot tinha um motor Diesel (V12 biturbo) que representava uma abordagem tão disruptiva como ousada à competição nas 24 Horas de Le Mans. Logo na estreia, a Peugeot, com Pedro Lamy, Stéphane Sarrazin e Sébastien Bourdai, conseguiu uma segunda posição. Em 2008, mais dois carros no pódio (segundo lugar para Nicolas Minassian, Marc Gené e Jacques Villeneuve, terceiro para Christian Klien, Ricardo Zonta e Franck Montagny). A vitória que faltava aconteceu em 2009, com David Brabham, Marc Gené e Alexander Wurz!
Mas, como tantas vezes acontece em Le Mans, insucesso depois do sucesso. Em 2010, mesmo contando com um dos carros mais rápidos do pelotão, os protótipos da Peugeot abandonarem a corrida por problemas mecânicos, colapso que ilustra bem a exigência extrema das 24 Horas no Circuito de La Sarthe. Em 2011, recuperação parcial da boa forma, com três carros no “top-4” (Sébastien Bourdais, Simon Pagenaud e Pedro Lamy), mas sem conseguir impedir a vitória do Audi R18 TDI, de Marcel Fässler, André Lotterer e Benoît Tréluyer, protótipo que também tinha mecânica Diesel.

Regresso na edição comemorativa dos 100 anos
Pouco depois, terceira saída de cena! Em 2023, na edição comemorativa dos 100 anos de Le Mans, aproveitando as vantagens do regulamento Hypercar que sucedeu ao LMP1 em 2021, estreia no Mundial de Resistência (WEC) criado em 2012 e regresso às 24 Horas! O conceito original, radical, dispensava a tradicional asa traseira, apostando no efeito de solo e numa abordagem aerodinâmica inovadora. Na estreia em Le Mans, hipercarro da marca do leão até chegou a liderar a corrida, mas a Peugeot não conseguiu melhor do que o oitavo lugar. Em 2024, já com uma versão profundamente revista (cerca de 90% da carroçaria redesenhada), ambos os carros terminaram a prova sem problemas mecânicos, classificando-se em 11.º e 12.º. Em 2025, 9X8 n.º 94 na 12.ª posição.
No cartão de visita da Peugeot no Circuito de la Sarthe, três vitórias absolutas, diversos pódios distribuídos por diferentes eras das 24 Horas, períodos de domínio e resultados dececionante. Facto inequívoco: em 100 anos, a marca francesa demonstrou sempre capacidade para regressar à competição com propostas técnicas diferenciadoras. “Le Mans é muito mais do que uma corrida. Representa um teste extremo à capacidade técnica, organizativa e humana de uma equipa”, resume Carlos Barros, atualmente membro da equipa técnica da Federação Internacional do Automóvel (FIA).











