OPINIÃO, Rali de Portugal: o que fazer quando o dinheiro não abunda? Ser sempre o melhor…

Por a 1 Maio 2022 14:36

Algo mudou no WRC nos últimos tempos e há que saber lê-lo. Há precisamente 10 anos, entrevistámos Pedro de Almeida, na altura Diretor do Rali de Portugal e o seu mote era: “Inovar para ficar”. Não me parece que isso tenha mudado, mas algo mudou no WRC, e não estou a falar de regulamentos. Esses já mudaram duas vezes, entretanto.

Pedro de Almeida referia-se ao que seria preciso o Rali de Portugal fazer para se manter no calendário do WRC: “há que considerar a concorrência. Das 11 provas disputadas na Europa, seis parecem ter lugar cativo. O Rali de Monte Carlo não sairá porque é a prova mais emblemática do WRC, a Suécia também não porque é o único rali de neve do campeonato; França e Alemanha dificilmente perderão os seus lugares pelas forças dos seus

construtores e mercados que lhes estão agregados; Finlândia também ficará sempre por força do seu historial, enquanto Inglaterra é vista como o berço dos ralis e Espanha o rali do Mundial com mais retorno de marketing. Contas feitas, só sobram Portugal, Itália e Grécia”. Qual é então a solução? Segundo Pedro de Almeida só é possível fazer três coisas: temos que ser sempre muito melhores que os melhores; depois o Vodafone Rali de Portugal tem que ficar isento de erros e apresentar sempre soluções inovadoras; e, finalmente, temos que ter abertura suficiente para fazer aquilo que os outros não querem fazer como, por exemplo, os troços noturnos”.

Uma grande visão, que se continua a aplicar pelo ACP, mas Pedro de Almeida não estava certo em algumas coisas: é verdade que o Rali de Monte Carlo dificilmente sairá do calendário porque continua a ser a prova mais emblemática do WRC, a Suécia já saiu, mas se repararem o Promotor do WRC logo arranjou uma solução igual, o Rali do Ártico, pelo que é fácil perceber que se os suecos tiverem condições para se manter – e conseguiram-nas este ano ao levar o rali muito para norte – terão sempre lugar no calendário.

Onde Pedro de Almeida se enganou foi no “França e Alemanha dificilmente perderão os seus lugares pelas forças dos seus construtores e mercados que lhes estão agregados”, e isto significa boas e más notícias para Portugal: por um lado, como não temos mercado automóvel relevante, este será sempre um óbice, mas por outro lado, sabemos que França e Alemanha saíram porque não conseguiram um acordo monetário relevante com o Promotor e porque as suas provas não eram de uma grande mais valia para o WRC que justificasse permanecerem. Já lá vamos à conclusão.

“O Rali da Finlândia também ficará sempre por força do seu historial”, corretíssimo, enquanto Inglaterra é vista como o berço dos ralis. É verdade, mas já ficou fora do WRC. Porquê? Acordo comercial! O Rali de Espanha tem muito retorno de marketing. OK, é importante, mas Espanha também já ficou de fora recentemente quando se iniciou uma espécie de rotatividade.

Sabemos há muito que o WRC está muito perto de rumar aos EUA. Em conversa com Peter Thul (WRC Senior Director Sport), em outubro passado, este dirigente revelou-nos que o WRC vai muito brevemente um rali nos EUA, quase de certeza já em 2023.

Revelou também que o Promotor do WRC andava ‘atrás dos russos’: “porque é muito importante para os nossos construtores”, agora já não anda, de certeza absoluta, e depois, obviamente “na China, porque é o maior mercado atualmente e com quem temos vindo a conversar durante os últimos anos”, sendo que aqui a questão continua a ser óbvia.

O WRC já tentou há uns anos, esteve perto, mas os chineses esforçaram-se pouco e a prova caiu. Agora o WRC voltou à carga, e pode haver novidades, quando os chineses estiverem para aí virados. O que não é fácil.

Conclusão: Pedro Almeida disse na altura que a solução para Portugal é fazer três coisas: “temos que ser sempre muito melhores que os melhores; depois o Vodafone Rali de Portugal tem que ficar isento de erros e apresentar sempre soluções inovadoras; e, finalmente, temos que ter abertura suficiente para fazer aquilo que os outros não querem fazer como, por exemplo, os troços noturnos”.

Neste último aspeto, não é de enorme importância, mas nos outros dois aspetos o ACP tem feito um Rali de Portugal “sempre muito melhor que os melhores”.

É nisto que o ACP aposta, é isso que tem sucedido, e a lista de inscritos deste ano prova-o. Fomos ver e a conclusão é arrasadora: desde que o Rali de Portugal regressou ao WRC em 2007, que não tinha tantos inscritos, nestes anos anos (2007-2022) simplesmente seis ralis tiveram mais participantes (Rali da Córsega 2015, 123 à partida, Finlândia 2011, 118 à partida, Nova Zelândia 2007, 112 à partida, Nova Zelândia 2008, 111 à partida, Grã-Bretanha 2007, 108 à partida, Alemanha 2007, 102 à partida, Rali de Portugal 2022, 100 inscritos).

Como se percebe, há vários anos que o WRC não tem 100 inscritos. O Rali de Portugal de 2015 chegou perto: 94 concorrentes à partida. Portanto, a quarta prova do Campeonato do Mundo de Ralis de 2022 é o evento que registou maior número de inscrições: 100.

Portanto, o que se tem de continuar a fazer para que o Rali de Portugal se mantenha no calendário do WRC é tornar sempre muito difícil a quem decide pensar sequer tirar a prova do calendário, e é exatamente isso que tem sucedido.

Não há coincidências, o Rali de Portugal é uma enorme festa, não há piloto que não adore a nossa prova, e não só num ou noutro aspeto, é em todos.

É claro que não posso deixar de referir que tem sempre de haver os apoios necessários para que a prova se realize, mas quando se olha para o retorno que o evento dá ao país e só o que o estado recebe diretamente oriundos dos impostos, cobre várias vezes o investimento público que é feito, não há absolutamente razão nenhuma para que o rali não seja apoiado.

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