O primeiro WRC da Hyundai nasceu há 20 anos


A Hyundai regressou ao WRC em 2014 e teve mais sucesso nos primeiros doze meses do que em toda a primeira ‘vida’ da marca no WRC, entre 2000 e 2003.

Apesar de já estar na competição de duas rodas motrizes, foi há precisamente 20 anos que a Hyundai apresentou o seu primeiro WRC, o Accent, que foi um sucesso de vendas em quase todo o Mundo. Hoje, 20 anos depois de ter visto a luz do dia (foi apresentado em 1999), ainda é fácil vê-los por aí, nas nossas estradas e ruas.



Mas, quando olha para o seu aspeto frágil, é difícil imaginar que deu corpo ao primeiro programa da Hyundai no WRC.
Mas deu: na sua segunda geração, o modelo compacto coreano passeou-se pelos principais ralis do WRC, TAP/Rallye de Portugal inclusive. Ao volante, estiveram alguns dos melhores pilotos de então, como Juha Kankkunen ou Kenneth Eriksson, mas também nomes como Armin Schwarz, Piero Liatti ou Alister McRae. Animada pelos bons resultados conseguidos em 1999 – ganhou o Campeonato Ásia-Pacífico, com o Coupé Kit Car, entregue a Eriksson e McRae – a Hyundai decidiu dar um passo em frente no ano seguinte: entrar no WRC, com um carro de quatro rodas motrizes e um motor 2.0 litros turbo, com cerca de 300 cv de potência. O modelo escolhido foi o Accent, pelas suas dimensões compactas.

Depressa esta ideia se revelou quase um fiasco, pois o Accent WRC, nas suas três versões, nunca foi muito competitivo e jamais venceu uma prova. Em
quatro temporadas (a última, 2003, nem sequer foi completa…) o melhor que conseguiu foram dois 4º lugares – na Austrália em 2000 e no Rali da Grã-
Bretanha de 2001. Depois disso, sem grande tração e sem velocidade de ponta, o Accent WRC deixou de lutar pelas posições e passou a lutar por chegar ao fim. O que nem sempre conseguiu pois, além do mais, passou a ser cada vez mais frágil.

No entanto, desta primeira aventura a Hyundai retirou os ensinamentos suficientes para não cometer os mesmos erros, quando decidiu regressar, em
2014, com o i20 WRC – com o qual já venceu mesmo uma prova, logo no primeiro ano, o Rali da Alemanha. E, também ficou a saber com gerir uma temporada no WRC e aquilo que iria aí encontrar – ou seja, agora não foi apanhada de surpresa… por alegada inexperiência. Bem pensado mas…

Curiosamente, o Accent WRC até tinha todas as bases para ser bem sucedido. Bom, talvez não as genéticas – a Hyundai não tinha nenhum modelo de facto à medida das exigências e o Accent, mais curto e maneável que o Coupé (ou Tiburon, nos mercados fora da Europa), não se revelou o melhor berço para o motor 2.0 turbo e as suas três centenas de cavalos. Mas lá que a Hyundai não quis deixar os seus créditos por mãos alheias, ao escolher a Motor Sport Development (MSD) – que já tinha trabalhado no Coupe Kit Car nos dois anos anteriores – para desenvolver o carro e a Mountune (que desenvolvera o motor do Skoda Octavia WRC, que viria a ser, com o SEAT Toledo WRC, um dos seus principais adversários futuros) para desenvolver o motor.

Porém, surgiu logo um primeiro problema: a equipa, dirigida pelo competente David Whitehead, tinha somente nove meses para tornar viável o projeto, com os quatro últimos consignados por inteiro para testes dinâmicos. Ou seja, o tempo era menos que escasso para tornar o projeto vencedor – ou pouco menos que isso. E nem com Bob Bell, um engenheiro com grande experiência na F1, encarregue da transmissão e com a aerodinâmica trabalhada por Pete Stevens, as coisas ficaram melhores.

O resultado de uma parceria que se mostrou demasiado ambiciosa, embora bem apetrechada em termos humanos (se bem que com um ‘budget’ mais limitado que o existente a partir de 2013 para erguer o projeto do i20 WRC) foi, portanto, o Accent WRC. Um carro que era a sequência lógica do envolvimento recente da Hyundai no campeonato e da experiência dos seus criadores: o motor era o mesmo 2.0 do Coupe Kit Car, mas com um turbo Garrett e montado em posição transversal e a 12º, ara baixar o centro de gravidade. A caixa de velocidades, uma X-Trac semelhante às usadas pela Ford no Focus WRC, foi colocada por trás do motor, em posição longitudinal.

As suspensões tinham por base sistemas McPherson e os diferenciais eram diferentes – gestão eletrónica para o central, de acoplamento viscoso e mecânico para os dianteiro e traseiro. Outro problema que os técnicos encontraram foi meter tudo dentro da carroçaria do Accent, que era demasiado pequena e acanhada. Além disso, tinha a mais curta distância entre eixos de todos os seus rivais e, por isso, o depósito de combustível e outros elementos foram colocados mesmo por trás dos bancos dianteiros.

Em 2001, surgiu a segunda versão (WRC2), com melhorias no motor, cuja potência era agora entregue de forma mais progressiva e um diferencial dianteiro ativo. A carroçaria recebeu retoques aerodinâmicos, o chassis foi tornado mais rígido e as suspensões tinham maior curso, por causa das provas em pisos de terra. A última evolução, o WRC3, surgiu no Tour de Corse de 2002, com a MSD a introduzir mais melhorias no motor, designadamente no turbo e também na suspensão.

Altos e baixos
O Accent WRC estreou-se na Suécia, a segunda prova do Mundial de 2000. Com Kenneth Eriksson e Alister McRae – que vinham já do Coupe Kit Car – ao volante, conseguiram chegar ao fim, mas muito longe dos pontos. O primeiro destes surgiu na Argentina, onde McRae foi 7º. Mas, com tantos abandonos (os dois carros em Portugal e na Acrópole e um na Catalunha e na Nova Zelândia), foi mesmo dos antípodas que veio alguma alegria. Primeiro, foi o 5º lugar de Eriksson, na Nova Zelândia e, mais tarde, na Austrália, o sueco realizou uma das melhores exibições do Accent, ganhando duas classificativas e conseguindo chegar em 4º lugar, batidos ‘apenas’ pelos Peugeot 206 WRC de Marcus Gronhölm, que ganhou, e de François Delecour, que foi 3º, e pelo Subaru Impreza S6 WRC de Richard Burns, que foi 2º.

Uma ‘gracinha’ que foi repetida na última prova de 2001, o Rali da Grã-Bretanha, mas agora pelo local Alister McRae, que foi de novo 4º e de novo batido pelos mesmos carros – embora agora com Harri Rovanpera (Peugeot) a secundar o vencedor Gronhölm e Burns em 3º. Porém, durante todos estes anos, os resultados do Accent foram oscilando entre a discrição e os sucessivos abandonos. Nos finais de 2002, a saída da Castrol como principal patrocinador precipitou o início do fim, com a Hyundai a deixar o WRC após o Rali da Austrália do ano seguinte, com o agudizar do conflito com a MSD. Todos os Accent WRC passaram a ser usados por pilotos privados, com um deles, nas mãos de David Higgins, a vencer o Campeonato britânico em 2004.

Hoje em dia as coisas são bem diferentes, a marca coreana já conta com 11 vitórias no WRC e 46 pódios, mas os ambicionados títulos ainda estão para chegar. Será que o conseguem precisamente 20 anos depois de ter nascido o primeiro WRC?