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Richard Burns foi Campeão há 20 anos, perdeu a vida ha 16. Recorde-o, na primeira pessoa | AutoSport
 

Richard Burns foi Campeão há 20 anos, perdeu a vida ha 16. Recorde-o, na primeira pessoa


25 de novembro de 2001 e 25 de novembro de 2005. O dia de Richard Burns. No domingo, 25 de Novembro de 2001, ele e Richard Reid foram coroados Campeões do Mundo de Ralis, e na sexta-feira, 25 de novembro de 2005, Richard Burns perdeu a vida, na sequência de um tumor no cérebro. Hoje, recordamo-lo. 20 e 16 anos depois…

Depois de ter andado tanto tempo atrás do título mundial, Richard Burns foi Campeão do Mundo de Ralis em 2001. Quando lhe fizemos esta entrevista, ainda não se tinha consciencializado de que era mesmo o sucessor de Marcus Gronholm. O piloto inglês falou ao AutoSport poucas horas após ter conseguido esse feito, destacando o mau início de época, a pressão de Colin McRae e o futuro que passava pela Peugeot. Como se sabe, perdeu a vida a 25 de novembro de 2005, depois duma longa luta contra uma doença.

Um desabafo: “Não penso que tenha guiado especialmente bem este ano. Sinto que guiei muito melhor na segunda metade da temporada de 1999 e no início de 2000, do que este ano. Nunca senti aquele ‘feeling’ que me permitisse estar sempre a cem por cento, mesmo se os problemas com o Impreza WRC, no início da época, não me tenham afectado. Apenas não me sentia confiante como nos anos anteriores…”. Foi assim que Richard Burns começou a conversa no final do Rali da Grã-Bretanha, o “seu” rali, aquele onde já venceu por três vezes e onde, este ano, se sagrou Campeão do Mundo.
Depois desta confissão, o piloto inglês lembrou a enorme pressão sentida nos dias anteriores à prova ir para a estrada: “As primeiras três classificativas do rali foram, para mim e para o Robert (Reid. navegador, ndr) as mais difíceis. Havia tanta pressão por parte de toda a gente e com as classificativas no estado em que estavam, percebemos que não ia ser nada fácil… Tínhamos traçado um plano para o início do rali e limitámo-nos a seguir essas orientações, começando cautelosamente na primeira ‘especial’ para depois darmos o máximo na seguinte, com vista a ‘ir buscar’ o Colin. Pelo seu tempo no primeiro troço, percebemos que iria andar sempre a fundo, pelo que não podia deixá-lo ter uma vantagem significativa desde o início. Com a sua desistência, tudo se alterou, mas tenho pena que este grau de excitação não se tenha mantido até domingo”.

Notas rápidas… demais
Sem dúvida que Burns teve que se alhear do facto que os únicos que lhe podiam tirar o título tinham já ficado pelo caminho, para poder permanecer concentrado até ao último controlo. Para tal, o inglês encontrou uma solução… diferente: “Para poder estar a cem por cento nas ‘especiais’, tinha que ter a cabeça sempre ocupada, sobretudo durante as ligações. Assim, estive sempre a falar ao telemóvel com amigos meus, sobre tudo e mais alguma coisa, a planear férias, sobre futebol, tudo menos sobre o rali! Isso ajudou-me a chegar ao início de cada troço com a cabeça no lugar, sem sentir o ‘peso’ do rali”.
No entanto, e apesar de muito cedo ter ficado mais à vontade para vencer o campeonato, as desistências de McRae e Makinen acabaram por dificultar, de alguma forma, a sua prova: “É verdade. Quando fizemos os reconhecimentos, optámos por tirar notas um pouco… ambiciosas, pois pensávamos que iriamos andar sempre ao ataque. Por exemplo, o Robert tinha chamadas de atenção para várias curvas que teríamos que ‘sobrevoar’ para ganhar tempo aos nossos adversários. A partir dos abandonos, demos por nós a fazer o rali com um ritmo diferente do que as notas pediam, o que nos obrigou a fazer tudo de novo para os restantes dias”.
Com 2001 para trás, é tempo de pensar na próxima temporada, pese embora o facto de Burns ainda não assimilar, por completo, o seu feito: “Espere lá… Eu sou mesmo Campeão do Mundo?! Já me fiz esta pergunta várias vezes e ainda não acredito! É que não me lembro se, e quando, é que me perguntei pela primeira vez se seria algum dia Campeão do Mundo! Quando comecei a fazer ralis, não tinha um objectivo específico, antes guiava porque adoro guiar. Não existiam planos traçados ou objetivos a atingir, pois nunca pensei chegar onde cheguei”.

E agora a Peugeot
Depois de cinco anos ligado à Subaru (1994/95 e 1999/2001), Richard Burns está de regresso à Peugeot, já que foi com um carro do “leão” francês que se iniciou no “Mundial”, já lá vão 11 anos. “Ainda não conduzi o 206 WRC, pelo que não sei o que me espera, mas sei que os nossos adversários vão ser os mesmos: Makinen, McRae, Gronholm e mesmo Harri Rovanpera. Para além disso, o Tommi vai para a Subaru, o que acaba por ‘nivelar’ um pouco as coisas, pois terá à disposição um carro ‘performante’. Quanto a mim, espero que a minha adaptação corra pelo melhor, até porque não faço ideia como funciona a equipa. Mas tratando-se da formação bicampeã do Mundo, sei que só posso estar descansado”.

Troca de “mimos” com Colin McRae: “Faz parte do espectáculo”
Falar de Richard Burns é, ao mesmo tempo, falar de uma rivalidade latente com outro piloto, também Campeão do Mundo, Colin McRae. Desde que Burns surgiu no panorama do “Mundial” como figura permanente e que o seu talento começou a intensificar-se, a questão de saber qual dos dois seria o melhor piloto britânico nunca mais foi posta de parte. Se bem que McRae seja escocês, o piloto da Ford é conhecido pelo seu (pouco) humor mordaz, colocando, sempre que possível, a pressão nos seus adversários. Por isso, a troca de “galhardetes” a que se assistiu dias antes do Rali da Grã-Bretanha ir para a estrada fazia, segundo Burns, parte do espectáculo: “Já conheço bem o Colin para saber que essas ‘bocas’ não passavam de uma tentativa para me pressionar antes do rali arrancar. Aliás, a Ford fez a sua conferência de imprensa no dia anterior à nossa, fazendo com que eu fosse ‘bombardeado’ com as afirmações dele! Limitei-me a não responder e a não deixar que tal afetasse a minha concentração. Mas, penso que não existe nenhum problema entre nós, até porque antes do rali começar, o Colin veio ter comigo, debruçou-se no Impreza e disse-me ‘Ok, a palhaçada já acabou. Vamos ao que interessa, faz um bom rali e boa sorte’. O facto de não ter conseguido ser campeão não fez dele um piloto inferior, mas penso que o que aconteceu pode levá-lo a concentrar-se um pouco mais”.

A meio caminho do recorde…
Curiosamente, Richard Burns conseguiu o feito de se sagrar Campeão do Mundo de Ralis na pior das últimas três temporadas, “período” em que se assumiu sempre como candidato ao título. De facto, a presente época viu o piloto inglês no degrau mais alto do pódio apenas por uma vez, na Nova-Zelândia, país onde obteve a primeira das suas atuais 11 vitórias. O primeiro sucesso remonta a 1996, então ao serviço da Mitsubishi, após troca com a… Subaru, com Burns a vencer uma prova que, nesse ano, contou apenas para o “Mundial” de Fórmula 2. Após uma época de 1997 muito regular – onde foi cinco vezes quarto classificado -, a segunda vitória viria a surgir no ano seguinte, no Quénia, seguindo-se-lhe a primeira das três vitórias no “seu” rali, na Grã-Bretanha. Em 1999, de volta à Subaru, Burns venceu por três vezes (Grécia, Austrália e Grã-Bretanha), batendo esse número no ano passado, quando conseguiu quatro primeiros lugares (Quénia, Portugal, Argentina e Grã-Bretanha). Assim, a vitória número 11 aconteceu no passado mês de Setembro, ou seja, o novo Campeão do Mundo ainda não chegou a meio da “caminhada” que terá que fazer para chegar às 23 vitórias que Juha Kankkunen, Carlos Sainz, Tommi Makinen e Colin McRae possuem…ic MT 1 (Subaru)o planeamento da prova de estrada e escolha de percurso para as classificativas, constata:

Quénia foi fase mais “negra” de 2001: “Pensei que era o fim…”
Apontado desde o início do ano como forte candidato a “recuperar” o título “perdido” para Marcus Gronholm em 2000, Richard Burns não teve o melhor dos inícios. No Monte Carlo desistiu, esteve muito mal na Suécia, no “TAP” foi quarto, sétimo na Catalunha, terminando no segundo lugar na Argentina e Chipre, depois de ter abandonado na Grécia… quando era segundo! Chegou-se então ao Quénia… e aos poucos quilómetros que percorreu: “Quando abandonei, pensei, sinceramente, que as hipóteses de ser Campeão do Mundo tinham terminado. Mantive sempre uma pequena crença, mas atendendo ao início de temporada que estávamos a ter, sabia que teríamos um desafio enorme pela frente. Tínhamos poucos pontos e poucos ralis para recuperar…”.

Nome: Richard Burns
Data de nascimento: 17/01/1971 (Reading)
Estreia no Mundial: 1990 (RAC/Peugeot)
Primeira vitória: 1996 (Nova-Zelândia/Mitsubishi)
Última vitória: 2001 (Nova-Zelândia/Subaru)
Número de vitórias: 11
Palmarés: Campeão do Mundo 2001 (Subaru)

Martin Holmes